Conto por Alexandre Piccolo
16 de março de 2004
Caro leitor ou leitora,
desculpa-me o pouco caso. Por problemas pessoais, não pude escrever-te adequadamente um "textico" qualquer, com algum sentido ou começo, meio e fim - como de costume (ou nem tanto assim).
Para não passar a coluna em branco, aborreço-te com umas linhas antigas, mal cerzidas e costuradas neste espaço dos bits. Fica, pois, o conselho: pára aqui e diverte-te.
Se prosseguires, vais por conta e risco. Não desculpo-te mais o piparote.
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Solipsismo "dito" urbano
A cidade cheira a óleo e borracha queimados e ninguém dá a mínima. A paisagem que vislumbro na sacada congela o pesadelo urbano ? ou melhor, subterrâneo ? em cuja ternura pecaminosa se mimetiza o sonho de quem se encanta com o palavrear desconhecido destas ruínas de pedra. Plástico e pulsos elétricos protegem histórica e cientificamente, como a fabulosa gaiola de Faraday, todos aqueles que rondam e preenchem imperceptivelmente este amplo vazio desconhecido, em busca de um inexplicável sopro único, de uma vã lufada de vento vitorioso que eleva-os às maiores alturas, aos olhos alheios da eterna vaidade, como príncipes ao montar campeões cavalos alados, acenando pomposos para uma fantasmagórica procissão dos derrotados.
Descendo no elevador rumo à padaria, me visitam as tardias lições de latim e uma sábia sentença de Ovídio: hic, ubi nunc Roma est, orbis caput, arbor e herbae et paucae pecudes et casa rara fuit. Chacoalho e removo tudo desta cabeça inimaginável, insana, esta cabeça onde habitamos, existimos e somos: um lugar cuja descrição e essência não cabe em simples sintagmas que evoluíram pluralmente aos idiomas de hoje. Vejo árvores, ervas, arbustos, pastos, campos, choupanas, cabanas, edícios ? singulares e insignificantes ? e tudo o que erigimos rumo à padaria e seu pão nosso de cada dia. A iluminada e falsamente silenciosa caixa mágica que me transporta das alturas ao solo sintetiza revolução e revolta, daquele fleumático encanador que se encaixa e se esconde à executiva anoréxica que descobre as leis do universo, as racionaliza e divulga e, por fim, finge acreditar domá-las. Saio do elevador como quem sai todo dia à vida e não dá a mínima, ouve tocar uma flauta ao fundo entremeada à conversa entre dois-três na portaria. Fujo, como todo mundo foge.
Titulo: Comunicado solipsista
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Conto
Data de publicação: 16 de março de 2004
Resumo: Não cuide disto, não vale a pena.
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