Conto por Alexandre Piccolo
31 de julho de 2003
Chegada
Por que fui fazer isso? Melhor ficar calado, ninguém vai desconfiar. E por que aquele senhor me olha com aquela cara? Será que estou com a roupa rasgada? Nem um pouco… Será que meu cheiro está estranho? E este delegado, quando vai chegar? Tenho compromisso amanhã cedo, ele não pode ficar me enrolando, onde já se viu isso.
- Onde está o delegado?
- Já está chegando, aguarde um momento, por favor - retorquiu o jovem faxineiro que limpava o chão com o esfregão sujo. O balde de água estava imundo, era inútil continuar com aquilo.
Minha paciência já está se esgotando… Por que vim parar aqui? Saí para uma caminhada no bosque ao redor de casa, como faço sempre, aí começou a chover de repente, tive que correr, não achei mais o caminho de volta. Onde estou? Que raios de delegacia é esta? E esse delegado, o que quer comigo? Raquel, Raquel vai vir me encontrar, é isso, basta ligar e ela chegará aqui. Mas o que direi? Que andava e me perdi? Ela vai achar que fiquei louco, que estou com a cabeça na lua, onde já se viu correr num bosque numa chuva destas, posso pegar um resfriado, essa roupa toda molhada. Ela vai chegar com Frederico, não suporto o canalha, vai me olhar com aquele olhar sabichão, inquiridor, superior, arh!, insuportável. Melhor não, já o delegado vai chegar, isso se resolve depressa.
- Cadê o delegado? Não tenho o tempo todo!
- Já está chegando, senhor. Tenha paciência. Também, com esta chuva…
- É, mas eu não tenho todo o tempo do mundo, tenho compromissos.
- Sabemos, senhor. Mas aguarde só um instantinho, o delegado já está chegando.
Agora é este velho que me olha de novo, rosto esguio, pálido. Que tanto me olha? Será que estou despenteado? Devo estar um maltrapilho, molhado, sujo. Ah, que loucura em que fui me meter, pra que tudo isso? E esta moça aqui atrás, está fazendo o quê aqui? Me vigiando? Vou ligar para Raquel, não tem outro jeito. Qual é mesmo o número? 9199-8969? é isso? 98 ou 89? Raquel tem que vir logo…
- Por que estou preso aqui esperando o delegado, posso saber? - gritando impaciente.
- Senhor! - enérgico retrucou o faxineiro, que de pé, ereto, ganhava novas proporções - ninguém anda sozinho na chuva correndo por estes arredores! Ainda mais sem documentos! Faça o favor de esperar e tudo se resolverá quando o delegado chegar!
- Hnf! Vocês não sabem com quem estão falando! Eu sou uma pessoa de renome, conhecida! Esse delegado que venha, verá só. Que venha logo! Não tenho todo o tempo do mundo!
Saco, chuva, documentos, pra que preciso disto? Uma hora enlouqueço, por que fui fazer isso? O que? Puxei os cabelos, sentia-me sufocado, não preciso mais de nada. E por que afinal Raquel escolheu Frederico? Não lhe dei atenção? Sei que não dei, mas tivemos nossos momentos, isto não conta? Desconta em mim, isso sim. Vagabunda. Mulheres. Por essa não esperava. E ambos ainda me visitam, com cara de perdão e misericórdia, miseráveis. Sumam da minha vida! Desse jeito explodo. Não quero que venham pegar livros emprestados, fingir entrevistas, estréias, noites de autógrafos, tudo fofoca inútil, mentiras, máscaras, disfarces sociais. São uns crápulas, isso sim. Deve ser por isso que ela escolheu ele, ele aguenta essa encenação, eu não suporto essa rotina hipócrita de falsários, atores de meia tigela para ganhar um tostão, tudo bajulação. Humanos, fracos humanos! Depois ficam se vangloriando de serem meus amigos, amigos de um escritor de renome, que diz algo que presta para o mundo. Algo a ser dito! Ao menos há de haver alguém que não minta neste planeta. E eu minto, eles não percebem, mas minto. Tudo palavras, disfarces de sílabas e significados - e nem percebem. Ao inferno todos vocês! Cadê esse delegado!
- Vou embora agora, se esse delegado…
E de repente entrou pela porta principal um homem baixo, de cabelos grisalhos, camisa branca e engomada, colarinho bem passado, sobretudo preto e um olhar sério, de lábios fechados com um ligeiro ar de mofa no canto de seu sorriso, imperceptível. Olhou-me de cima em baixo com calma, sem alterar o humor ou a fisionomia. Todos no recinto miravam-no: eu (impaciente), o velho à minha direita, o faxineiro de pé à esquerda e a escriturária atrás de mim. Exasperado, não fiz boa recepção:
- O senhor é o delegado? Pois se é vamos logo com isso porque tenho pressa…
- Acalme-se, por favor. Desculpe-me o atraso, esta chuva…
- Sem desculpas, vamos logo com isso, o que o senhor quer comigo?
- Sente-se, senhor! - impassivo. Quem manda e faz as perguntas aqui sou eu! Quem anda perdido por aqui é o senhor, e sem documentos. É o senhor que irá se explicar…
Apresentação
Dúvida e esclarecimento
Despedida
E num olhar conformado, sem tristeza ou temor, despedi-me do delegado que tudo esclarecera aos meus olhos. Mirei-o com ternura, como quando se encontra alguém de boa aura numa esquina, pronto a lhe ajudar de sorriso aberto, e num relance lembrei-me de perguntar-lhe seu nome.
- Delegado, como se chama?
- Miguel Ângelo.
E parti para um lugar sem tempo, sem rumo.
Titulo: Formalismos
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Conto
Data de publicação: 31 de julho de 2003
Resumo: história baseada num filme real
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