Conto por Bruno Santos
13 de janeiro de 2004

- Sr. Roberto Mesquita?
- Sou eu mesmo.
- Boa tarde, eu sou o Carlos Fonseca. Poderia me acompanhar até a sala, por favor?
- Claro! Desculpe-me pelo atraso, parece que Murphy resolveu atacar em todos os momentos que pôde até eu chegar aqui.
- Môrfi? É alguém da portaria?
- Não, não, quis dizer que houve uma seqüência inacreditável de infelicidades até eu chegar aqui.
- Ah, sim. Sente-se, fique à vontade.
- Obrigado.
- Então foi difícil chegar aqui?
- Um pouco. Houve trânsito pesado em São José, mais um pouco aqui na Marginal Tietê, desci na estação de metrô errada, depois acertei, mas um sujeito me deu informação errada e fez com que eu continuasse até o fim da linha, daí liguei pra um amigo para checar o caminho e ele confirmou a estação em que eu tinha descido. Voltei até lá e caiu esse temporal maluco de verão. Então peguei um taxi para não me molhar, nem errar o caminho novamente.
- Nossa, que azar, hein?
- Pois é, mas agora está tudo bem, espero não ter atrapalhado muito a sua agenda.
- Não, tudo bem, tudo é contornável. E aqui em São Paulo o trânsito é sempre uma ótima desculpa para qualquer atraso. Gostaria de tomar um copo d'água?
- Não, obrigado, eu já havia pedido à secretária.
- OK, podemos começar com a entrevista, então?
- Claro, quando o senhor quiser.
- Pois bem, senhor… Roberto. Trouxe o seu currículo?
- Pensei que o senhor já o tivesse em mãos, mas, sim, tenho um aqui comigo.
- Obrigado. Então, vejamos… Vinte e três anos, solteiro, formado em Ciência da Computação pela… UNIVAP, é isso?
- Isso mesmo, Universidade do Vale do Paraíba. Eu me formei agora em 2003.
- Certo, certo. Estágio em Administração de Redes no laboratório da faculdade… Estágio em Análise de Sistemas na consultoria técnica P2D… Mas o senhor pôde trabalhar como analista, mesmo fazendo um curso científico?
- Desculpe-me, mas grande parte das pessoas que se formam no meu curso tornam-se analistas de sistemas.
- Mas tem que fazer alguma especialização, certo?
- Não que eu saiba, senhor Carlos.
- Tudo bem, só estou checando as compatibilidades com a vaga.
- Claro…
- Sr. Roberto, qual é o seu nível de inglês e espanhol?
- Eu diria que tenho nível avançado nas duas línguas. Em inglês, às vezes, quando uma pessoa fala muito rápido, eu não consigo entender direito, mas em geral consigo me comunicar bem. Em espanhol é fácil, eu consigo entender tudo.
- Mas já fez curso?
- De inglês sim, mas de espanhol, não. Mas sempre que eu vejo um filme ou ouço uma música em espanhol, consigo entender bem. Acho que todo brasileiro consegue, né?
- Certo, certo. Sr. Roberto, quais são suas perspectivas para os próximos três anos?
- Bom, pretendo começar a trabalhar agora na área de TI e já iniciar uma pós-graduação. Meu objetivo profissional é me tornar gerente de projetos e por isso quero me desenvolver bastante, conciliando cursos extra-curriculares e experiência profissional.
- Certo, certo. E como o senhor se vê daqui a dez anos?
- Dez anos? É um pouco longe para me planejar, mas, não sei, espero estar financeiramente estável, com um cargo de alto nível numa empresa e, talvez, já casado, talvez com filhos. Não dá pra saber ao certo, né?
- Certo, certo. Então o senhor ainda não fez seus planos a longo prazo.
- Sinceramente, a tão longo prazo, ainda não.
- Me diga três qualidades e três defeitos seus.
- Bom, de qualidades, eu diria que sou muito pró-ativo, bastante dinâmico e gosto muito de trabalhar em equipes. De defeitos, vamos ver… eu sou um pouco ansioso, sabe? Gosto de ver as coisas prontas o quanto antes. Acho que eu também poderia controlar melhor meu tempo, pois às vezes acabo me atrasando um pouco quando vou sair com os amigos, ou chego alguns minutos atrasado em certos compromissos, quando não conheço bem o caminho. Um terceiro defeito… ah, eu me considero perfeccionista demais. Sabe, tudo tem que sair direitinho, se houver algum detalhe que me desagrada, eu me concentro nele até sair do jeito que eu quero, mas isso poderia atrapalhar o trabalho com um todo.
- Certo, certo. E qual seria sua pretensão salarial?
- Se não for problema, eu prefiro discutir esse ponto mais tarde. Gostaria primeiro de discutir a vaga, para depois entrar no mérito do salário.
- Certo, certo. Bom, Sr. Roberto. A vaga que eu tenho aqui é justamente pa um Analista de Sistemas, numa empresa de médio porte na área de Tecnologia de Informação na região de Campinas. O salário está na faixa de R$3500,00. Interessa ao senhor?
- Sim, claro, me interesso muito pela vaga.
- Certo, certo. Eu o chamei aqui para conhecê-lo melhor e dar-lhe uma noção da vaga. Acho que o senhor se encaixa perfeitamente no perfil procurado.
- Que bom! Qual é mesmo a empresa?
- Infelizmente por enquanto não posso dar mais detalhes. Vou apresentar seu currículo ao meu cliente e, havendo interesse da parte dele - e estou certo de que haverá - eu entrarei em contato com o senhor.
- Tudo bem!
- Bom, agora vamos à parte do custo do serviço.
- Custo?
- Sim, para darmos continuidade ao processo, preciso que o senhor assine esse Termo de Compromisso e efetue o pagamento de uma taxa no valor de R$850,00 por meio desse boleto até quinta-feira da semana que vem.
- Quanto?
- É, a taxa parece um pouco alta, mas nos dias de hoje, está tão difícil arranjar um emprego que vale a pena, certo?
- É que está um pouco alta demais, eu acho.
- Mas tudo bem. Efetuando o pagamento, eu enviarei seu currículo e a análise do seu perfil para o meu cliente e ele o chamará para uma entrevista. Assim que o senhor for contratado, conforme o termo assinado, quarenta por cento do seu primeiro salário serão destinados à segunda parcela do pagamento.
- Um momento, deixa eu ver se entendi bem: eu acabei de me formar e estou procurando o primeiro emprego. Sendo assim, eu não tenho nenhum dinheiro guardado. A sua proposta é que eu lhe pague uma taxa desse valor sem saber se conseguirei o emprego e, no caso de conseguir, depois ainda lhe dê quase metade do meu primeiro salário? Desculpe, mas isso não seria extorsão?
- De forma alguma, meu amigo! Não há nada aqui que seja contra as leis. É que, o senhor sabe, nesses tempos de crise, a criatividade é um meio para se sobreviver. O número de desempregados é muito grande, ou seja, esse é um nicho do mercado que tem sido bastante explorado. E digo mais: poucas são as profissões tão recompensadoras quanto a minha: eu ajudo as pessoas a arranjarem emprego e serem felizes!
- Sim, e de cada vinte de que você cobra sua taxa, uma fica feliz. E você fica vinte vezes mais feliz! Realmente, é bastante recompensador. E você usou a palavra certa quanto ao "mercado de desempregados": explorar. É isso o que você está fazendo.
- Calma, o senhor parece alterado! Isso não vai ajudar em nada.
- Realmente, não! E estou de saída.
- Não vai aceitar a proposta?
- É uma boa proposta, mas não, obrigado. Há um outro emprego no circo que me interessa mais. Um bom fim de tarde!
(…)
- Esses jovens… Até se adequarem ao sistema…
Titulo: Contrata-se
Autor: Bruno Santos
Gênero: Conto
Data de publicação: 13 de janeiro de 2004
Resumo: Situação concentrada de clichês e bizarrices verídicas na procura por um trabalho.
Hehe. Até parece uma daquelas históricas verídicas… :^)
Hehe, Brunão, além das bizarrices, muito além do clichê - boa prosa, do mais puro cotidiano. Ainda bem que diz o ditado: “o seguro morreu de velho”. Ótimo.
eeeeeeeeeee!!! Comédia esse texto Brunão! Curti! Até consegui ler tudo! eeee!!!
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Heheheheh Cara, surreal a situação, mas ainda assim, bastante possível. E o “Certo, certo” mandou benzaço…:)