Conto por Bruno Santos
21 de novembro de 2003
Com tanta desgraça no mundo, às 14h16 do dia 18 de novembro Teófilo parou de acreditar em Deus.
A partir de então, Teófilo deixou de escrever o referido nome com letra maiúscula. Passou também a usar artigo indefinido. Se na mitologia grega havia vários deuses, o mundo moderno não é diferente, a não ser pelo fato de existirem mais religiões. Teófilo percebeu que o motivo dos maiores conflitos era simplesmente a crença em um deus. Um ser abstrato, dono da verdade, suprapoderoso. Se tolerante e possuidor de bondade infinita, não conseguia impedir seus súditos de se matarem. Quando exclusivista, não permitia a existência de outras crenças. E quando indiferente às demais religiões, não podia salvar seus seguidores. Sendo assim, Teófilo concluiu que não era possível existir um deus. Nenhum.
Às 13h20 desse dia, Teófilo soube de mais uma série de atentados suicidas, dessa vez na Turquia. Todo mundo perdeu a noção no berço das civilizações. Os motoristas-bomba esperam os religiosos inimigos se reunirem na hora da oração e explodem-nos. Teófilo só ficaria mais estupefato se soubesse de um pedófilo que se trancasse numa creche numa quarta-feira à tarde.
No mesmo dia, às 13h26, o chefe de Teófilo o chamou para conversar. Explicou que a cultura da empresa mudara, mas que Teófilo não havia conseguido se adaptar. Mesmo porque ninguém o avisara de mudança alguma. Às 13h55 Teófilo apertou o botão descendente do elevador, sem se despedir de ninguém.
Às 20h34 de 16 de novembro Teófilo assistia estarrecido a uma notícia na televisão sobre um casal de namorados assassinados por um garoto crudelíssimo. Não fosse a brutalidade do crime, ainda colocariam a culpa nos próprios jovens, por não avisarem seus pais aonde iriam de verdade. Teófilo lembrou-se das 18h56 de uma sexta-feira, uns dez anos antes, quando consolava sua paixão depois uma briga dos sogros e ela o chamou para fugirem. Correram para uma praia deserta distante e lá teria os momentos mais mágicos da sua vida, até resolverem voltar, às 6h12 do dia seguinte. Porque a garota estava com medo de cobras.
Às 19h13 de 19 de novembro Teófilo foi beijar sua namorada e ela desviou o rosto. Precisavam conversar. Teófilo ouviu que era um dos caras mais bacanas que ela conhecera, mas a magia acabara e o brilho de Teófilo se ofuscara. Às 22h22 uma lágrima caiu do olho esquerdo de Teófilo, enquanto ele ouvia uma canção antiga e bebia a quinta cerveja no sofá de sua casa, ao lado de seu cachorro.
No dia 26 de novembro, ao sair de casa para ir à banca, às 10h48, um mendigo parou Teófilo na rua e lhe pediu umas moedas. Teófilo só tinha o dinheiro para o jornal, mas resolveu entregar ao homem roto. Ele estava mal, mas aquela alma precisava ainda mais de ajuda e o agradeceu:
-Deus lhe pague!
Teófilo sorriu da inocência do mendigo, crente em um deus, e foi caminhar pelo bairro.
Às 10h57 Teófilo esbarrou numa moça de óculos e cabelos negros amarrados, com uma porção de papéis nas mãos, que caíram na calçada. Teófilo ajudou-a a recolher tudo e seus olhares se cruzaram. Teófilo tentou pensar em algo gentil e fatal para dizer, mas achou que não era um bom momento e simplesmente pediu desculpas. A moça sorriu, desculpou-o e o quis. Teófilo xingou-se por ser tão desastrado e seguiu seu caminho incerto.
Às 4h08 desse mesmo dia a gráfica imprimia na terceira página do jornal diário uma oferta de emprego para o perfil de Teófilo, com uma remuneração um pouco mais baixa que a do trabalho anterior, porém ainda compatível com suas necessidades. Às 7h02 um pacote do jornal chegou à banca da praça e o jornaleiro foi logo cortar as amarras. Sem querer, acabou rasgando o exemplar de cima.
Andando distraído pela praça, Teófilo passou em frente à banca. Olhou as capas de revistas e as primeiras páginas dos jornais e resolveu comprar um. Às 11h26 disse ao jornaleiro que iria levar. No entanto, lembrou-se de que havia doado as moedas ao andarilho e desistiu da compra. O jornaleiro, por sua vez, lembrou-se do jornal rasgado e ofereceu-o a Teófilo. Ele o tomou, analisou e decidiu não levar, pois não era certo. Resmungou por haver entregue os trocados ao mendigo.
Ao voltar para casa, Teófilo sentiu-se sozinho e teve saudades da mãe, que não via havia anos. Às 12h01, ao chegar à sua porta, o telefone tocava. Apressou-se, mas o telefone parou antes que Teófilo o alcançasse. Aproveitando o aparelho na mão, procurou o número de sua mãe e discou-o. Estava ocupado. Reclamou que ela ainda só ficava pendurada no telefone e não tentou novamente. Às 12h03, a mãe de Teófilo devolveu o telefone ao gancho e desistiu de procurar seu filho.
Depois desse momento, as coincidências deixaram de acontecer na vida de Teófilo. Se seu nome não fazia mais sentido, assim continuou sua vida, até seu último suspiro, sozinho, num quarto escuro e sujo, em uma hora qualquer de uma noite fria de chuva.
Titulo: Descrença
Autor: Bruno Santos
Gênero: Conto
Data de publicação: 21 de novembro de 2003
Resumo: A fé recoberta por montanhas.
Caro Bruno, a sua constatação sobre a quem pertence o texto depois de lido, é relevante, para não dizer óbvia. Mas a provocação que fiz não foi para sugerir esta ou aquela complementação e sim para expressar o que o texto apontou para mim. Ou seja, independente de quem escreveu ou de outras interpretações dos demais leitores, temos a possibilidade de poder questionar e provocar desdobramentos (é para isto que serve este espaço), sem precisarmos entrar no mérito de quem é o dono do texto, mas sim, de preferência, aprofundando a discussão até onde for possível.
É rapaz, esse tá bonito demais da conta!!! Recomendarei também!! Valeu, Brunão!
Bruno, belo texto. Piccolo e PH já falaram do nome, então vou deixar isso pra lá. Hehe. Ficou bem claro essa coletânea de acontecimentos sem sentido, dessas coincidências: um tenta ligar, o outro também; o jornal com novas possibilidades que ele nega. Tantas desgraças e recortes, tantas religiões e gritos de verdade: venham por aqui. No entanto, quando vi Teófilo terminar, descrente, com uma vida sem sentido, no quarto escuro e frio, perguntei-me: por que? São as dores do mundo? O caos da vida? A falta de um Deus? Mais uma vez, a cada um uma leitura. Parabéns!
Bacana, Bruno. O movimento descrente de Teófilo (nome pinçado a dedo, hein?!), nascido das “desgraças do mundo” e impulsionado pelas coincidências que o cercam, descarta qualquer sentimento e sentido aos acasos de todos os minutos da vida e acaba por terminar neste tempo vazio, num suspiro descrente e solitário, que nem a chuva consegue aplacar. Há retorno para outros como Teófilo? Como fazê-lo? Bela prosa.
Depois de escrito, um texto pertence a quem lê, não mais a quem o escreve.
Muito boa narrativa, Bruno. Este ritmo de coincidências me lembrou o prólogo do filme Magnólia. O nome Teófilo também ficou preciso, bem como muitos dos números que você usa. Só não fica claro o seguinte: a descrença de Teófilo mudou o Deus no qual ele deixou de desacreditar? Parece que durante a narrativa toda, Teofilo está sendo observado…
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PH, concordo plenamente com você e suponho que deve ter havido algum mal-entendido. Quando citei a frase de algum escritor cuja identidade eu esqueci, só quis destacar o fato de que o texto foi feito justamente para ter diversas interpretações. No fim, eu mesmo já tinha umas três justificativas para o desfecho da personagem e você sugeriu mais um. E provavelmente ainda surgiriam mais. Não foi minha intenção podar seu comentário, como me deu a entender sua tréplica. Abração!