Conto por Claudia Lins
30 de abril de 2004
Subiu com passos apressados a escada rolante que interligava a galeria de lojas ao andar superior do grande prédio. Do lado de fora, a agitação da praça Sans Peña ia ficando para trás. O burburinho de pedestres, veículos e passageiros nas saídas do metrô, substituído pelo silêncio daquele imenso corredor frio e impessoal.
Com as palmas das mãos já molhadas de suor sentiu o primeiro ímpeto de voltar. Engoliu a fraqueza procurando disfarçar o medo. No alto da escada, ele a esperava como haviam combinado. O rosto não denotava qualquer sinal de insônia ou arrependimento. Olharam-se e seguiram juntos.
As portas alinhadas, algumas com grades e correntes, davam a impressão de estarem transitando pelo cofre de um grande banco. Sentindo-a enfraquecer, ele puxou-a mais forte pela mão. Assim seguiram com passos decididos até o primeiro contato visual com a mulher do outro lado da pequena porta de madeira.
Ouvir seu nome pronunciado em sussuros pela estranha, despertou-a para aquela realidade finalmente. Na sala de espera tentou prestar atenção na programação da tv. Lembrou da irmã, naquele instante assistindo a mesma reprise da telenovela da tarde. Inteira em sua vida real e sem pressa.
O som da rua, abafado, não deixava dúvidas sobre onde estavam. Para dissimular o medo fingiu engasgar-se com a fumaça do cigarro da cinqüentona sentada na enorme poltrona a sua frente. O jeito duro com que a mulher dirigia-se a filha, uma garota de provavelmente 16 anos, que desmanchava-se em um choro compulsivo, atormentou-a. Já não conseguia dissimular o descontentamento por estar ali.
Olhava para os rostos daquelas mulheres em busca de alguma semelhança. Todas tão diferentes e aparentemente com razões tão distintas da sua. Mas estavam ali pelo mesmo motivo. E embora tentassem disfarçar a ansiedade com conversas idiotas, pregando o olho em revistas de fofocas, falando do quanto a recuperação seria rápida e praticamente indolor, sobressaltavam-se pelas mesmas razões.
O toque impessoal de mão do homem a seu lado foi o sinal para a realidade que a esperava em poucos minutos. A entrevista com a atendente do médico deixou-a ainda mais apreensiva. Imaginar possíveis complicações decorrentes daquele ato cirúrgico, tendo que deparar-se com a expressão reprovadora de uma família decepcionada, só aumentava sua angústia.
Enquanto preenchia a ficha burocrática só o que lhe ocorria era a expressão da irmã a dizer-lhe que poderiam ter dado algum jeito. Mas ela própria havia revirado as possibilidades pelo avesso e não encontrado uma que a salvasse de estar ali.
Então procurou o olhar do outro. Olhava a saída da sala pensando que a qualquer momento ele a convidaria para desistir de tudo. Sabia que juntos não teriam muito futuro, mas estava disposta a acreditar no improvável. Qualquer alternativa que a tirasse dali. Mentalmente contou e recontou: um, dois, três, vinte e quatro. Desistiu.
O chamado silencioso da atendente a fez perceber que era chegada a hora. Entraram numa sala de paredes claras e vazia. Despiu-se. A bata branca colou sob o corpo nu, uma tremedeira absurda. Procurou inutilmente a saída com o olhar.
- Não precisa ter medo, o doutor vem já.
Em poucos instantes um homem vestido de branco, fazendo-se de simpático, cruzou a pequena sala. Fez perguntas, tentou tranqüilizá-la. Algo naquele sorriso artificial deixou-a ainda mais insegura. Precisou ser amarrada a cama. O anestésico percorrendo a veia, a espátula penetrando-a, um grito sufocado de protesto. Dor.
Acordou entre corpos de outras mulheres. Uma sala apertada, vozes desconexas e o tom reprovador da enfermeira tentando conter-lhe o choro.
Demorou até que percebesse onde estava e o que tinha acontecido. Chamava pela mãe como se fosse uma garotinha indefesa. O fluído de sangue contínuo como testemunha do fim e o olhar reprovador da enfermeira a pedir que se calasse, pois estava assustando as outras mulheres.
E de repente, algo no jeito rude e impaciente daquela enfermeira lhe fez lembrar o olhar entediado de um funcionário do parque de diversões num domingo perdido de sua infância. E então viu de novo as pequenas motocicletas girando, pôde ouvir o ronco suave de motores imaginários com faróis que piscavam, ofuscando olhares.
Ouviu de longe o riso das crianças, alheias ao tédio e frustração aparentes daquele funcionário. O parque barato com brinquedos empoeirados e antigos parecia transformar-se no lugar mais incrível do mundo. Com cavalinhos que não paravam de rodar sob o tablado de madeira, garotos dirigindo caminhões turbinados, foguetes espaciais, os gritinhos abafados das meninas na cama elástica e no bate-bate… o riso da mãe na montanha russa, a maçã do amor grudando no dente… casais aos beijos , balões coloridos…
Tudo isso entrando pela retina ao mesmo tempo. Tão forte como o cheiro de éter a despertar-lhe náuseas.
Não saberia responder se era por efeito da anestesia, mas sentia-se flutuar como se fosse a passageira de um grande túnel por onde imagens do passado misturavam-se aquele presente insólito. Sons e aromas iam e vinham em ondas que se dissipavam e voltavam com uma força impressionante. Como se pudesse apagar toda dor e tristeza daquele momento encontrando refúgio no universo particular de sua memória infantil. E de propósito o mundo pudesse ser transformado naquele parque pobre de subúrbio. Alegre, colorido, girando, girando.
Titulo: Éter e balões coloridos
Autor: Claudia Lins
Gênero: Conto
Data de publicação: 30 de abril de 2004
Resumo: Acordou entre corpos de outras mulheres. Uma sala apertada, vozes desconexas…
por que os balões sao tao coloridos
tenho um trabalho do colégio e a pergunta é. Porque os balões são tão coloridos? Por favor se puderem me responder eu fico muito agradecida. obrigado!
sou uma aluna do colegio zuleide constantimo e quero que sua imprassa diga-me porque os baloes sao colorido essa pesquisa e minha prova porfavor me responda preciso disso ate domingo ta morro jabotoa dos guararapes PE
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EU QUERO SABER PQ OS BAÕES SÃO COLORIDOS