Conto por Tânia Toffoli
31 de março de 2004
Ela, percebendo seu olhar sedutor e ainda pensando que era o amante, fitou-o, olhando-o nos olhos por alguns minutos. E com aquele olhar que parecia dizer tudo, levantaram-se.
-Vista-se. Vamos ter uma noite muito especial hoje! ? disse ele.
Ela sorriu provocante e foi trocar de roupa. Colocou seu melhor vestido, prendeu parte de seus longos cabelos negros e, com seu maior decote voltou para a sala. Sobre a mesa da sala de jantar, que já não mais sustentava o vaso sem flores, estava a melhor e mais cara louça da casa. Os talheres de fondue de prata perfeitamente posicionados ao lado da panela do réchaud que era aquecida por uma chama não muito intensa. Havia pequenos pedaços de pão italiano em um prato de porcelana chinesa, assim como presunto em pequenos cubos, palitos de cenoura e salsão, picles variados e azeitonas recheadas. Taças de cristal tão incrivelmente brilhantes acompanhavam a tão decorativa mesa. Ele sempre cozinhara muito bem, tão cuidadoso e atento aos detalhes… Lindas velas há muito esquecidas numa gaveta estavam acesas com suas chamas dançando conforme a suave música que percorria o ambiente perfumado por odores de especiarias. A lareira também estava acesa tornando a temperatura irresistivelmente agradável. Ela caminhava lentamente envolta da mesa observando encantada. Ele apareceu vindo da cozinha.
-Falta o champagne! - disse ela sorrindo.
Ele olhou-a com um leve sorriso nos lábios.
-Não, champagne, não! Vinho! Combina melhor com nós dois. ? disse ele com uma voz doce e suave.
-Tinto!
-Tinto.
Caminhou, então, em direção à sala, onde ficava a escada circular que ia até à adega subterrânea, a qual mantinha cuidadosamente como uma paixão. Obviamente era um lugar escuro e úmido, havia salitre em alguns cantos, mas no geral era bastante limpo, ele mesmo cuidava disso; ninguém podia jamais entrar ali. Tinha ali os melhores e mais variados tipos de vinhos. Um hobby que lhe custava largas somas constantemente. Mas, para ele, era mais do que um simples hobby, era apaixonante, orgulhava-se de sua adega e buscava sempre inovações e novidades que a pudessem tornar cada vez mais completa, mais perfeita. Assim como queria que fosse sua vida. Mas, evidentemente, manter uma boa e completa adega é incrivelmente mais simples e alcançável do que manter uma boa e completa vida.
Os vinhos estavam organizados meticulosamente; tintos de um lado, brancos de outro. Secos em uma prateleira e suaves noutra. Os anos das safras em ordem decrescente da entrada para o fundo cada vez mais escuro e úmido. Caminhou lentamente olhando suas preciosidades com cuidado adentrando cada vez mais a adega. Quando chegou ao fundo olhou uma das garrafas; estava em posição privilegiada, em destaque. Sabia que era o que procurava e parou por alguns instantes. Retirou, assim, de sua incrível coleção o melhor dos vinhos. Sim, fazia isso com certo pesar, mas seria por um bom motivo. Poderia conseguir outro daquele vinho com alguma dificuldade, mas se estivesse disposto a pagar… e com certeza estava. Mas o que teria naquela noite nenhum dinheiro poderia pagar. Tinha que ser aquele vinho!
O fondue e o melhor dos vinhos foram servidos.
Ele tomou um talher, cravou num pedaço de pão italiano, banhou no fondue extremamente perfumado e apetitoso e colocou vagarosamente entre os lábios dela. Ela fechou os olhos e lentamente foi separando um lábio de outro e tocando suavemente os dentes no pedaço de pão. Depois de apreciá-lo em cada mordida ela tomou um gole de vinho. Ele sorriu. Ofereceu um brinde. Passaram-se assim os minutos seguintes. Esvaziando toda a garrafa de vinho, apreciando-o a cada gole e em cada toque de lábios naquele líquido misteriosamente mágico, a noite parecia mais agradável. O frio que o anoitecer trouxera não mais era incômodo, pois se transformara em brisa suave para o calor de seus corpos.
-Sapatos de salto e uma garrafa de vinho a deixam irresistivelmente alta!
Riram do trocadilho infame como uma criança gostosamente ri ao se fazer cócegas.
-A embriaguez me cai bem!!
-Certamente…
Riam divertidamente ao longo de minutos memoráveis. Mas ele decidiu que chegara o momento para a seriedade.
-Mal posso conter minha ansiedade. Pareço um adolescente!
Ela pousou a taça de vinho vazia sobre a mesa e beijou-lhe sensivelmente os lábios. O sabor da bebida escarlate pôde ser sentido sutilmente naquele toque. Ele levantou-se e caminhou para trás dela. Com movimentos suaves, tocou-lhe os ombros. Ela fechou os olhos e entregou-se ao incrível momento. Com uma das mãos, ele afastou-lhe os longos cabelos do pescoço e aproximou o rosto sentindo o delicioso odor das mais preciosas uvas. Pousou a outra mão sobre um talher sobre a mesa e num golpe artístico e ágil passou-lhe pelo níveo pescoço a afiada lâmina, cujo metal reluzia pelo brilho do fogo alimentado pelas velas. Um jato de sangue de um vermelho vivo e intenso jorraram de suas artérias para metros de distância. Ele, agilmente, tomou a garrafa vazia e encheu-a com o vital líquido. Ela olhou-o nos olhos tomando consciência do ocorrido; meticulosamente premeditado como forma perversa de espantar o tédio de um final de domingo. Morta, ele deixou-a jogada no chão da sala de jantar com os olhos ainda abertos ? ficava melhor assim; o mesmo olhar que lançava-lhe quando viva, agora morto, inexpressivo.
Lacrando a garrafa desceu até a adega carregando sua nova raridade. Procuraria o lugar adequado para o armazenamento. O melhor dos vinhos estava em suas mãos…
Titulo: FERMENTANDO – parte final
Autor: Tânia Toffoli
Gênero: Conto
Data de publicação: 31 de março de 2004
Resumo: Uma noite inesperada.
Bad Behavior has blocked 11 access attempts in the last 7 days.
CARAMBA!