Caixa-preta

Conto por Tiago Russel
9 de julho de 2003

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Ilustração: Bricio Dias

Cortam minha carne em pequenos filetes. Tiras de onde o sangue não cansa de jorrar. Minha boca sente seu sabor doce com espanto. Fora isso, nada mais sinto. Perdi esta habilidade há muito tempo atrás.

Minha cabeça está longe. Guardada num jarro largo, daqueles em que servem laranjada, na prateleira mais alta de uma estante mal iluminada. Mamãe ficaria orgulhosa. Finalmente consegui subir na vida.

Aproveito o ponto de vista privilegiado, única coisa que resta fazer na minha situação. E, apesar da dificuldade de enxergar à meia-luz, analiso friamente a alegria das bestas enquanto despojam meu cadáver gelado. Eles procuram alguma coisa. E com vontade.

Um a um, todos os meus órgãos vão sendo arrancados sem nenhum cuidado ou respeito. Tento cobrar um mínimo de educação, mas minha língua, pregada na parede, desautoriza este desejo. Conformado, percebo o brilho no olhar dos ogros quando estes conseguem acabar de serrar o meu peito. Estranho a reação deles. Passam a analisar com mais cuidado. A ferocidade não é mais a mesma. Chegam a ser delicados até.

Extraem meu coração com todo o zelo. Anos de ferro, chumbo e aço o deixaram tão pesado que os malditos unem esforços para retirá-lo da sala. Do outro lado da porta, vejo flashes de maçarico e escuto o som abafado de marretas trabalhando no que restou dele. Os idiotas não encontrarão ali o que procuram. Agora eu sei. Já que ainda nada sinto.

Sou de uma estirpe diferente de sobrevivente. Incoerente, guardo sentimentos no escuro da alma, num fundo falso escondido embaixo do tapete. Isolados de tudo lá fora, torno-me incapaz de sentir dor, alegria, compaixão, amor. Vivo condicionado a trancar tudo isso numa linda caixa de prata sem chave ou fechadura. Grande o bastante para guardar todas as formas de sentir. Pequena o suficiente para deixar o arrependimento do lado de fora.

Eles estão voltando. Há ódio no olhar. Mesmo sabendo que vão acabar o serviço com ainda mais ímpeto, eu nada sinto. Pelo menos até eles encontrarem a caixa. Nesta hora, provavelmente me arrependerei de ter nascido.


Titulo: Caixa-preta

Autor: Tiago Russel

Gênero: Conto

Data de publicação: 9 de julho de 2003

Resumo:

Em algum lugar os sentimentos ficam registrados.

3 Comentários

  1. Mário disse:

    Gostei muito. Seria um vivo, que teme na carne a avidez de lhe tomarem os sentimentos? Seria um morto, que observa a frieza e a morbidez daqueles que o conheceram? Seria uma reflexão sombria e metafísica sobre os sentimentos? :-)

  2. Alexandre Piccolo disse:

    um mistério permanece dentro e além texto…

  3. PH disse:

    Tinha lido este conto no Pulso. Achei muito sinistro. Muito mórbido e não menos “estranho”, no sentido de bom, no sentido de interessante…

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Quem é Tiago Russel?

Escrevo como válvula de escape. Antes que a vida me escape.

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