Conto por Tiago Russel
5 de junho de 2003

“Teu passado te condena!”. Esta frase o perseguia em todos os lugares. Mas geralmente o alcançava no fundo de um copo.
Tentava manter-se sóbrio a todo custo. Mas o peso da base do copo era mais forte. Jogava os cubos de gelo uma a um. Adorava o som das pedras tilintando no vidro. Era um cara sofisticado. Mas não o bastante para deixar um 12 anos envelhecer um segundo a mais sequer.
Tudo culpa do seu passado. “Teu passado te condena!”. Maldito passado que já tinha passado. Maldito impiedoso. Maldito, maldito, maldito! E pensar que em 12 anos davam para criar um bom uísque, mas não dava chances para mudar seu destino.
Foi cego. Fechado. Insensível. “Teu passado te condena!”. “Teu passado te condena!”. “Teu passado te condena!”. “Teu passado te condena!”. Basta! Quebrou todos os relógios ao seu redor. Arrancava seus ponteiros com retoques de sadismo. Queria ver ele sofrer. Era seu único alento.
Numa noite, acompanhado do Jack e do Johny, chegou a uma importante conclusão: o passado era um carcereiro sem alma. Sim, ele não condenava apenas. Ele era a própria prisão. Sem grades, sem muros, sem guardas, sem apelação. Sem esperanças.
Viveu o resto da sua vida buscando o passado. Deixou a terra sem conhecer o futuro. Cirrose hepática? Cirrose pulmonar? Não. Desta vez, a cirrose atacou o coração.
Titulo: Cirrose
Autor: Tiago Russel
Gênero: Conto
Data de publicação: 5 de junho de 2003
Resumo: O passado não condena. Mata.
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Não se sinta assim, Jack. Continue andando…