Conselho S.A. – parte I

Conto por Leonardo Augusto
16 de julho de 2003

Lucas não pôde crer de início, mas era aquilo mesmo que ele lia escrito num luminoso, no prédio da calçada oposta. Conselho S.A.? Terceirização de Bom Senso. Bronzeamento artificial e agência de casamento já lhe eram difíceis de aceitar, e agora havia, pois bem, uma firma de terceirização de bom senso… formidável.

Surpresa maior haveria ele de encarar ao encontrar dentro do recinto grave e sobriamente decorado um amigo de faculdade, agora já grisalho mas com um sorriso inalterado pelas décadas de separação. O abraço foi inevitável e caloroso. Serviu para quebrar o gelo, piadas e cumprimentos de cá e lá, o assunto da firma ficou em terceiro plano. Terceiro porque, por trás da máscara de afabilidade, os dois lembravam da certa rivalidade que tinham, ainda que fosse apenas um jogo. Um ficava imaginando se o outro se casara com uma mulher mais bonita e o outro se o primeiro comera aquela gatinha da Arquitetura que ele curtia. Riram-se da tolice e perguntaram ao mesmo tempo: “Você comeu…” “Você se casou?”

Risadas bastantes, Lucas perguntou afinal a Diógenes ? sim, assim se chamava ? que diabos de negócio era aquele. “Como assim, é a sacada do século! Sempre houve videntes, astrólogos e gurus ao serviço dos inseguros e indecisos, certo? Pois acontece que hoje as pessoas são céticas, e eu estou disposto a socorrê-los por uma módica quantia, só isso”.

Atônito, Lucas demorou uns instantes ? na verdade, era um traço dele meditar um pouco antes de falar ? antes de prosseguir. “Mas existe mesmo uma clientela que recorra a isso, porque eu quase caí na gargalhada, confesso, ao ver o letreiro…” “Claro, meu caro, e farta. Acontece que o número de decisões afetivas, profissionais e financeiras que um indivíduo adulto de hoje deve fazer é absurda. Assim como você não poderia lavar todas suas roupas e preparar todas suas refeições, não há como decidir tudo, sob o fardo da responsabilidade e o jugo das emoções, não lhe parece claro?”

“Não, pois eu lavo minhas roupas, preparo minhas refeições e tomo minhas decisões, e tenho me saído razoavelmente bem”.“É, mas não se casou pelo visto…” “Isso lá é verdade, mas cheguei bem perto mais de uma vez, e você?” “Bem, eu me casei com a Laura, da Arquitetura, lembra?” “Porra se eu lembro, eu tentei de todo jeito… seu filho duma égua sortudo!” “Pois é meu amigo, velho amigo; o mundo dá voltas”.

“Mas diga mais, como funciona essa história?” “É simples demais, a pessoa entra, tem uma primeira entrevista comigo, fala quem é e o que a aflige, eu me apresento, me vanglorio um pouco de ter duas graduações e um mestrado, mostro as fotos da minha família linda ? você precisa conhecer a pequena Emília, veja ? e é o que basta para ganhar-lhe o respeito e a confiança. É claro que ajuda chamar-se Diógenes, um nome que sozinho já inspira credibilidade”.

Lucas fitava o ar sem saber o que dizer. Queria se aprofundar mais, mas tinha que afastar a lembrança de Laura, cujas feições lhe voltaram à mente com toda força através da visão de sua descendente. Perguntou mecanicamente: “Há quanto tempo você montou a firma?” Dois anos, ouviu em resposta. “Sozinho?” “Não, minha esposa costumava ser minha secretária, mas preferiu voltar a seus projetos, trabalha em casa. Aliás, ela que desenhou este ambiente, não é aconchegante? Nosso apartamento, também, fica num prédio que ela desenhou, aquele novo e luxuoso à beira mar, sabe?” “Puxa vida… meus parabéns. Me diz, você tem uma clientela fixa ou o quê?” “Sim, há clientes da mais alta importância inclusive, que me exigiram segredo, é claro”.“E quanto a você, não gostaria de marcar uma entrevista qualquer dia? Nenhuma grande decisão pela frente?” “Não… eu levo uma vida bem descomplicada: trabalho pro governo, moro sozinho, visito meus pais no fim de semana”.

“Ah! Mas aí está: falta-lhe um ímpeto renovador! Você precisa mandar tudo pelos ares e começar de novo!” “Você acha mesmo?” “Veja bem, não posso achar nada sem cobrar meus honorários. Mas passe aqui na semana que vem e nós conversamos”. Após mais uma pausa meditabunda Lucas fez um gesto negativo, mas sem convicção. Sem perder o sorriso, Diógenes lhe estendeu um cartão de visita, insistindo para que marcasse um horário.


Titulo: Conselho S.A. – parte I

Autor: Leonardo Augusto

Gênero: Conto

Data de publicação: 16 de julho de 2003

Resumo:

Um reencontro inesperado e um negócio inusitado em um conto inacabado

4 Comentários

  1. Herbie disse:

    Cara, termine logo! :) Muito legal!

  2. PH disse:

    Bom, Leo, muito bom. Aguardamos a continuação…

  3. Alexandre Piccolo disse:

    Muito bacana, Leo. A idéia é ótima, os diálogos fluentes e a conclusão promete…

  4. Mário disse:

    O conto é promissor. Esse “absurdo”, gozado, casaria bem com uma capa exclusiva da revista Exame… ;-) Sugestão: na web, fica melhor separar com uma linha adicional os parágrafos. Facilita a separação do texto em blocos.

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