Crime rural (2/2)

Conto por Paulo Henrique
10 de junho de 2003

Ele veio com aquele mesmo jeito cínico que adquiriu depois de virar homem de confiança do Majestade. Antes, até que se davam. Bilica era um pobre coitado, nem trabalhava muito bem. Viviam tomando pinga juntos, com mais alguns parceiros. Como já foi dito, Bilica já tinha até tomado algum dinheiro emprestado com João, quantia que nunca fora restituída. Mas depois que começou a trabalhar com o Majestade, sua mente - que já era fraca - foi infectada. Sua ignorância o fazia ser a força bruta que Majestade não tinha. As duas cegueiras em conjunto só aumentavam as trevas.

- Sai Bilica. Não quero nem te ver.

- Deixa disto, João. Amigos, amigos, negócios à parte. Dá um gole de pinga.

Esta ordem também cegou João. Furioso, levantou-se contra Bilica e, com habilidade, acertou o cabo da foice em seu rosto e logo o ameaçou com a lâmina, fazendo o capataz correr de sua presença.

- Não adianta correr, seu desgraçado! Vou matar você e o Majestade!

Embalado pela pinga, que ainda não dava para cambalear, mas sim para esquentar os ânimos, João desistiu do tatu. Suas idéias eram claras: mataria Majestade. Ninguém reclamaria a morte do fazendeiro, mesmo porque seria considerado herói na região. Se fosse preso, alguém ajudaria sua família. Ameaças e vontade de matar o fazendeiro não faltavam. O que faltava era coragem. Agora a coragem está chegando.

Enquanto João subia de volta no caminhão e ia matutando estas idéias, ele não imaginava que Bilica já havia encontrado Majestade e os dois vinham dar "um corretivo naquele peão", conforme as palavras do próprio fazendeiro.

No que João ia subindo, bêbado de pinga e de raiva, encontrou os dois diabos na estrada, bloqueando o caminho com o jipe. Parou o caminhão.

- Tira o infeliz de lá, Bilica. Vamos encerrar este assunto.

A voz de Majestade só fez o sangue de João subir. Ajeitou a foice que estava ao seu lado, no banco do passageiro. Bilica, por descuido ou desprezo, não atentou a este detalhe e foi abrir a porta com sua habitual brutalidade. Foi aí que João desferiu um golpe de foice no peito do capataz, que não teve nem tempo de empunhar a espingarda. Quando tirou a foice do peito de Bilica, João viu Majestade fugindo. Típica atitude, pois a covardia é a sentinela da maldade.

João tentou alcançá-lo, mas Majestade já tinha dado o pinote quando viu Bilica ser golpeado. Desistiu por hora. Voltou para o caminhão, pois ia à colônia buscar sua espingarda. Até o fim do dia, Majestade estaria morto.

Chegou em casa e, munido da espingarda, volto a pé pela estrada. Deixou o caminhão para não chamar a atenção. Chegou no local da briga, o corpo de Bilica ainda jazia na estrada. Agachou para ver se o capanga estava morto e quando levantou a cabeça, viu um carro vindo em sua direção.

- É agora…

Pensou que fosse Majestade, mas estava enganado. Era a polícia. João foi preso, condenado por dois anos na cadeia municipal, por assassinato de Ataíde Policarpo Vieira, vulgo Bilica. A prisão coincidiu com a recente gravidez da esposa, que esperava mais um filho seu. Cumpriu um ano e foi solto por bom comportamento. A pinga também foi um atenuante encontrado por um advogado de um fazendeiro vizinho, que conhecia bem a história.

Já livre, João pegou a mulher e os filhos e se mudou para um município distante, onde vive até hoje.

Majestade continuou importunando seus vizinhos, conhecidos e inimigos, até morrer de ataque do coração, sem amigos, rodeado apenas pela família. Sua morte não foi lamentada por ninguém e teve até quem tomasse uma pinga para "festejar", aliviado por sentir os ares da região mais leve. E para celebrar, finalmente, o sossego de João.


Titulo: Crime rural (2/2)

Autor: Paulo Henrique

Gênero: Conto

Data de publicação: 10 de junho de 2003

Resumo:

O desfecho do drama de João.

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3 Comentários

  1. Herbie disse:

    Saquei a do anti-climax, mas pode confessar: você quis foi dar um fim “rápido e indolor” à história, vai…:)

  2. Alexandre Piccolo disse:

    Legal, PH. Só queria que esse João tivesse enchido o tal Majestade de porrada…

  3. Mário disse:

    Boa, PH. São dessas histórias que vão e vêm… que deixam no ar o acontecimento até os dois últimos parágrafos, que finaliza num anti-clímax. Valeu!

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Quem é Paulo Henrique?

Cristão, mineiro, 25 anos e jornalista.

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