Conto por Tiago Russel
17 de julho de 2003

Faço apenas mais um esforço e consigo puxar um pouco de ar para dentro dos pulmões. Depois do trabalho cão, finalmente consegui alcançar o pico mais alto. Fiz bem. Um momento destes merece uma vista decente.
Os olhos marejados acompanham o nascer do sol, mas não choram por isso. Independentes, são incapazes de registrar qualquer imagem na retina. Minha cabeça vai longe, perdida num caleidoscópio de lembranças, dúvidas e teorias bizarras. Ligo o piloto automático e protejo minhas orelhas do vento gelado. Sua força e violência podem ser medidas pelo uivo ensurdecedor que fazem, permeando ameaças de ajudar a gravidade a me colocar no devido lugar. Paciência. Cedo ou tarde, acabaremos nos entendendo.
Nunca acordei tão cedo na minha vida. Desta vez nem precisei passar a noite em claro, tentando pensar, esperando as horas em vão. E isso me tranqüiliza. Dormi bem, e acordei para a vida. Pela primeira vez, não foi esta vagabunda que me acordou, empurrando obrigações antes mesmo do café da manhã. Acordei com o controle. E ela, impotente, amanheceu sabendo disso.
Sempre me imaginei sem sorte no amor. Um homem pobre. Sem ambição própria. Mas agora, aqui em cima, olhando tudo ao redor, a excitação de quem sabe o que vai ocorrer enche minhas veias de adrenalina. Enfim me reconheço, descubro do que sou feito, respondo à centenas de porquês doentios e repetitivos de uma só vez. E tudo mais faz sentido.
Olho para a palma da mão e cerro o punho com força. O destino estava ali, um preso desconfiado, com cara de quem foi pego em flagrante. Ele, como a vida, não exerce mais nenhuma influência sobre mim. Fodam-se as linhas cruzadas, os desencontros armados e, principalmente, o poder dos seres “desenvolvidos” impostos pelos dois. Sofri o bastante em troca do privilégio de carregar no DNA esta maldição.
Dos seres desenvolvidos, sou uma simples planária. E das falsas. Uma verdadeira teria o poder maior de todos os simples. O poder da regeneração.
Corta uma metade, vira duas. Corta de novo, é quatro. Eu? Eu sou apenas mais um ser “superior”. Quebro uma perna, uso muletas. Esfolo o cotovelo, tapo com band-aid. Cago nas calças, passo Hipoglós. É tudo quase perfeito… até machucar o coração.
Perdi muito tempo procurando uma cura para o meu. Idiota. Feridas profundas não se regeneram. Nunca. Cheguei a pensar num transplante. Agora descubro que a troca é impossível. O amor não seria mais o mesmo. A vida não seria mais igual. O destino seria outro. E eu não estaria aqui agora, olhando para baixo, balançando como a folha seca que espera o próximo uivo do vento para se desprender e cair controlando vida, destino e maldição.
No final, chegou a minha hora de acordar para uma nova vida. De preferência como uma planária.
Titulo: Desprendimento
Autor: Tiago Russel
Gênero: Conto
Data de publicação: 17 de julho de 2003
Resumo: Algumas vidas a regeneração não cura.
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Nova e bela prosa-poética, Tiago. O mesmo trecho que Mário ressaltou também me chamou atenção (gargalhei comigo, tamanha sinceridade). Parabéns.