Conto por Tiago Russel
14 de agosto de 2003

Ao lado do rádio-relógio, o tarja preta reluzia um bom dia irritante. Fazia alguns anos a rotina o impedia de pensar sozinho. "Duas boletas por dia, redenção sadia". Desde o jardim da infância esta infâmia o perseguia.
Faltavam forças para evitar aqueles dois goles necessários para faze-lo engolir tanta felicidade goela abaixo. Pai, mãe, tio, tia, avô, avó, vizinho, namorada, chefe, cachorro. Todos, sem exceção, o condenariam caso não cedesse. Poderia até mesmo perder o emprego. Se bobear, o próprio auxílio do governo. E não podia dispensar aquela grana. Era com ela que pretendia fugir daquele inferno.
Mais uma vez, estava ele na fila do incentivo. A alegria das pessoas já não o afetava. Desemprego, inflação, time na segunda divisão, nada mais importava. Como elas, já tinha alcançado o nirvana. Era mais um infeliz feliz artificialmente. Mas tinha diferença. Ahhh tinha sim. Ao contrário dos outros, ele sabia o que estava fazendo. Bastava fazer o jogo do sistema e enganar o maldito detetor. Era se fingir de alegre, engambelar a máquina, sorrir para o fiscal e colocar o dinheiro no bolso.
O sistema do governo era infalível, diziam. Somente ele sabia que não. Bastavam duas boletas e um objetivo: se livrar da felicidade. Qualquer máquina ou fiscal do governo caia naquele papo. Enquanto ele enganava o sistema e financiava seu plano fingindo alegria, era realmente feliz. Verdadeiramente feliz sabendo que tudo aquilo traria sua infelicidade sonhada, é muito importante frisar. Há! Nada poderia dar errado.
Colocou o dinheiro no bolso, subornou o farmacêutico e cortou pela metade a ração mensal. Tudo o que ele queria agora era um lugar só dele, longe dos olhares e alegrias alheias. Nada de andar nu, fumar um baseado ou promover uma suruba. Queria apenas a liberdade de um quarto escuro. Grande o bastante para se sentir completamente sozinho, para curtir toda sua depressão sem interrupções.
Maniaco-depressivo. Bipolar. Novo Happy. Restabelecido. Ele fez o dever de casa e estudou todos os passos. Há anos a indústria farmacêutica vem trabalhando a opinião pública elegendo estes nomes patéticos. Gastando bilhões para colocar políticos em cargos-chave. Até finalmente condenar todos à eterna felicidade.
Ele sabia. Aprendeu com a história. E queria distância disso. Nada mais de “bom dia” com ponto de exclamação por qualquer coisinha! Nada mais de “por favor”, o “senhor primeiro” ou “não foi nada amigão” nas filas do supermercado. Sonhava com o fim das malditas câimbras faciais de tanto sorrir.
Tinha saudade dos psicólogos, mesmo sem saber direito para que eles serviam. Mas achava fascinante que alguém pudesse escutar as tristezas de outro alguém sem ser importunado pela polícia. Queria sentir o gosto salgado da lágrima fria que escorria pela face, sem as gargalhadas como efeito colateral. Presenciar acessos de fúria, quebra-quebras e “filhos da puta”! Ah, como queria olhar bem pra cara de alguém e fazer de tudo para escutar um “vai te fuder” gostoso, daqueles que vem de dentro da alma.
Olhou-se no espelho e viu seus olhos brilhando, a cabeça erguida e o queixo proeminente. Somente a idéia de que tudo aquilo um dia pudesse vir a existir o deixava diferente. A excitação do momento, a euforia da vitória. Estava tudo ali, na frente do seu nariz… até que se deu conta do horror em que estava metido. Puta que pariu! Ele era mais um maldito feliz.
Titulo: Boletas
Autor: Tiago Russel
Gênero: Conto
Data de publicação: 14 de agosto de 2003
Resumo: Isso é que dá querer ser diferente.
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Achei uma excelente sacada essa da ‘felicidade obrigatória’. E, no final, a conclusão de que ela não é obrigatória. É inevitável.