Contos de século XX

Conto por Paulo Henrique
3 de fevereiro de 2003

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Pop art - imagem encontrada neste link

- Odeio americanos.

Disse aquilo mais por convenção do que convicção. Afinal de contas, era estudante. Não lhe caia bem o rótulo de elite, alienado, direitista, ou qualquer coisa que valha. A TV continuava focando o desastre.

- Eles merecem.

Repetiu mais uma vez quebrando o silêncio atônito daquela mesa. Diante do televisor, todos os sentidos adormecidos, menos a visão. Até que um dos companheiros acordou do transe, despertando os demais:

- Não, não merecem.

- Que é isso, não vê o que eles fazem com o mundo? Isto é pouco. O pior está por vir.

- Pode ser… mas este não é o caminho.

A garçonete oferece mais café. Todos aceitam. Não havia pressa, só perplexidade. O que estava até agora quieto, terminou seu croissant e pediu um cigarro. Parecia não estar nem aí para o que estava acontecendo. Mas, ainda assim, quebrou o silêncio com um ar salomônico pós primeiro trago:

- "Não há nada de novo debaixo do sol", já dizia o pregador.

- Ih, lá vem você com esta… vira o disco.

Mais silêncios, mais tragos, mais goles. Até que deu o intervalo.

*****

Não estava acreditando. Estava ali.

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Alemanha X Holanda, na final
da Copa de 1974

Conhecia tudo sobre o assunto, mas nunca imaginou fazer parte dele. Desde a infância se interessava por toda a história. Não a história de várzea, nem a nacional. A história do mundo, universal, que une povos e cala guerras. Que reerguem nações. E derrubam também.

Não que a várzea não fosse importante, longe disto. Aliás, compunha o cenário maior. Era sua base. Mas não convinha ficar concentrado em questões previsíveis e menores. Os mundiais eram a consolidação de todas as várzeas, de todas as nações. De 4 em 4 anos.

Sabia pormenores de todas as décadas. Desde a pré-história, lá no começo do século passado. O grande intervalo para guerra. O recomeço, justo no Brasil. Que predestinação… o país e um evento. Um nascido pro outro, na dor e no amor.

Veio carregando a lembrança de outros titãs. Os Alemães sua em força rompem barreiras praticamente intransponíveis, mas em outras ocasiões, sucumbem para a criatividade sul americana. O império romano, que compõe o período jurássico da história junto com os uruguaios, só se justifica 50 anos mais tarde, justo em cima dos brasileiros e dos alemães. E que justificativa!

França, Inglaterra, Argentina. Os donos da bola. Em seus países, não tinha pra ninguém, mesmo porque, ninguém se atreveria. "O fim justifica os meios". Esta frase que não foi dita por Maquiavel sintetiza estes ímpares capítulos. Como todos os demais, cada qual com sua imparidade.

Até agora. Não estava acreditando. Estava ali. Conhecia tudo sobre o assunto, mas nunca imaginou fazer parte dele.

*****

O clima estava fresco e o ambiente sereno. Ouviam-se cochichos, às vezes um soluço mais alto de choro. No entanto, a dignidade pairava no ar. Não tinha sido desastre, nem tiro, nem saúde. Era simplesmente a vida.

O velório já estava no final. Todas as lembranças, apreensões, alegrias, medos, dúvidas, gostos, prazeres, defeitos, sentimentos, simpatia, amizades e inimizades, cheiros e sabores jaziam ali junto com aquele semblante plácido. Nada mais disto incomodava. Passou, passou. Viveu, viveu. Tinha deixado algo para amanhã? Sempre deixa…

Mas já foi. A descoberta da vida foi generosa. Nas oportunidades, levantou coisas boas, construiu belas edificações. Destruiu várias, porém. Todas legítimas. Embalou-se no som de rock'n roll e foi na ilusão da liberdade. Correu atrás do vento. Deixou de correr atrás do vento. Quando percebeu, veio a queda. No instante seguinte se levantou. Repetiu toda a história e esta se tomou forma através de sua existência, portanto, ao seu modo era inédito. Mesmo sendo repetitiva.

Um dia parou. Como sempre passou. Tudo acabou. Apenas a chuva cai tórrida sobre tudo o que existe, esperando o próximo raio de sol.


Titulo: Contos de século XX

Autor: Paulo Henrique

Gênero: Conto

Data de publicação: 3 de fevereiro de 2003

Resumo:

Três contos curtos, numa ode ao século que passou.

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1 Comentário

  1. Mário disse:

    Ótimos contos! Legal alternância de temas em três contos que nos lembram bem momentos desse século passado e maluco. ;-)

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Quem é Paulo Henrique?

Cristão, mineiro, 25 anos e jornalista.

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