Especialidade da casa: amizade

Conto por Regina Vilarinhos
22 de abril de 2004

Espantei-me quando avistei a placa. Parecia um aviso: grave, determinado, direto e seco. Quem não conhece o local, diria que era irônico. “Quem poderia pendurar uma placa assim?” Muita pretensão!

Depois do susto, procurei uma mesa escondida, puxei a cadeira e, abrindo minha revista, pedi uma gelada e o cardápio. Logo uma moça simpática se aproximou e, servindo a cerveja, tratou de me informar:

- O senhor deve tá querendo saber o que tem para comer, né? Aqui só temos tira gosto de amigos!

- Tira gosto de amigos?! Como assim? ? indaguei, já achando que havia entrado num boteco de canibais.

Ela sorriu discretamente, já estava acostumada com a surpresa do comentário que fizera. E pegando minha mão suavemente, colocou-a junto ao meu peito e perguntou-me com os olhos fixos em mim:

- O que o senhor gostaria de compartilhar com um amigo agora?

Fazia tempos que não experimentava aquela sensação, muito menos, pensar numa coisa daquelas. O que compartilhar com um amigo? Que negócio seria esse de sentir o meu próprio peito e entender o que ele dizia?

Constrangido, puxei minha mão, desviei o olhar e pedi que me deixasse sozinho, que só a cerveja me bastava. Ela me atendeu prontamente, não sem antes dar mais um sorriso.

Passei a ler as manchetes na revista, procurando desesperadamente encontrar ao menos uma que me interessasse. O suficiente para esquecer a pergunta. Havia de tudo um pouco: “Luma desmente o bombeiro”, “Ambev torna-se a maior distribuidora da América Latina”, “Popularidade do presidente cai”… E a pergunta continuava ali, me encarando como as manchetes que lia.

Joguei a revista de lado, enchi mais um copo, peguei a revista de novo, esvaziei o copo. Enquanto bebia minha cerveja, a pergunta, vinha junto e não descia pela garganta. Quando lia a revista, um anúncio no meio da página gritava: “Ei! Você aí! Cadê seu amigo para compartilhar?” Nesse vai e vem, pedi mais uma e tratei de fechar os olhos, para que não visse mais nem a balconista me sorrindo, nem as páginas da revista me chamando. A impressão que tinha era que não existia mais ninguém no bar, ou se havia, todos me olhavam com aquela mesma indagação nos olhos.

Passou-se pouco tempo, quando percebi entrar alguém diferente no bar. Uma morena bonita, de estatura média, com um corpo bonito, um pouco gordinha, cabelos pretos, voz forte, determinada, se dirigindo à moça do sorriso. Ela encostou-se no balcão e pediu uma cerveja. Foi atendida da mesma forma que eu. Quando lhe sugeriu o tira gosto, espantou-se também e ficou calada, como se quisesse ter certeza de que ouvira aquilo. Olhou em volta, observando os freqüentadores do bar. Localizou minha mesa no canto, e, claro, percebeu que minha agonia era a mesma que a sua.

Levantou-se e veio em minha direção. Sem perguntar, já lhe ofereci a cadeira e me apresentei.

- Boa tarde! Antônio Carlos.

- Olá! Obrigada, sou Ana Paula.

- Você não costuma freqüentar aqui também, não é mesmo? Passo nessa rua quase todos os dias e não havia entrado aqui ainda. Estranho este bar…

- Fiquei assustada com a oferta que me fez a balconista. Acho que você passou pela mesma situação. Nunca vi coisa igual!

Enquanto ela me falava de seu susto sobre o tira gosto, fiquei reparando seu rosto e comecei a achá-lo familiar. O timbre de voz, palavras bem colocadas, uma polidez sem formalidades, a boca grande e sorridente, os olhos tímidos e tristes. Até a forma de alisar os cabelos com as mãos, jogando para o lado esquerdo do rosto, eram conhecidos, mas não conseguia me lembrar de onde.

- Estou te atrapalhando, já vou me levantar. Obrigada por sua gentileza, Antônio Carlos. Creio que o melhor é procurar outro lugar para relaxar.

- Espere um pouco. Estou tentando me lembrar de onde conheço teu rosto, tua voz… já a vi antes. Mas minha memória anda estressada…

- Para falar a verdade, também tive a mesma impressão quando o vi. Suas sobrancelhas são grossas e isso é um referencial para mim. Faz tanto tempo que não venho ao Rio, e passear pelo Centro é parte de uma história muito boa em minha vida.

- Há quanto tempo não vem aqui?

- Uns vinte anos. Freqüentei muito o Centro da cidade, por conta de reuniões do movimento estudantil. Conheci muitas pessoas naquela época, e sempre acabávamos as reuniões bebendo em alguns desses bares. Mas este aqui não era desse tempo.

- Movimento estudantil? Vinte anos atrás?!…

Minha mente deu um giro e voltei à Cinelândia, noites de comícios, campanha das Diretas Já… Meu Deus, não pode ser! Lembrei-me de uma jovem linda, com uma energia especial, típica das adolescentes que vislumbram um mundo novo quando se sentem engajadas politicamente. Ela era do interior do Estado.

- Ana Paula, camarada do Diretório de Volta Redonda?? Por acaso não é você, é?

Ela quase engasgou com o último gole de cerveja que tomava.

- Antônio Carlos, da Direção Estadual? É você mesmo que está aqui?

Rapidamente, nossos corpos se levantaram e nos abraçamos durante uns 5 minutos. Os copos se desequilibraram na mesa, derramando o resto de bebida. Fomos interrompidos pela balconista, enxugando tudo e nos pedindo licença para trocar os copos.

- Puxa, como sou distraído. Esquecer você assim. Embora os vinte anos não lhe tenham tirado nada.

- E eu achando que nunca mais íamos no ver. Esta semana especialmente, pensei muito em você, por causa dos 40 anos da ditadura, tantos artigos nos jornais. Continua no partido, fazendo muitas reuniões como aquelas?

- Parece até loucura, mas continuo sim. Agora então, que me formei em advocacia, e trabalho para o jurídico do partido. As reuniões são muitas, não mais no mesmo pique de antes.

- Me desliguei completamente do movimento político. Trabalho em Volta Redonda, e escrevo. Hoje sou militante cultural. Aliás, estou aqui por causa disso. Viemos fechar uma apresentação no Centro Cultural Banco do Brasil, e minhas amigas foram embora. Vou passar o fim de semana na casa de minha irmã.

Enquanto falávamos, ia tecendo na memória toda a lembrança daqueles anos. A noite ia se aproximando devagarinho. Em pouco tempo, Ana Paula me contou sobre suas poesias, suas performances poéticas, sobre suas amigas que compartilhavam o trabalho. Eu mal falava de mim. Não tive tempo. Não sei se era de tempo que eu precisava ou se era de coragem.

Ela parecia ainda a mesma jovem com a mesma energia, hoje voltada para a sua vontade de fazer cultura numa cidade operária, interiorana, que pouco sabemos se realmente tem espaço para tantas idéias. Seu interesse tinha se renovado, enquanto o meu era o de sempre. Partido, revolução, filiação de novos militantes, a derrubada da burguesia…

Sem perceber, já havíamos tomado umas cinco cervejas, e pedido um tira gosto. Foi aí que a garçonete veio até nós.

- O nosso gerente gostaria de falar com o senhor, disse-me, apontando para o homem atrás da caixa registradora, que atendia a outro cliente. Não tinha notado a sua presença e talvez ele tenha chegado um pouco antes.

Ergui-me e fui até ele. Mais uma vez com a sensação de que conhecia aquela boina preta cobrindo uma cabeça redonda e um rosto de barba rala e grisalha, contrastando com sua pele mulata.

- Antônio Carlos! O camarada que filiou mais de 500 estudantes, numa só tarde, na Cinelândia! Se ganhasse por produção, o partido lhe deveria uma fortuna.

O homem falava alto e foi difícil não ficar sem graça. O bar inteiro mais uma vez me olhou demorado.

Ana Paula se levantou e veio até nós, já estendendo a mão para ele.

- Minha nossa, se não é o Ed Bigodão, camarada de Niterói.

- Aninha, há quanto tempo!

Os dois se cumprimentaram e olharam para mim como se aguardassem que lhes falasse algo. O Ed era uma cara muito alegre, que puxava primeiro a retirada da reunião para o bar. E nós sempre discutíamos muito por conta disso, pois para mim era fundamental terminarmos a ordem de pauta.

Estava morando no Rio há tempos, e o bar era de um amigo que lhe arrendou no mês passado. Não gostou da decoração antiga e mudou tudo. Estava funcionando somente há uma semana. Entendi o porque de não ter entrado antes.

- Ed, me conte uma coisa, lhe pedi calmamente. Por que seu bar não tem um cardápio como todos os outros?

Parecia que estava perguntando o óbvio. Quando acabei de falar, me senti como um criminoso levado a julgamento diante de um tribunal cheio de curiosos. Meu amigo da boina preta soltou uma gargalhada escandalosa, deu a volta no balcão e, passando o braço sobre meus ombros, disse:

- Ê Antônio, você não tem jeito mesmo. Com tantos anos de atividade partidária, com tantos compromissos “sérios”, perdeu o costume de olhar para as pessoas e as coisas como elas realmente são. Não entrou em sua cabeça ainda que aqui quem faz o “tira gosto” são os clientes?

- Como assim? ? indaguei ansioso e já me preparando para o pior.

- Por acaso você não leu aquela placa quando entrou aqui? Minha atendente não lhe explicou como funciona tudo? Você e a Aninha estiveram a tarde toda compartilhando uma amizade que o tempo não matou e nem perceberam que fizeram um tira gosto maravilhoso.

Só então me dei conta que havíamos bebido e comido, sem saber que o melhor do bar esteve em nossa mesa o tempo todo. Aquela pergunta inconveniente não me atormentava mais. E meu peito, por alguns instantes, deixara de ser um mistério para mim. O sorriso com que Ana Paula me presenteou naquela tarde era meu novo mistério.


Titulo: Especialidade da casa: amizade

Autor: Regina Vilarinhos

Gênero: Conto

Data de publicação: 22 de abril de 2004

Resumo:

Um reencontro de militantes estudantis 20 anos depois.

3 Comentários

  1. Luiz Maia Quintao disse:

    Não precisa comentários, o texto diz por si.

  2. Alexandre Piccolo disse:

    Bacana, Regina. Bela incursão pela prosa, texto de reencontros gostosos, narrados com naturalidade.

  3. PH disse:

    Legal a sua estréia com um conto aqui na aPatada, Regina. A prosa sempre foi um exercício fundamental para os poetas que dominaram os versos.

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Quem é Regina Vilarinhos?

Gaúcha criada em Volta Redonda, RJ, onde vivo há 40 anos. Funcionária pública, instrutora de informática e POETA. Já publiquei um livro por aqui, "Poemas acesos para noites apagadas", junto com outra poeta Elisa Carvalho, em 2001. Atualmente, formamos um grupo, FABRICA DO POEMA, onde apresentamos saraus com muita poesia e mpb, com músicos da cidade. Também faço oficinas, palestras, festivais, em todos os lugares onde podemos colocar a poesia como atitude e alternantiva cultural.

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