Felisberto

Conto por Leonardo Augusto
3 de outubro de 2005

Felisberto era um velho infeliz. Talvez não tão velho, mas de meia idade; talvez não tão infeliz, mas amargurado. Não era mal humorado, e sim bastante espirituoso, ainda que mordaz. De qualquer sorte, gastava seus dias em bibliotecas, livrarias, um cinema às vezes, ou longas caminhadas, sempre só. As noites eram preenchidas com audições em elevados decibéis de compositores vanguardistas ? para desespero dos vizinhos ? ou bebedeiras, às vezes ambos. Sempre só, claro.

Não que ao longo de sua vida atribulada ele não tenha tido mulheres e amigos, foram até muitos na juventude. Mas o tempo se encarregava sempre de decantar sua personalidade densa, submergindo-o em um mar de melancólica solidão. Não era um pessimista profissional, como um alemão que ele gostava de ler; mas se tornou aos poucos um misantropo, como um grego que ele admirava.

Numa certa madrugada ébria, numa mesa de canto dum bar pouco recomendável da metrópole, relia pela enésima vez, no original, a obra maior de outro alemão (cuja recomendação de lê-la depois dos quarenta ele descumprira). Súbito, seja pela mistura arriscada de Steinhaeger com antidepressivos, seja por um desses eventos inexplicáveis pela ciência, Felisberto sente um cheiro de enxofre e, erguendo os olhos da leitura, depara-se com um senhor sentado à cadeira oposta, de pele muito vermelha, usando um belo terno e um chapéu bem negros. Sobre a mesa, uma valise cor de sangue.

Com seu perdão, o senhor queira se retirar, eu não quero comprar nada.

Mas eu não estou aqui para vender…

(interrompendo) Já sei, quer comprar minha alma em troca de sabedoria. Não, muito obrigado, eu já tenho mais do que possa precisar.

Mantenha a calma, meu caro, ouça ao menos a proposta que eu lhe faço.

Espera um pouco. Garçom, mais um destes!

Permita-me me apresentar. (sacando um cartão do bolso do paletó) Sou Mefistófeles e atuo no ramo de compra, venda e permuta de bens imateriais.

Ah, prazer conhecê-lo pessoalmente. O último Anjo do Inferno que conheci pilotava uma motocicleta. Mas pode esquecer, já vendi minha alma pelo Mercado Livre.

(sonora gargalhada) Ora, Sr. Pereira, não se trata disso. Hoje em dia esse negócio não vale mais a pena. Tal mercadoria tem pouco valor de revenda, e…

Pode me chamar de Felisberto.

Ótimo. Indo direto ao ponto, Felisberto, o Sr. estaria…

(gritando)Você.

Você estaria interessado em me vender sua sabedoria?

Ora, mas isso é que não vale nada mesmo!

Talvez, mas eu preciso dar um presente ao Chefe, vai ser o aniversário da Queda semana que vem. Você sabe como ele gosta dessas coisas.

Hum… Posso te chamar de Mefisto?

É, não chega a me incomodar, fique à vontade.

Então, Memê, o que é…

Eu não gosto de ser chamado de Memê.

Mefinho?

Não.

Totofes?

Muito menos. Começo a me perguntar se você é o cliente ideal.

Não se irrite. Vá lá, Me-fis-tó-fe-les, qual é a barganha?

Bem, Felisberto, é bem claro para mim que você não é feliz.

Ninguém o é, quem diz que é está se enganando.

Não é verdade. Veja ali aqueles jovens: estão dançando lascivamente, exibindo corpos bem feitos e bem cuidados, cada um com um belo sorriso no rosto bronzeado…

Você propõe me transformar em um deles.

Exatamente. Ao assinar este contrato (abrindo a valise), você perde toda sua erudição e acorda amanhã totalmente estúpido, mas jovem e musculoso, viril e priápico.

Sem ressaca?

Pode-se providenciar isso também.

Estou começando a me interessar.

A esta altura o contrato já estava em cima da mesa, bem como mais uma dose.


Titulo: Felisberto

Autor: Leonardo Augusto

Gênero: Conto

Data de publicação: 3 de outubro de 2005

Resumo:

Encontro insólito.

1 Comentário

  1. EdelweiB disse:

    Ótimo… aos poucos leio todos.

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