Conselho S.A. parte final

Conto por Leonardo Augusto
8 de agosto de 2003

O olhar apatetado de Lucas, quando Laura tapou-lhe a boca com uma mão, adicionou à comiseração que lhe tinha um afeto maternal; e quando o arremessou para debaixo da mesa, pressionando o indicador sobre os lábios, parecia que se dirigia ao filho homem que seu esposo quis e não teve. Já podia ouvir, isso sim, a voz da filha Emília, que entrava gritando em casa e, como sempre, invadia seu escritório como um furacão. Correu a abraçá-la, perguntando como fora a aula de ginástica e por que chegava tão cedo. Diógenes apareceu à porta e antecipou a explicação: ficara livre antes do previsto e foi buscá-la para tomar um sorvete. “Mas sorvete antes do almoço ? Laura protestou ? você vai estragar essa menina!” Pegou a filha no colo ? e já era bem difícil, “você fica cada dia mais pesada!” ? saindo para o corredor e beijando o marido, e tomou o rumo da sala.

Lucas respirou fundo, tentando se acalmar. Ele não teria nunca a desenvoltura de Laura, que se portava como adúltera experiente, e nem chegara a sê-lo, não aquele dia ao menos. Através da porta aberta, ouvia seu amigo contar que levara um cano de um cliente, mas não o citava diretamente, ainda bem. Pois se ela soubesse de mais esse detalhe de sua pusilanimidade, estava perdido de vez. Mas ela respondia jocosamente: “E você ainda insiste nessa baboseira de terceirização de bom senso! Devia arranjar um emprego sério!” Ele se irritava: “Você viu meu negócio prosperar, só estou em uma fase difícil!” “Desde que foi mandado embora da fábrica, tudo tem sido difícil, não? Não fosse a grana que meu tio deixou, já estávamos na merda há muito tempo!” “Fale baixo, a Emília…” “Ah, vem aqui então!”

E o arrastou para dentro do escritório, fechando a porta. Lucas se encolheu ainda mais embaixo da mesa, atrás da lixeira, suando frio. Tudo indicava que ela deliberadamente expunha a realidade de seu casamento, e ele sorria amarelo, satisfeito mas constrangido. “Laura, por que diabo você me agride assim sem motivo?” “Sem motivo? Eu tenho suportado sua fanfarronice, sua pose de sabido, seu ar triunfante… mas o que você é mesmo é um derrotado! Eu me calo, mantenho a fachada de mãe-de-família burguesa, realizada, e por quê? Por nossa filha é claro, mais nada…” Agora era a vez de Diógenes balbuciar sem resposta, o efeito daquela mulher era devastador. Ela prosseguiu: “Se você é tão bom em dar conselhos, diga o que eu devo fazer, seja imparcial. Finja que uma quarentona entra em sua empresa e narra minha vida: que é casada com um palerma presunçoso, bem sucedida profissionalmente e herdeira de um grande industrial, o que você diria?” “Mas você não comentaria sobre os bons momentos?”, defendeu-se ele com a voz embargada. Lucas criava confiança, ia se sentando mais confortavelmente, seus olhos brilhavam.

Agora suponha ainda que ela reencontre a única pessoa que a amou de verdade, e então?” “Isso não, não pode ser. O que você quer dizer com isso?” “Nada, só me diga seu diagnóstico. Eu posso pagar, olhe…” “Você devia, ou ela devia, é visitar um psiquiatra!” “Ué, não confia mais em si mesmo? Pois eu digo: essa mulher deve pedir o divórcio!” Os pés de Diógenes percorriam de cá pra lá o pequeno cômodo, Lucas os acompanhava sorridente. “Eu não acredito que aquele babaca tenha feito isso! E que você tenha…” “Que babaca, de quem você está falando?” “Do Lucas, é claro!” “E como você sabe que ele me procurou?” “Pois era ele o cliente que me deixou na mão hoje!” “E você não me contou nada, por medo, não? Pois é tarde, Diógenes: acabou tudo. Levante-se Lucas.”

Ele então se ergueu com o máximo de compostura possível, estava pronto a se defender se o outro partisse para a agressão. Mas não foi preciso, Diógenes se limitava a repetir “não acredito”, com a cabeça contra a parede. Seus olhares se cruzaram e Lucas deu de ombros, tomando Laura pela mão e alcançando a maçaneta. Entre soluços, o sábio conselheiro perguntava a si mesmo “O que vou fazer, como posso continuar sem você?” “E sem a pequena Emília, é claro” acrescentou Laura. “Experimente escrever ficção, você tem vivido disso até hoje!” Lucas tripudiou finalmente sobre o rival.


Titulo: Conselho S.A. parte final

Autor: Leonardo Augusto

Gênero: Conto

Data de publicação: 8 de agosto de 2003

Resumo:

Agora chega!

4 Comentários

  1. Herbie disse:

    Excelente como o “final feliz” caiu bem! Parabéns!

  2. PH disse:

    Bom, Léo. Vc manteve uma narrativa relativamente longa, prendendo a atenção dos leitores. Caracterizou bem os personagens e o formato de folhetim caiu muito bem para a trama. A única ressalva é realmente o final abrupto que não fugiu um pouco do ótimo nível de toda a narrativa. Parabéns pelo texto! Classe A.

  3. Mário disse:

    Gostei, Leonardo. Apesar de eu ter achado o fim muito abrupto, as três personagens foram muito bem caracterizadas, como já comentou o Piccolo sobre o patético Lucas. A esposa pedindo conselhos ao marido também foi uma boa sacada. Deu pra perceber também como Diógenes foi satanizado por você… Seria pelo estúpido negócio que abriu? Fica no ar… Parabéns.

  4. Alexandre Piccolo disse:

    Enfim um desfecho à narrativa folhetinesca. Com tantos conselhos por todos lados, se dá bem quem deles foge. Lucas, apesar de triunfal, pareceu-me patético.

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