FERMENTANDO – Parte I

Conto por Tânia Toffoli
30 de março de 2004

Era domingo. Lá estava a mesa da sala de jantar levemente iluminada pelos resquícios de luz que vinham da sala. Era uma bela mesa de vidro e mármore. De muito bom gosto. Sobre ela estava uma toalha muito sóbria, mas também extremamente elegante. E um vaso de cristal. Apenas um vaso. Tão incrivelmente transparente. Finíssimo. Lindíssimo. Caríssimo. Mas sem flores. Nem mesmo artificiais.

Perto dali, na sala de estar, estava ele lendo seu jornal. Comodamente deitado sobre a chaise longgue no canto direito da sala. Lendo não. Não se pode dizer que lia; apenas fingia ler para espantar o tédio de mais um dia que se arrastava através das horas… minutos… segundos… Já havia pensado em tudo de agradável possível, mas nada mais podia animá-lo, nem mesmo sua preciosa coleção de vinhos, preciosamente guardada na adega alguns metros abaixo de onde estava, conseguia entretê-lo naquele momento. Ao lado dele, um abajour que o amparava na leitura e, em cima da mesinha de imbuia, um copo de whisky esperava pelo próximo gole que, certamente, viria em breve.

Mais à esquerda, preguiçosamente deitada no sofá de couro marrom, estava ela. Vestia um hobby vermelho de seda e, suavemente, com a ponta dos dedos, massageava a pele nua e macia com um creme levemente perfumado. Doce. Erótico. Começava pelos calcanhares e subia lentamente ao longo de suas pernas bem torneadas; o tecido que as cobria ia escorrendo-lhe fazendo com que cada vez mais centímetros de sua pele ficassem nus.

Ele, com o jornal em mãos e olhos aparentemente atentos, pensava no porque uma mulher precisa usar cremes. Todos esses ungüentos que causam engulhos, pegajosos. Quem se atreveria a tocar tão asquerosa substância? E ela espalhava aquilo por todo o corpo. Mal podia olhar para ela. E aquele cheiro, pelo amor de deus, era insuportável! Dava-lhe dores de cabeça e enjôos terríveis. Era cheiro de perfume barato, cheirava como uma vagabunda! Aquela situação tornava-se insustentável. Pedia desesperadamente para que alguém tocasse a campainha. Isso! Seria perfeito. Não teria que começar qualquer conversa com ela, poderia fingir que tudo estava bem. O jornal parecia não ser mais eficiente nessa tarefa. Ela parecia notar que ele não lia realmente. Parecia cobrar-lhe uma atitude. Uma reação… ou uma ação.

Sim, realmente ela lançava-lhe olhares de tempos em tempos, mas não pelo motivo que ele pensava, mas sim por estar entregue a devaneios. O mais doce e envolvente desejo de sua mente e de seu corpo. Fingia que não era o marido quem estava destraidamente sentado lendo o jornal, mas sim o amante. Aquele perfeito “latin lover”. Ah! Como gostava das tardes durante a semana em que o marido não estava em casa… Delirava que era o amante sentado na chaise longgue e que fingia estar distraído com o jornal para provocá-la. Então ela o provocava com sua sensualidade. E assim distraía-se e o tempo ia passando. Logo seria segunda-feira e poderiam encontrar-se novamente.

O homem, quase vomitando, com um mal estar incômodo devido ao nojo que sentia daquela situação, estava pálido e suava frio. Até que toda aquela sensação desgastante subitamente deixou-o. Ele levantou os olhos, pela primeira vez desviando-os do jornal. Olhou-a ali deitada e sentiu-se incrivelmente reanimado e empolgado. Uma idéia, uma vontade, percorreu-lhe todo o corpo e excitou-lhe a iminência de realizá-las.


Titulo: FERMENTANDO – Parte I

Autor: Tânia Toffoli

Gênero: Conto

Data de publicação: 30 de março de 2004

Resumo:

Um casal no domingo.

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Quem é Tânia Toffoli?

Estudante de letras, 19 anos, amante da literatura.

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