Conselho S.A. – parte III

Conto por Leonardo Augusto
30 de julho de 2003

Uma brisa gelada de repente o atingiu. Coincidiu com o ruído do portão se abrindo, uma descarga elétrica que percorreu sua espinha, uma injeção de adrenalina disparada pelo botão do porteiro: “Pode subir ?seu? Adauto.” Será que só agora ele percebia a maluquice que estava fazendo? Certamente não, mas se isso antes o estimulava mais, agora o fazia estremecer. Literalmente, pois o dedo que apertou o botão chamando o elevador vibrava freneticamente. Fôlego após fôlego, logrou descer no último andar e tocar a campainha que chamaria para diante de si seu grande amor não correspondido, pensamento que lhe arrancou um sorriso de escárnio de si mesmo. Mas quem abriu a porta foi a criada, criatura de feições e dimensões incompatíveis com sua expectativa, o que o exasperou mais além. Pediu um copo de água antes de ser conduzido ao escritório onde Laura esperava não a ele, mas ao cliente que ele inventara. Lucas teve mais um calafrio ao cogitar que se Diógenes desistisse de esperar e voltasse a casa talvez o que ia precisar de uma reforma seria sua própria cara.

Tão logo caminhou para dentro do aposento de trabalho de sua musa, e lançou o olhar sobre ela, sua imprudência foi justificada: Laura continuava linda, com a serenidade que o tempo conferira a seus traços, em sua essência, inalterados. Tranqüilizou-se como que por mágica. Não por muito tempo, entretanto, pois ela não parecia reconhecê-lo; e recebeu-o muito cortesmente, indicando-lhe uma cadeira. Depois das formalidades iniciais e da inevitável observação meteorológica, Laura partiu para assuntos profissionais: “Onde fica a casa em questão, afinal?”

Lucas ruiu. Desatou em choro copioso, infantil. Apontava pro próprio peito, dizendo entre soluços algo ininteligível. Foi o suficiente para que ela matasse a charada. Se de início lhe pareceu estranha a semelhança do cliente com aquela figura já esmaecida na memória, sua voz e por fim seu comportamento extremo não deixavam dúvida. Era ele, Lucas, com quem tivera um relacionamento breve em sua mocidade, mas cuja tendência para o drama ? inalterada até hoje, pelo visto ? dentre outras coisas, a levou a repeli-lo. Na verdade, à época, ela somente não queria compromisso, entrave algum a sua liberdade. A independência feminina era novidade muito em voga, e ela estava disposta a exercê-la. E o teria feito ? no sentido bíblico ? com Lucas, eventualmente, se ele não falasse sempre em casamento.

Depois desses instantes em que se limitou a observar seu desespero e a repassar as antigas impressões, resolveu acudi-lo. A misericórdia superava a surpresa e a raiva pelo ardil. “Lucas, não fique assim, fale comigo…”, disse se aproximando. “Ah, quer dizer que você ainda me conhece! E estava fingindo que não!” “Não, é que… eu não esperava nunca!” Aos poucos ela foi apaziguando-o, com palavras doces e consoladoras, que ele entendeu a seu modo, ensejando um beijo. Ela habilmente o rechaçou, mas isso só reavivou seu pranto. Ele começou a lamentar-se da injustiça do mundo, por que fora derrotado justamente por seu amigo? Nisso foi ela quem se sentiu sacudida. Era verdade que fora um ato de despeito, que na verdade nem conhecia Diógenes o suficiente ao se entregar a ele, só queria atingir Lucas. Mas o truque nunca funcionou porque Diógenes soube manter segredo, o que ela nunca esperaria, além de cultivar nela um hábito, disfarçado de sentimento, e a convencer por fim, da viabilidade de uma união duradoura (precoce que era no ramo dos conselhos). Por esse tempo Lucas fora estudar na Europa, ou foi o que lhe disseram, e só hoje reaparecia. Mas ela não podia admitir agora sua fraqueza, nem que fez o contrário do que acreditava, nem que o resultado disso tenha sido um casamento de aparência. Estava amargamente ruminando essa angústia, num meio-abraço com o herói desconsolado, quando ouviu o ruído da porta da frente se abrindo: seu marido chegava.


Titulo: Conselho S.A. – parte III

Autor: Leonardo Augusto

Gênero: Conto

Data de publicação: 30 de julho de 2003

Resumo:

Quase lá…

4 Comentários

  1. Herbie disse:

    Hehehehe…to rindo do comentário do Lixandre…:) Léo, tá indo muito bem!!

  2. Mário disse:

    Muito legal! O momento M está chegando… Ah, o clima de possível conflito está bem construído. Mas… virá em seguida um anti-clímax? Estou esperando pra ver!

  3. PH disse:

    xii… o bicho tá pegando…

  4. Alexandre Piccolo disse:

    Belo retrato de Lucas até então, patético.

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