Conto por Tiago Russel
1 de abril de 2003
Sofia era linda. Possuia longas mechas suaves que contrastavam com sua pele alaranjada. Alimentava-se regularmente e cuidava muito do próprio corpo. Era vaidosa e, acima de tudo, curiosa. Não podia notar o movimento de alguém que rapidamente procurava dar uma espiadinha.
Sofia era agitada. Não conseguia ficar parada, muito menos pregar os olhos. Achava tudo isso perda de tempo. Queria viver intensamente, desbravar fronteiras e, quem sabe, encontrar o verdadeiro amor da sua vida.
Sofia já tinha sido prometida. Mas seu noivo morreu. Misteriosamente. Ninguém entendeu quando o corpo dele apareceu boiando na água morna. A própria Sofia demorou muito tempo antes de descobrir. Ninguém comentou nada. Ela ficou triste, mas nem tanto. Não o conhecia, nunca trocou uma palavra com ele. Mas tinha o pressentimento de que poderiam ter sido felizes juntos.
Sofia era alegre. Mas sofria de um problema comum em qualquer pessoa: achava seu mundo muito limitado. Não importava o que fazia, sempre acabava voltando para o mesmo lugar. No início, não se sentia mal por viver assim. A ignorância é realmente uma fonte infinita de felicidade.
Até que um dia Sofia se mudou. Seus olhos arregalados descobriram que havia mais deste mundo. Não demorou para ela querer trocar tudo, até mesmo a decoração: tirou aquelas plantinhas verdes compridas que insistiam em flutuar no ambiente. Mas a paisagem ficou monótona. Faltava alguma coisa ali, uma referência, um centro. Quando já temia ficar louca de tanto dar voltas, a colocaram por alguns instantes perto da janela. Aquilo abriu seu mapa.
Sofia desejou. Lá estava o Guaíba refletindo o prata da lua. Era muita água num mesmo lugar. No inicio, aquilo a encheu de euforia. Mas depois a deprimiu. Sentiu-se pequena, apertada, limitada. Não tinha mais vontade de comer. As pessoas passavam e ela não dava mais bola.
Então Sofia ficou obcecada. Não suportava mais andar em círculos depois de ver tudo aquilo. Queria ter asas. Assim sairia daquela prisão. Planejou tudo. Mediu cada centímetro daquele maldito diâmetro. Fez os cálculos. Esperou o momento certo e nadou com todas as forças que tinha. Seu véu tremulou freneticamente. Ela inclinou-se para cima e ultrapassou a opacidade que a cobria. O ar seco queimava seus pulmões. Tentou retornar, mas era tarde. Foi encontrada horas depois, atirada no chão, inerte aos pés da mesinha que sustentava seu aquário.
Sofia era linda. E, graças a uma descarga, foi sepultada onde sempre sonhou.
Titulo: Free Sofia
Autor: Tiago Russel
Gênero: Conto
Data de publicação: 1 de abril de 2003
Resumo: Sofia era linda. E teve o enterro perfeito.
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Parabéns! O texto é muito interessante e surpreendente, causa uma sensação bastante agradável no final da leitura.