Conto por Tiago Russel
8 de abril de 2003

Misturava a vida real com a fantasia várias vezes ao dia. Fazia o que precisava ser feito para conseguir manter-se vivo. Nem se preocupava mais em consultar médicos ou analisar bulas. Colecionava balanças de precisão de todos os tipos, mas nunca utilizava nenhuma delas nas suas pesquisas. E se atrapalhava todo no processo.
Tudo o que tocava virava uma fórmula. Não tinha medo de misturar elementos químicos, físicos ou psíquicos. Sabia o que queria, mas nem sempre alcançava seus objetivos.
Atacava palavras sem medo. Suas combinações criavam belos e irresistíveis monstros. Juntava A com B para criar amores. Ou mesmo destrui-los. De sua boca, letras e palavras formavam frases e feitiços. Precisava ser um especialista. Sabia que cedo ou tarde teria que enfrentar o destino.
Suas fórmulas nem sempre davam certo. Ou tinham efeito temporário. Algumas duravam três anos ou mais. Mas ele não tinha mais boas lembranças, e suas últimas poções mal duravam um sorriso. Na maioria tímidos e esforçados em esconder tanta tristeza alquímica acumulada.
Misturava roupas com idéias para despir as intenções dos outros. Juntava vontade com tesão buscando aliviar suas dores. Doía-lhe os joelhos, o remorso e algumas vezes o cotovelo. Mas nada se comparava com aquele aperto no peito.
Para aliviar sofrimentos, misturava líquidos usando seu fígado como cobaia. Mal desconfiava que muito mais estava em jogo. Mal sabia ele que estava perdendo a memória.
Trancou-se no fundo do seu próprio inconsciente e resolveu não falar com mais ninguém. Interrompeu os estudos tentando lembrar de como um dia conquistara sua felicidade. Fazia tempo. E ele fazia errado. Procurava fórmulas e misturas, quando deveria se esforçar em encontrar o retorno na mesma rodovia.
A milhas atrás, o entroncamento entre certo e errado por onde passou apressado ainda o esperava.
Titulo: Desejo Alquímico
Autor: Tiago Russel
Gênero: Conto
Data de publicação: 8 de abril de 2003
Resumo: Sentimentos misturados não conseguem repetir o que um dia já foi puro.
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Há um esvaziamento sinestésico nas palavras que escondem o autor, ainda que o captemos por pequenos estilhaços. Logo, como sentir esse vazio naquilo que foi escrito? Sentir e escrever nem sempre aparecem relacionados mas ainda assim se entrelaçam…