Em busca do texto perdido

Conto por Alexandre Piccolo
26 de abril de 2005

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Jorge Luis Borges

Um homem se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naus, de ilhas, de peixes, de moradas, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto.

Por duas vezes ele se deparou com um problemão: encontrar o texto. Dois textos, é bem verdade, mas um de cada vez.

O primeiro ouvira-lhe contar em sessão de História Literária ? o período neoclássico, disciplina nada vital mas de leituras e debates salutares. Entre diálogos reconstruídos de um esquecido castelo italiano do século XVI e sonetos gongóricos, divagava o lente sobre um conto dito "borgiano" que operava uma refinada reflexão sobre a abstração: no enredo mais especificamente sobre os mapas. E assim contou: um rei (inglês, havia de ser inglês) ordenou a confecção de um mapa de seu reino, com o maior número de detalhes e minúcias possíveis. Destarte fizeram seus súditos. Quando apresentaram ao rei o resultado, este notou faltar no mapa esquinas, lojas, postes e inúmeros outros detalhes. Refizeram, então, o mapa e reapresentaram-no ao rei. Faltavam ainda bueiros, letreiros, latas de lixo e de tanto ir e vir neste infatigável refazimento, chegaram a um mapa em escala 1 por 1. Cobria todo o reino, cada centímetro ou milímetro estava fidedignamente desenhado no papel, exatamente representado naquela abstração. Ao fim, percebeu-se a inutilidade da empreitada ? e os resquícios do rasgado e destruído mapa ainda podem ser encontrados nas vielas mais escuras do reino.

A história lhe parecera iluminada, magnífica, mas não ousara questionar-lhe a existência: há verdades melhor intocáveis.

Meses e semanas e dias mais tarde, outro doutor (de outra especialidade) lhe proferira a mesma história. Espantoso. Seria um complô acadêmico? Espionagem? Não, não, isto fora o filme da véspera que ainda lhe balançava o sono em classe. Ao final da lição decidiu averiguar o nome do contador de histórias e sua verdadeira fonte (com bibliografia e tudo). Novo espanto: era o tal Borges, porém a fonte desaparecera. Seria um verdadeiro texto borgiano?

Felizmente sim.

Vasculhou livros, orelhas e vários escritos que julgava perdidos e, por um momento, imaginou tê-lo encontrado em meio a divagações literárias, observações esparsas que o erudito leitor argentino guardara a poucas chaves dentro de suas reflexões cervantinas. Eis o trecho, que faz questão de permanecer desaparecido:

"Imaginemos que uma porção do solo da Inglaterra foi perfeitamente nivelada e que nela um cartógrafo traça um mapa da Inglaterra. A obra é perfeita; não há detalhe do solo da Inglaterra, por menor que seja, que não esteja registrado no mapa; tudo aí tem seu correspondente. Desta sorte, tal mapa deve conter um mapa do mapa, que deve conter um mapa do mapa do mapa, e assim até o infinito".

No excerto, a "Inglaterra" dava-lhe a certeza que todos demais elementos (o explícito "infinito" inclusive) lhe roubavam. E não mais se aturdiu com o perdido. Preferiu sumir e esquecer-se. Vagou por entre páginas e páginas já consolado de seu frágil destino ? ao menos, caçador de textos. Então veio-lhe um anjo, apareceu entre nuvens escuras e mostrou-lhe finalmente o mapa de uma obscura história de mapas. Mais parecia relato bíblico.

Não de todo esquecido, mas já indiferente, escreveu-me meses depois este breve telegrama de um transatlântico que cruzava os Mares Bálticos, indicando a fonte da passagem que se trancreve a seguir:

Obras Completas, 2, Museu, Do Rigor na Ciência

"…Naquele Império, A Arte da Cartografia alcançou tal Perfeição que o mapa de uma única Província ocupava toda uma cidade, e o mapa do Império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmesurados não foram satisfatórios e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele. Menos Afeitas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes entenderam que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Geográficas."


Titulo: Em busca do texto perdido

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Conto

Data de publicação: 26 de abril de 2005

Resumo:

Depoimento textual de um outro distante.

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3 Comentários

  1. Mário disse:

    Não conhecia essa história do mapa. Boa, hein? Gostei da busca registrada no texto. Legal!

  2. Thiago MP disse:

    Curioso, mas os mesmos devaneios cartográficos de Borges também podem ser encontrados em “Segundo Diário Mínimo”, de Umberto Eco. Queria saber quem foi o primeiro a ter a idéia do “mapa do tamanho da cidade” - ou se tiveram a idéia juntos.

  3. M. V. C. disse:

    tzug! patético! mas boa referência ao Jorge Luis Borges, mesmo não explícita.

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