Caleidoscópio

Conto por Tiago Russel
5 de agosto de 2003

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Daniel Poletto

Ventava muito, e nenhuma das pessoas presentes entendiam uma palavra sequer que saia da minha boca. Na verdade, nem eu entendia direito o que estava tentando dizer. Eram perguntas sem resposta. Pelo menos nenhuma que eu soubesse responder.

Luzes fortes. Irritantemente brancas. Lembro de meu pai, ensinando-me a não olhar diretamente para o núcleo. Subitamente, tenho vontade de chorar. Lágrimas, antes tão comuns na infância, simplesmente se recusaram a me acudir. Meu irmão, então, segura meu braço. "Como ele cresceu", penso, enquanto sua mão envolve totalmente meu pulso.

- Venha, - ele diz - venha por aqui. Eu conheço um atalho.

Atalho. Se existe alguma coisa irresistível para mim, se chama atalho. É como se aparecesse uma placa em néon, piscando atraentemente, insinuando uma promessa de vantagens, uma maneira de chegar na frente, ganhar tempo, gastar menos energia. Uma atração que nem sempre deixou boas recordações. Lembro daquele policial que não entendia uma explicação simples como esta. Me custou uma noite na delegacia, e semanas de incomodações. Sorrio. Meu corpo se enche de alegria. Minha boca, transborda saliva. Tão salgada que engasgo.

Engasgo como um bebê que luta para cuspir o aviãozinho. Aquela colher torta, brilhante, nas mãos desastradas de babás desajeitadas. Aquilo sim era um atalho. Não importa para onde. Nunca se conseguia fugir daquela porcaria. E tome mais papinha para "crescer". Argh! Se pelo menos bebês pudessem tomar uma Kaiser antes!

Bem gelada, em copo de cristal. Tá, cristal é exagero. O único e verdadeiro pré-requisito é estar rodeado de amigos. Fazer amigos. Lembro que aprendi isso com o Tio Negrão. Cara manchada, gordo, rei da razão e, apesar de tudo isso, extremamente simpático. Não entendia como aquela pessoa podia roubar minha platéia, ofuscar meu spot de luz, e ainda assim me fazer respeitá-la. Poucos conseguiram isso. Até porque, agora sei, eu era a platéia. Saber disso de forma inconsciente é que criou tanta admiração. Pelo menos agora estou tranqüilo. Não entendo o que está acontecendo, mas com certeza sou eu o centro das atenções.

Garganta seca. A língua cresce desproporcionalmente. Cola no céu da boca, como aquela vez que engoli um tubo de Tenaz para ganhar a figurinha que completaria meu álbum. Putz, minha mãe ficou mesmo uma fera. E uma fera sempre consegue ser dominada. Por isso, até hoje, ela perde a razão. Eu tenho o chicote e a cadeira. Pobre dela, que não viu isto ainda. É estranho como funcionam estes relacionamentos. No fundo, a amo. Um amor impaciente, sem vontade de acabar esta frase.

Amores não são iguais. Lembro do primeiro. Mas com certeza dou mais valor ao último. Tanto ainda para acontecer, e eu o soterrando de trabalho. Ela compreende, eu sei. Mas… e eu? É uma luta entre dois amores. Ou entre um amor e uma paixão? Não sei. De novo, mais uma pergunta que não tem resposta. A diferença desta é o medo. Nada parecido com qualquer monstro-debaixo-da-cama. Um medo insistente, chato, daqueles tão presentes que você se acostuma com ele. Uma convivência protocolada, distante, fria.

Frio, muito frio. Parece que estou só de cuecas na varanda da fazenda. O cheiro dos eucaliptos invade o ambiente. Enquanto o Minuano rasga suas folhas, a esperança de ver o Halley não passa de um trote.

São metais no meu corpo. É o aço reagindo ao inverno. Eu nu, ali deitado. Uma corrente elétrica embaralha ainda mais meus pensamentos. Lembro-me dos filmes de ficção científica, com ETs abduzindo crianças para estudar seus corpos. Era legal assistir comendo pipocas, esquentando o corpo na frente da lareira, ao lado daquela menina linda que a boca gaguejava na hora da declaração. Um dos meus primeiros porres foi assim. E o melhor, com lucro. E pensar que eu consegui viver no tempo em que camisinhas não passavam de contracepção. Pensando bem, com uma iniciação destas, eu tinha tudo para ser um alcoólatra inveterado. E talvez o seja.

Mais um choque. Porra, que dor no peito. Deve ser brincadeira o que esses caras estão tentando fazer.

Bip, bip, bip, bip… acordo. Minha boca cheia de sangue. Nenhum túnel, ou muito menos luz em seu fim. Só a minha vida passando diante dos olhos. Pelo menos desta vez não peguei o atalho. Mais uma vez, estou vivo.


Titulo: Caleidoscópio

Autor: Tiago Russel

Gênero: Conto

Data de publicação: 5 de agosto de 2003

Resumo:

Alucinações ou devaneios. É a vida?

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3 Comentários

  1. Herbie disse:

    O texto parece passar exatamente o que acontece nesses flashes, quando nossa vida passa diante dos nosso olhos numa fração de segundos. Ótimo texto!

  2. Mário disse:

    Ótimo. Uma parágrafo puxando outro com palavras comuns, como num fio de memória que mistura sonho e divagações.

  3. Alexandre Piccolo disse:

    Legal, Tiago. Onírico, bela mistura de lembranças, sensações e reflexões, curioso caleidoscópio.

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Quem é Tiago Russel?

Escrevo como válvula de escape. Antes que a vida me escape.

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