Conto por Mário Neto
17 de dezembro de 2003
O encontro
Entrou no bar e, rapidamente, sentou-se no balcão. Pediu com uma ânsia voraz uma dose de whisky. O homem ao lado, deliciado pelo doce perfume da mulher e ouvindo com que vontade ela pediu a bebida, arriscou:
- Sede, não?
Ela, surpreendida pelo comentário, deu um gole seco na dose prontamente entregue pelo barman. Depois, soltando seus longos cabelos, respondeu:
- É, talvez…
E suspirando:
- Essa vida…
Sem esperar muito ele se apresentou, dando o rosto para dois beijinhos:
- Prazer! Palhinha…
E enquanto davam os beijinhos:
- Camila, mas pode me chamar de Mila…
Ajeitando-se no banquinho, agora virados um de frente para o outro, Palhinha observava o lindo corpo da perfumada mulher. Sem ter o que perder, tentou mais um pouco:
- É sozinha Mila? Tem alguém?
- Não tenho…
Dando outra golada no whisky, ela resmungou:
- É esse o problema.
Ele continuou, animado:
- Não fique assim, uma hora você encontra. Quem sabe mais cedo do que imagina.
Com os olhos atentos, ela deu um risinho acanhado. Depois, um pouco vaga, respondeu:
- É, quem sabe. Preciso mesmo de um companheiro.
Sem esperar muito ele se aproximou. Pegou nas mãos dela e, sem tempo para qualquer outra atitude, beijou-lhe a boca. Assustada, mas também excitada pela situação, ela correspondeu prontamente. Beijavam-se como se fossem conhecidos de longa data.
A paixão
Conversavam, ambos, atropelando-se nas palavras. Estavam tão entretidos e entusiasmados com o que estava acontecendo que sequer percebiam as outras pessoas do bar. Não ligavam se falavam alto ou se as gargalhadas eram exageradas. Para eles, tudo o que se passava em volta era chato, tremendamente chato. O mundo de Mila, era, ali, Palhinha. E o mundo de Palhinha, Mila.
Surpreendidos, não imaginavam que pudessem existir duas pessoas que se combinassem tanto quanto eles dois naquele momento. Tinham tantos sentimentos em comum, com tantas tentativas mal sucedidas, tantos desejos, que não podiam acreditar. Esperavam o mesmo da vida. Reclamavam do trabalho cansativo, dos amigos superficiais, das horas na TV assistindo filmes sozinhos, sem ter alguém para compartilhar a pipoca ou para apoiar o braço. Comentavam que, em momentos mais tristes, sentiam falta de alguém para abraçar ou um ombro para apoiar. Irritavam-se também com a rotina de solteiro, de ter que sair e ver aquele monte de pessoas sozinhas, à procura de outros, mas sem saber direito quem. E riam, por terem encontrado de maneira tão inusitada alguém nas mesmas condições. Riam e se beijavam apaixonadamente.
A relação
Passadas um pouco mais de três horas em que estavam no bar, onde conversaram de tudo, da vida passada, da presente e até um pouco da futura, decidiram comer. A bebida havia instigado a fome e estavam contentes por poderem compartilhar juntos esse momento tão comum, mas também tão íntimo: a refeição.
Saíram abraçados do balcão e sentaram na mesa mais próxima. Palhinha escolheu um lanche, Mila um prato à base de camarão. Ele, quando ouviu o pedido, comentou:
- Gosta de camarão?
- Adoro, sou louca por camarão…
Ele era sincero:
- Não vejo muita graça.
Mila, desconcertada, procurou não dar importância:
- Ah, tudo bem! Gosto não se discute mesmo…
Palhinha, que era meticuloso, não perdeu tempo:
- Não vejo como consegue ver graça nisso. Sei lá, tem gosto de nada… De isopor…
- Já comeu isopor, por acaso? Não sabe o que está falando. Camarão é uma delícia.
E começando a ficar irritada, provocou:
- E você? Lanche é coisa de homem mesmo. Tanta coisa para comer… Por que escolheu logo um lanche? Não vê que o momento é romântico? E que nessas horas um lanche é exatamente o contrário, completamente sem estilo?
Palhinha, apesar de querer responder à altura, resolveu ficar em silêncio. Não valia a pena continuar aquela discussão. Logo os pratos chegaram e, pela boca ocupada na mastigação, não falaram nada. O olhar de ambos, no entanto, já não era o mesmo. Palhinha, que não era de levar desaforos, acabou se contendo o quanto pôde. Já começava a se questionar como poderia gostar de alguém como ela.
A crise
Ele praticamente engoliu o lanche. Foi tão rápido que, ao terminar, teve tempo de sobra para ficar observando Mila apreciar o prato que tinha pedido. Não pôde deixar de ter um certo nojo da maneira com que ela abocanhava o camarão. Ele não só achava o camarão sem graça, como tinha profundo asco dele. E se ela quisesse beijá-lo? Ele não conseguia imaginar o quanto aquilo seria desastroso. E como negar um beijo? Preferiu não dizer nada, ela nunca iria compreendê-lo.
Ainda mastigando a última garfada que dera, Mila puxou assunto:
- Você come rápido, não? Mamãe diz que faz mal…
Já não conseguindo segurar mais tamanha pressão por dentro, ele desabafou:
- Quer saber? Tenho horror a caramão. Verdadeira aversão. Aliás, tudo que vem do mar acho nojento. E sua mamãe é o que, doutora pra ficar dizendo o que é bom ou não para a minha saúde? Como rápido sim… E adoro lanche, está sabendo? Adoro! Como todo dia… Se você acha sem estilo, você que é chiquérrima, desculpe, mas adoro lanche. A-do-ro!
O fim
Levantou-se da mesa imediatamente. Mila, assustada, havia parado a mastigação pela metade e estava com a boca semi-aberta e cheia. Ele abriu a carteira, pegou uma nota e a bateu contra a mesa. Disse, irritado:
- E sou um cara moderno! Cada um paga sua conta! Tá aqui a minha parte!
Antes de dar as costas, finalizou:
- Foi um prazer…
Virou-se e saiu do bar às pressas, bufando. Mila, ainda com a boca ocupada, não conseguia entender o que havia acontecido. Entre os olhares das pessoas, ela, que paralisada segurava o garfo entre o prato e a boca, chorou compulsivamente. Chegou quase a engasgar com o camarão.
Mário de Souza Neto quase sempre janta lanche feito em casa e gosta bastante de camarão, apesar de apreciá-lo de vez em nunca.
Titulo: Eterno enquanto dura
Autor: Mário Neto
Gênero: Conto
Data de publicação: 17 de dezembro de 2003
Resumo: Uma “longa” história de amor.
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