Conto por Tânia Toffoli
25 de julho de 2003
O que resta é apenas a autodestruição! Então, fumo mais esse cigarro… trago devagar… sinto lentamente meu pulmão intoxicar, esverdear, apodrecer… Só me resta morrer devagar, já que me falta a coragem para um suicídio mais digno! Morrer aos poucos… como se viver não fosse exatamente isso! Como se tivesse sido pouco cada uma de minhas mortes…
O que é aquilo na janela? Mais uma! Mais uma dessas malditas lascas! Elas deixam a luz entrar. Como se fosse ofuscante! Mas não é nem ao menos suficiente para que eu possa ver meu próprio rosto no espelho. Elas só servem para que eles, às vezes, coloquem seus olhinhos bisbilhoteiros e tentem ver o que há aqui dentro. Eu me desnudo ou atuo cinicamente. Posso me exibir ou tentar a graciosidade… tanto faz! Eu sei que eles não me podem ver!! Às vezes, nem mesmo há alguém lá. Mas há vezes em que posso vê-los, senti-los. Seu cheiro me enoja e suas vozes esganiçadas ecoam demais, é assim que os vejo. Mas “frozen eyes are bound to melt” eu ouvi numa música uma vez ? eles estão ali… e são tudo o que eu tenho. Por isso, usei a caneta para lascar um pouco mais a janela. Mas isso não impediu que mais uma lágrima escorresse.
Será que é possível que dê certo? Eu não os tenho, eu os invento. Eu mal conheço as pessoas! Nem sei como posso saber que sou uma delas! Se é que realmente sou… Elas estão lá. Lá fora. Mas eu vivo aqui dentro onde para mim são apenas sombras… personagens que imagino para me satisfazerem o ego, a partir de pequenos detalhes que observo. Ás vezes até mesmo os crio. Então, recrio a mim mesma para que possa fazer parte desse meu mundo, pois nem mesmo nele posso ser eu mesma…
O futuro é realmente sombrio. Torna-se ainda pior quando nota-se que deve vir como continuidade do presente. Esse mórbido inimigo… fruto de meu pretérito imperfeito!
Lembro de um dia, no passado, ter ficado esperando o sol nascer. Lembro de ter pensado que não apareceria. Quando eu mais precisava de luz, o próprio sol se escondia de mim! Foi quando eu mais o odiei por me desapontar terrivelmente que ele apareceu cor-de-rosa no horizonte e foi a mais linda alvorada. Era apenas cedo demais.
Só lamento que não seja assim com a vida. Seria uma bela metáfora. Soaria esperançoso! Mas em mim, o sussurro da dúvida fala mais alto que o grito da mera esperança.
Você nunca me responde. Sempre deixa que eu fale…
Talvez seja porque eu não tenha feito nenhuma pergunta. Somente aquelas sobre as quais já tenho as respostas. Elas são sempre as mesmas! E, geralmente, muito complexas para que eu possa entendê-las. Talvez não seja permitido que alguém como eu possua respostas. Talvez eu deva mesmo ser uma pessoa de incertezas.
É que, na realidade, as respostas pouco importam. A verdade mesmo é que somente o que interessa é tirar de dentro de si mesmo esses pensamentos obscuros, essas angústias. Pouco ou nada importa se alguém pode ouvir. As palavras podem simplesmente ecoar. Pode ser melhor que haja um ouvinte (não interlocutor, note o detalhe) para que ele possa, de tempos em tempos, em geral enquanto se respira, interromper o incessante monólogo para lhe dizer que está coberto de razão e que se sente do mesmo modo. Não que importe, absolutamente. Mas é bom saber que alguém pensa como você. Em alguns momentos, a sensação de normalidade e de pertencimento a um lugar comum às outras pessoas parece necessária.
CONTINUA…
Titulo: Esquizofrenia – parte 2
Autor: Tânia Toffoli
Gênero: Conto
Data de publicação: 25 de julho de 2003
Resumo: A insanidade ainda não acabou.
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Furor reflexivo curioso, para onde vai este “monólogo”? Gostei do parágrafo “O futuro é realmente sombrio. Torna-se ainda pior quando nota-se que deve vir como continuidade do presente. Esse mórbido inimigo… fruto de meu pretérito imperfeito” - construção meticulosa.