Espeleologia

Conto por Leonardo Augusto
8 de dezembro de 2003

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A escura caverna da vida

Vou entrar por esta gruta. Nunca aqui estive e não faço idéia do que irei encontrar, mas cá estou. Confio na vela que queima bruxuleante em minha mão e goteja cera quente em meus dedos, mas ignoro a dor e me concentro em achar o caminho. Ele é estreito e irregular, às vezes escorregadio. Às vezes uma escarpa íngreme me desafia, mas desço cuidadosamente degrau a degrau, o que importa é seguir. O que importa é não ficar esperando que o destino seja traçado, que haja um objetivo claro, uma meta palpável, mas perseverar confiante em que ele vai surgir diante de nós. Então vamos, ora uma câmara ampla, ora um túnel apertado, aqui um morcego me surpreende, acolá um inseto me morde, mas sempre sigo. Será preciso voltar, mas como saber quando parar? Não, quero ir o mais fundo possível, descobrir o que quer que seja. É claro que não estou equipado como deveria para esta jornada, não sou um profissional, apenas um curioso imprudente. Minha vela já está se consumindo, mas trouxe outra, alguns fósforos, uns cigarros, umas culpas e frustrações e outras coisas a queimar, então estou seguro. Cada vez mais úmido, o chão é a um só tempo um apoio e uma armadilha, tateio as paredes em busca de equilíbrio, paro para respirar… Vamos lá, mais um pouco, sinto algo bem próximo. Mais uma câmara, uma pequena lagoa, pois vejam só que bela descoberta. Gostaria de inundar este lugar de luz, fotografá-lo para tê-lo comigo de volta à superfície, mas estou satisfeito com este vislumbre, com o toque da água gelada em meus pés fatigados, feridos. Dispo-me em um lugar seco e mergulho. Esta talvez seja a maior besteira da minha vida. E se a vela se apagar, se eu não conseguir riscar os poucos fósforos que restam, se uma cobra me surpreende, um peixe elétrico, sei lá… Eu deveria estar morrendo de medo, mas só me sinto satisfeito com minha bravura irresponsável, estão vendo? Eu sou capaz sim de me arriscar, sozinho, nesta escuridão assustadora. Eu confio em mim mesmo… em mim mesmo? Confio na sorte… na sorte? Confio no futuro… no futuro? Em que é que eu confio? Confio na confiança, faz sentido isso? Talvez não, mas não é preciso satisfazer minha razão agora, basta me deliciar neste banho quiçá não tão solitário assim…


Titulo: Espeleologia

Autor: Leonardo Augusto

Gênero: Conto

Data de publicação: 8 de dezembro de 2003

Resumo:

Dos tortuosos caminhos da escrita e da vida

3 Comentários

  1. Herbie disse:

    Taí! Muito bom texto, Léo. Digno de uma aventura pela vida. Valeu!

  2. Bruno disse:

    Perfeito! Acho que estou agora numa das câmaras da gruta, com algumas poucas passagens à vista, uma larga e rasa, outras muito estreitas e inseguras. Mas o que mais me facina é saber que a qualquer momento ocorrerá um tremor e que uma nova fenda surgirá. Seja onde estou agora, seja dentro de alguma das passagens anteriores.

  3. Alexandre Piccolo disse:

    Boa, uma descida íngreme, cuidadosa, suspeita, viva, congelante, perigosa, e mais que necessária aos caminhos da escrita e da vida. Bel’aventura!

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