Conto por Mário Neto
23 de abril de 2003
Penso na vida.
Tento fazer diferente e não vem nada. Como pensar é foda. Você pára, você pensa, você tenta escolher, mas não consegue. Ou não consigo. Não consigo pensar em outra coisa que não na vida. Na vida mesmo, assim, no geral. Não na minha vida.
Já tentei ser prático. Primeiro as primeiras coisas do dia. As prioritárias. Sim, o prático sabe perfeitamente o que fazer e quando. Primeiro isso, depois aquilo. O prático define com facilidade o que é mais importante e assim sabe o que deve fazer primeiro. Eu nunca consegui distinguir o que é mais importante. Eu nunca consegui pensar direito na minha vida. Nunca consegui pensar direito nas coisas. É tudo nuvem, névoa, sombra, reflexo. Nada me parece claro. Nada me parece mais importante. Nunca serei prático.
Já tentei me organizar melhor. Pensar na frente e me organizar para chegar lá. Ser objetivo. Definir: ser isso, fazer aquilo. Alcançar um ponto xis qualquer entre ípsolon e zê. Tentei escrever tudo num papel, tentei repetir frases feitas e de efeito pela manhã, tentei até ouvir aquelas fitas motivacionais. Não deu certo. Nunca daria. Penso na vida e não nos objetivos que tenho na vida. Nunca serei organizado.
Já tentei ser crítico. Afinal, se não posso ser prático, eu os critico, se não posso ser organizado, eu os critico. Mas para criticar eu preciso argumentar, eu preciso estudar, ler. Ou seja, eu preciso ser organizado, eu preciso ser prático e dizer o que é mais importante. É afirmar “ser crítico é fundamental”. Tenho dúvidas. Não sei se ser crítico é realmente fundamental. Penso na vida. A gente vive pra ser crítico?
Gozado. Quem disse que se vive para alguma coisa? Eu nunca vivi para nada. Nem para mudar, nem para manter.
O prático já tentou me mostrar que vivo para fazer. Se não sou prático, não faço nada. Não fazer nada é ruim.
O organizado já tentou me mostrar que vivo para alcançar. Se não tenho objetivos, sou um barco que navega sem rumo. Não ter rumo é ruim.
O crítico já tentou me mostrar que vivo para mudar. Se não sou crítico, eu vivo para manter o que existe. Não mudar o que existe é ruim.
Cada vez mais fica claro em minha mente que vivo para o nada. Para ser incoerente. Para tentar o que der e não der. Para fazer coisas à força, pois os outros me exigem. Para fazer coisas à força, pois eu quero que elas sejam feitas. Para viver pensando na vida que vivo pensando.
Pois a vida, na verdade, não existe sem a minha mente. Ela é toda conceitos, toda idéias relacionadas, toda experiências que, enfim, são todas minhas. Não há nada a ser descoberto, mas a ser criado. A vida sou eu que crio, ela não existe por si só. Ela não existe sozinha. Sem a mente, nossa vida ? essa vidinha nossa ? não existe. O que existe é um monte de pedras e elementos que se sustentam e multiplicam. (Tá aí um bom exemplo. Quantas pedras de carne e osso a gente não conhece, mesmo que estejamos plenamente dotados com uma mente?)
É verdade que não crio essa vida sozinho. Crio junto com outros que querem que minha vida criada seja como a deles e como a daqueles que criaram antes de nós. Eu entendo. Para viver com eles, para comunicar com eles, precisamos de algo comum, não é mesmo?
Daí que nada me tira da cabeça que é tudo um faz de conta. Faz de conta que a gente é sério, faz de conta que a gente sabe o que está fazendo e que tem certeza de tudo. Faz de conta que existe uma verdade universal. Faz de conta que a gente nasce com um dom e com um destino ? traçado ou traçável. Faz de conta que nos entendemos para que possamos suportar uns aos outros e sobreviver juntos ? pois sozinhos somos um inferno.
Faz de conta que viver é coisa que existe fora de nós.
Penso na vida. Afinal, a vida é só pensamentos.
Titulo: Faz de conta
Autor: Mário Neto
Gênero: Conto
Data de publicação: 23 de abril de 2003
Resumo: A vida e o que ela é.
Fiquei encantado com o seu texto, me envie outros por e-mail ( msd.urg@brturbo.com ) Prof. Aljair Costa
Digno e espontâneo, o texto do Mário resume o essencial, numa tentativa exasperada de simplificar o complexo. Muito bom!
Boa Mário. Fantástico esta reflexão que acaba depositando a verdadeira responsabilidade em cada um de nós. Me lembrou também aquela uma célebre frase do Woddy Allen sobre este faz de conta, que é mais ou menos assim.: “é assustador supormos vivemos no pensamento de alguém, no dia em que quitamos as prestações da nossa casa”.
ótimo texto. fala das escolhas e das atitudes das pessoas com uma simplicidade surpreendente. parabéns.
Muito bom, Mário! Seu texto é de uma simplicidade e leveza que cativam a leitura, nos guia com extrema naturalidade. Além do conjunto, gostei de dois trechos em especial: “É tudo nuvem, névoa, sombra, reflexo.” (semiose curiosa…) e “Para viver pensando na vida que vivo pensando. Pois a vida, na verdade, não existe sem a minha mente.” (influência marcante de Pessoa). É isso aí, um grande “faz de conta”.
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Para Sartre, o inferno é o outro, mas vc diz agora que ficar sozinho é um inferno… Fiquei confusa… que inferno!