Conto por Eduardo Socha
23 de agosto de 2005
Ah, mas não vou mesmo. Nem adianta insistir, minha senhora. Desista. E então não sei que vou lhe provocar os instintos mais primitivos por causa da minha decisão? Não me importo. Vai por acaso me agredir com o arsenal de insultos daquele seu caderninho vermelho? Pois eu repilo cada agressão. Conheço suas artimanhas podres, seus feitiços para encantar a alma de quem sempre aceitou os preconceitos do establishment, de quem sempre cordeiramente se submeteu a todas as conveniências sociais, sem nunca se perguntar o porquê. Mas, se a senhora conseguiu alguma coisa antes, não vai conseguir agora. Nunca estive tão decidido. E só por muito pouco, muito pouco mesmo, não saio por aí alucinado e percorro todas as praças da cidade, gritando bem alto “pela ordem, senhor presidente, pela ordem!!” (veja a senhora o que a CPI não faz com um espírito impoluto). Contra a ordem da desordem, contra o pandemônio institucional, contra a desgraceira dos falsos palanques, e - por que não?? - pela minha fria e sartreana condenação à liberdade, quero renovar minha luta. Assim mesmo, sem eira nem beira. Pois então não está vendo o absurdo? Repito: não pretendo capitular de jeito nenhum. Quer dizer, pelo menos não tão cedo. Quer dizer, nunca. Desista.
Ah, sim, de novo a senhora vai dizer que é preciso direcionar nossa vontade, que chegou a hora de mudar. Mas, no instante em que diz isso, cai em contradição. Se Lampedusa um dia percebeu que tudo deveria mudar para que tudo ficasse como está (ou algo parecido, sei lá), a senhora poderia agora até querer me convencer de que tudo deve ficar como está para que as coisas mudem mais tarde. Para além do jogo sedutor de palavras (que certamente está naquele seu caderninho verde das inversões de efeito), sei que lá no fundo é bem isso o que a senhora deseja. Eu não. Essa não é mais minha revolução. Ainda que não seja escutado, eu lhe digo e recomendo: fuja também, minha senhora, da opinião batida e asquerosa, arranque o véu do simulacro e escancare bem os olhos para a realidade. Dói no começo, é verdade, porque a luz desvendada fere os olhos habituados à penumbra ? coisa que os gregos já sabiam aliás (procure aí no seu caderninho). Mas é bem lá que as coisas e as ações valem à pena, lá onde todo o gradiente do real se abre à consciência de maneira imediata.
Ah, pois é, a bravata e o cinismo interessam muito mais à senhora, que nunca escondeu o fato de almejar meu cadáver moral a todo custo, como se precisasse sobreviver das vísceras da minha boa conduta. Mas agora não adianta. É tarde. Pode desistir, mesmo porque descobri que, naquele momento em que nos encontramos pela primeira vez, eu já estava vendido.
Titulo: Decisão
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Conto
Data de publicação: 23 de agosto de 2005
Resumo: Ah, mas não vou mesmo
Maravilha de “Decisão”, hein?! vale o “dê” maiúsculo da inicial e da iniciativa que o texto provoca. Provocante. Curti muito a exortação: “fuja também, minha senhora, da opinião batida e asquerosa, arranque o véu do simulacro e escancare bem os olhos para a realidade. Dói no começo, é verdade, porque a luz desvendada fere os olhos habituados à penumbra ? coisa que os gregos já sabiam aliás (procure aí no seu caderninho).” - a conclusão, então, mistura ironia à cabal resolução inicial. Melhor não ir mesmo.
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Muito legal, Socha.
Mas não consegui entender quem seria essa senhora… A Filosofia, talvez?