BELA ADORMECIDA

Conto por Tânia Toffoli
12 de dezembro de 2005

Amanhecia e os raios de sol penetravam pelas frestas das venezianas iluminando docemente o casal que dormia entrelaçado num terno abraço seguro e aconchegante. Ele desperta com um suspiro e olha para o relógio ? hora de levantar, o trabalho. Levanta-se suavemente para não acordá-la; ela, ainda sonolenta, não abre os olhos e apenas se ajeita na cama, agora sem os braços dele. Ele entra no banheiro e, deparando-se com seu corpo nu no espelho, lembra-se da noite anterior com um sorriso orgulhoso, depois entra no banho. Ela ouve o som do chuveiro e da água caindo e sente a agradável sensação de estar bem acompanhada pela manhã, mas a preguiça ainda a impede de levantar-se, então cochila por mais alguns instantes. Ele termina o banho, seca-se com a toalha dela e volta para o quarto. Ela está deitada, ainda dormindo; tinha o corpo coberto pelo lençol e os ombros nus com os braços ao longo do corpo ? uma mulher nua na cama, uma mulher que dormira com ele. Sentia-se feliz por contemplar mais uma mulher nua que estivera na mesma cama que ele ? juventude, promiscuidade, vida. Estava vivo, tinha mais essa experiência para comprová-lo ? era vida, poderia contentar-se em morrer um dia se e somente se tivesse passado por tudo isso: vida. Ela o percebia ao seu lado, mas ainda com os olhos fechados não sabia se ele se vestia, se secava ou o que quer que seja que fizesse, mas permanecia inerte, desfrutando a languidez da preguiça. Ele se aproxima, se abaixa e a beija suavemente. Ela abre os olhos e vê um sorriso seguido de um “bom dia”. Ela sorri e se espreguiça. Ele se veste, desculpando-se por tê-la acordado tão cedo, mas ele precisava ir ? o trabalho. Ela se levanta e se veste em silêncio, satisfeita com a diversão e a despedida iminente. Ela o acompanha até a porta, ele a beija, agradece, se desculpa, cumprem seu papel de polidez. Ele pára, olham-se nos olhos e ele diz que vai demorar para esquecer dela. Ela sorri, não tão envaidecida quanto tocada. Ele olha seu sorriso um tanto sem graça:

-Você não, né?

-Não.

Os dois sorriem com seriedade e ele parte.

Ela fecha a porta e suspira. Melhor agora do que depois de sentimentos e apegos. Melhor agora que as lembranças são pequenas e condenadas ao esquecimento, se não dos fatos, ao menos das sensações decorrentes deles, como num sonho cujas sensações causam algum incômodo quando se acorda e talvez durante o dia que segue, mas que depois vão se desfazendo como fumaça.

Ela vai até o banheiro, pega a toalha molhada, volta para o quarto e retira os lençóis e fronhas e atira tudo num grande cesto de lixo ao lado pia da cozinha. Melhor agora que os objetos que remetem às lembranças são poucos e passíveis de destruição. Melhor agora que ele não é parte de nada ? nem do presente, nem do passado, nem promessa de futuro.

Ela se deita novamente para acordar novamente umas horas mais tarde, de volta a sua velha vida, sem nenhuma presença no quarto, sem apegos, sem sentimentos. E, talvez com sorte, algumas lágrimas.


Titulo: BELA ADORMECIDA

Autor: Tânia Toffoli

Gênero: Conto

Data de publicação: 12 de dezembro de 2005

Resumo:

Melhor agora do que depois de sentimentos e apegos.”

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Quem é Tânia Toffoli?

Estudante de letras, 19 anos, amante da literatura.

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