Benção

Conto por Tiago Russel
12 de abril de 2005

Tudo o que eu tenho é a minha insanidade. Sem ela não conseguiria viver hoje em dia. Quando nada mais faz sentido, voilá insanidade. Uma vista só minha, onde as peças se encaixam da forma que mais me agradar.

A insanidade tem suaves matizes. Eu posso passar por alguém na rua e fingir não reconhecer. Isso não é insanidade, é cara-de-pau mesmo. Mas, dentro do guarda-chuva da loucura, eu posso confortavelmente me fazer de louco e olhar para frente, como se não reconhecesse nenhum rosto ao meu redor.

Olho pra cima e vejo insanidade. Pessoas pulam dos edifícios, cortando o ar aos berros e manchando a calçada de sangue. Pouco perto do barulho dos foguetes carregados de bombas matando gente inocente. Quem manda aperta o botão e dorme com a maior naturalidade. Quem obedece morre, de preferência aos berros. Acho isso uma demência.

Loucura mesmo seria soltar os presos e prender a polícia. Melhor seria prender todo mundo, já que ninguém sabe mais em quem confiar. Eu vivo trancado, torcendo pela sorte. Busco não chamar a atenção nem andar na rua no horário errado. Um horário que não existe, já que nunca está certo. Loucura não?

Hoje cada vez mais pessoas adotam a teoria da insanidade para simularem uma vida sã. Nunca vi tanta infidelidade disfarçada de loucura passageira. Namoro, noivado ou casamento, parece que tá todo mundo louco pra dar. Todo mundo no ritmo do loucura, loucura, loucura… Claro que também existem as loucuras do coração. E estas são as piores. Lotar uma caixa com milhares de bilhetinhos coloridos de “eu te amo”, montar um quebra-cabeça com ramalhetes de rosas, rasgar a agenda de telefones das outras, compor uma música sem arranjo no mais perfeito e puro desarranjo cotovelal. Mas a insanidade maior ainda é conhecer a sua alma gêmea e perguntar o signo pra saber se o mapa astral dos dois bate. Ou virar as costas pra única certeza que você já teve na vida, desistir de reconquistar aquela única pessoa que realmente fez sentido no seu mundo real… voilá, insanidade. Viva! Viva! Viva!

Enquanto isso sigo loqueando por aí. Bebo, danço e me divirto. Vou contra expectativas que não existem mais. Solto o verbo de forma desconexa, só para relaxar. As pessoas nem sabem mais como me descrever, o que já é uma conquista num mundo onde a etiqueta diz tanto para muitos e tão pouco para os que realmente importam.

Tem também os Belezão. Gente que fuma um beque, estica uma linha e toma balinha pra ficar loucão. Pedra de crack é benção. Gente saindo da casinha tipo bicho, tipo cão. Todo mundo muito cabeção, só querendo saber de chapar o melão… ão, ão, ão… ninguém percebe que idiota é esta repetição? Chegou a hora do macaco reverberar: existe aquilo que é insano, e aquilo que não é são.

Sorte ou azar, hoje em dia o mais comum é ver aquelas pessoas que se fazem de loucos. Gente barata e rasteira, que pensa em subir na vida sem sentir os pés, pisando e massacrando aqueles que estão embaixo. Uma gentinha vazia, filho do primo da mulher do dono de toda esta bagaça. São os filhos do rei com o próprio rei na barriga, príncipes indigestos que não se mantém em seus tronos porque veneram única e exclusivamente o próprio umbigo. Reféns do buraco por onde suas mães os alimentavam ainda no útero. Papo indigesto.

Algumas vantagens eu só consigo ter na minha insanidade. São visões psicodélicas, como viver para ver um Governador Rigotto menos careta. Gostaria de enxergar lampejos de criatividade por baixo de tanto botox. Mas estou cego. Juro que mijaria de rir vendo nosso governante tendo senso de humor, só pra variar. Mas deve ser difícil mesmo rir de tanta coisa errada num governo só.

Chega! Já falei mal de um monte de coisas, pessoas e situações. Por favor relevem. Devo estar ficando louco.


Titulo: Benção

Autor: Tiago Russel

Gênero: Conto

Data de publicação: 12 de abril de 2005

Resumo:

É coisa de maluco.

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Quem é Tiago Russel?

Escrevo como válvula de escape. Antes que a vida me escape.

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