Conto por Paulo Henrique
10 de junho de 2003
Majestade era uma daquelas pessoas que não se contentam em guardar infelicidade apenas para si mesmo. Tinha de reparti-la sempre. Majestade era um apelido dado por seus vizinhos de terra, freqüentemente vítimas de seus mandos e desmandos nas redondezas.
Não que fosse muito poderoso, ou que tivesse muitas terras. Era um fazendeiro típico da região, rica em plantações extensivas de arroz, milho, soja ou pastos para criação de bovinos. Mas nem que fosse dono de todas as terras do mundo e seus grãos e seres vivos, Majestade não tinha direito de agir como agia.
Invadia terras alheias, roubava carregamentos de madeiras, conduzia rebanhos de gado por pastos vizinhos e muitas outras atitudes desnecessárias e menores, que irritavam seus conhecidos. Certa vez um fazendeiro que tinha fronteira com suas terras foi solicitar que não conduzisse gado em sua propriedade, sobretudo na região da sede da fazenda, onde o rebanho destruía e bagunçava os maquinários, bichos e a paciência dos trabalhadores daquela propriedade. O vizinho chegou até sugerir um melhor caminho para a condução dos bois, uma opção mais viável e bem mais razoável. Majestade ignorou o conselho e continuou - dono da razão - cometendo seus disparates. Outra vez pegaram-no, com a boca na botija, roubando galinhas de uma colônia de peões. "Dignidade" era uma palavra inexistente para Majestade.
De tanto aprontar com tudo e com todos, as atitudes acabaram cruzando o caminho de João. João, como muitos joões daquelas bandas, era peão. Trabalhava para os fazendeiros da região, ora aqui, ora ali. E ia tocando sua vida na colônia, arranjando sustento para a esposa e os filhos.
Trabalhador e correto, João era sempre solicitado para prestar serviços. Nem sua fraqueza maior - não podia ver uma garrafa de pinga cheia, que já queria esvaziá-la - o atrapalhava na hora do serviço.
Apesar de buscar de paz, seja na enxada, seja nos braços da esposa ou até mesmo com o garrafão de vinho, João viu sua parcela de sossego escorrer pelos dedos depois que foi trabalhar para Majestade. Bem que lhe avisaram:
- não vai não, João. Aquele maltrata os peões e sempre arranja um jeito de lucrar em cima.
Outro lhe contou:
- quando eu terminei o trabalho, ele quis me cobrar o diesel do trator.
Até a esposa, nas conversas com as amigas, ficou sabendo de histórias e advertiu o marido:
- pra quê, João? Você já tem tanto trabalho com os outros fazendeiros….
Mas os avisos não foram eficazes. Afinal de contas, trabalho não aceita desaforos e naquela semana ninguém tinha feito uma oferta melhor. E outra: faria o trabalho, receberia a conta e daria no pé. Era só ficar quieto no seu canto e fazer o combinado.
E assim foi feito. Os dias de trabalho a sol foram cumpridos conforme o acordado. Roçadeira, colheitadeira, transporte, estoque. Como sempre, tinha feito bem sua tarefa, estava orgulhoso e cansado. O descanso após o trabalho é a melhor das férias. Agora era só acertar o pagamento e no dia seguinte ir passear na cidade com a mulher e as crianças para fazer compras. Mas estes planos borraram: Majestade, com suas artimanhas demoníacas, inverteu palavras do combinado, acusou João por estragar peças e abaixou o valor estipulado. O resultado disto foi uma conta para João pagar ou Majestade ia chamar a polícia.
- Quero ver em quem o delegado vai acreditar - persuadiu o ardiloso fazendeiro.
Aquele golpe foi como uma facada no coração de João. Sem conseguir exprimir claramente suas idéias e sua indignação, o peão acabou enroscado no caso e foi obrigado pelos capangas da fazenda - seus companheiros de bar - a ajuntar suas economias e pagar a injusta conta.
Bilica, o capanga mais exaltado, a quem João tinha emprestado algum dinheiro (que o colega acabou gastando na zona de meretrício), chegou até ameaçá-lo de morte senão trouxesse o dinheiro no dia seguinte.
Com medo e por insistência da mulher, João pegou o que tinha juntado em uns meses para ter uma reserva e pagou Majestade. Ainda teve que passar pela humilhação de ouvir um sermão sarcástico do fazendeiro, sob risos dos capangas, sobretudo de Bilica.
"Aquela cobra do Bilica". "Eu ainda pego Majestade". "Como fui trabalhar lá?". "O que vou fazer esta semana? Já é final de mês…". As idéias vinham tortas na cabeça de João. Uma mais aguda que a outra espetavam lá no fundo de sua alma. Raiva, indignação, tristeza, desespero… Embora não conseguisse classificar seus sentimentos, sentia isso e muito mais.
Chegou em casa, nem quis ficar parado. Pegou o caminhão, a foice e um galão de água para caçar tatu na beira do rio. Não se esqueceu da garrafa de pinga. Além de resfriar um pouco as idéias, João queria ver se conseguia alguma carne para os próximos dias. Já no rio, enquanto enchia de água o buraco do tatu para fazê-lo sair de sua toca, enchia o peito de pinga para esquecer os últimos sucessos. De repente ouviu uma voz grosseira e irritante atrás de si:
- Afogando o tatu ou as mágoas, João?
Era Bilica.
Titulo: Crime rural (1/2)
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Conto
Data de publicação: 10 de junho de 2003
Resumo: Conto sobre uma daquelas pessoas que não se contentam em guardar infelicidade apenas para si mesmo.
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Caramba! Essa você aprendeu foi onde? Reloaded??Vou ficar dando reload até aparecer a continuação…:)