Dois deles

Conto por Alexandre Piccolo
4 de novembro de 2003

Tarde enxágüe

Sempre que lavava louça, passava horas a divagar. Normalmente as divagações começavam com o detergente e seguiam para o ralo de um questionamento sem fim. Desta vez, no esfregar da bucha, se lembrou da primeira namorada, aquela namorada de verdade, com quem vivera quase cinco anos e com quem compartilhara de tudo. Praticamente uma vida, dizia para si. E, mesmo achando que dividiram tudo, acabava concluindo que pagara mais nas contas a dois, talvez para não lhe frustrar a resignação. Esfregou a forma engordurada com muito detergente e via todo o cebo velho impregnado se desgrudar do metal, que renovava ao esfregar forte do bombril. Não compreendia como o detergente podia limpar toda aquela gordura e nada havia para lhe limpar a memória, apagar os cabelos cacheados e o cheiro gostoso, aquele olhar sincero e maroto, bem de pertinho. E esfregava com força, até machucar a mão de apoio e o esquecimento. A gordura escorria na espuma suja que começara verde e as lembranças continuavam ainda impreganadas nos dedos, agora já enrugados de tanto mexer n'água. Enxaguou toda a espuma suja e foi preparar um lanche para a janta. Já era tarde.

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Uma biblioteca com Miles Davis

Ele vivera a vida toda assim, ouvindo Miles Davis e desejando escrever um livro. Sonhava com o texto perfeito, que mudaria o mundo com sua força e precisão, repleto dum encantamento tão sincero que comoveria a alma mais dura, atearia fogo ao espírito mais frio. Um verdadeiro legado à humanidade - mas que não passava de delírio fantasmagórico da imaginação, por simples falta de uma única tentativa. Quando chegou à resolução definitiva, se sentiu tão cheio de si e superior que matou todo e qualquer ímpeto genuíno e por fim morreu com o arrogante sorriso de ter tido uma "idéia genial": ah, se escrevesse toda minha vida não teria um livro, mas uma biblioteca. De fato não conhecia nenhuma grande ou famosa coleção de livros, nem mesmo as particulares. Das poucas vezes em que as visitou, uma municipal no interior do estado e duas ou três outras, em ocasiões rápidas e furtivas, extasiou-se com o arranjar das prateleiras, a numeração precisa e ordenada nas plaquinhas, os volumes bem postos nas estantes, o espaço faltante para acolher novos volumes - que em sua mente sairiam muito em breve e ansiavam por aquele vazio - e, em sua noção limitada e infinita do que nomeava "conhecimento impresso", transbordou-lhe o coração até faltar fôlego. Um simples lampejo. E no devaneio, a tranqüilidade pousou, como uma andorinha. Veio com as notas do trompete de Miles Davis, que acompanhavam-no mesmo em silêncio, e pareciam soar perfeitas para serem ouvidas numa biblioteca. Imaginava seu livro-biblioteca sendo escrito paulatinamente, sem pressa, ao som doce e preciso do trompete, pronto para receber novos e velhos conhecidos com quem ele sempre sonhou conversar, diálogo de gente grande, naquela calma que a vida deveria ter. Ao menos em sua biblioteca.


Titulo: Dois deles

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Conto

Data de publicação: 4 de novembro de 2003

Resumo:

Embriões para shorts não tão curtos

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4 Comentários

  1. Herbie disse:

    Cara, não consigo acreditar como você consegue fazer isso tão bem! Short cuts carregados de sentimento, em palavras muito bem escolhidas, formando parágrafos belíssimos, intrincados e coesos ao mesmo tempo. Parabéns! E Obrigado: salvou minha tarde!

  2. Marilda Piccolo disse:

    Oi Alê, eu não sou ouvinte assídua de Miles Davis, mas já escrevi uma biblioteca em minha mente, sem nunca ter traçado uma linha… no entanto são produções fantásticas que mudariam o curso do rio da humanidade se fossem escritas e lidas (por isso, q bom q não as escrevi…). Em compensação já divaguei muito lavando louça e me perguntando pra onde vai tanta m… tanta sujeira, ou mesmo pra onde foi aquele amor tão intenso (isto é uma questão q me preocupa muito, para onde vão os amores?!).Um bj, Tia Marilda

  3. PH disse:

    Um texto aponta o passado que existiu o outro o futuro que não existirá. Duas questões complicadas: o passado que devemos deixar para trás e o futuro que devemos fazer existir. Bela reflexão!

  4. Mário disse:

    Dois fortes embriões. Quero vê-los crescer!

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