Grande dia

Conto por Claudia Lins
4 de março de 2004

Grande dia

Abriu a porta sem que ele tivesse tempo de detê-la. O carro devia estar a uns 90, 100 quilômetros. Enquanto o corpo era projetado no espaço, ainda teve tempo de ouvir um grito ecoando ao longe. Sentiu os braços despencarem soltos sob o asfalto. A carne deixando um rastro de sangue no chão.

Segundos fracionados de uma agonia até a cabeça bater no acostamento. Vozes vinham em coro como num efeito ‘sloan’ (em câmera lenta), sirenes e buzinas cortando o ritmo apressado do trânsito da cidade. Não saberia precisar quanto tempo permaneceu ali, esperando por socorro, até a multidão ofuscar-lhe o fio de luz que se apagava lentamente.

- Dizem que os dois brigavam e ela tentou se proteger pulando. – O frentista do posto de gasolina era o primeiro a palpitar sobre o caso.

- E alguém mais presenciou a briga? – indagou um policial militar.

- Eu vi, ele a tinha como refém, estava visivelmente transtornado e apontava uma arma contra a cabeça dela. – Adiantou-se uma dona de casa se colocando à frente do repórter fotográfico que registrava o cenário do acidente.

- Armado não sei se ele estava, mas vi quando a moça pulou e notei que ele parecia muito arrependido. – Completou o vendedor ambulante que deixara a banca do outro lado da rua para apurar os fatos.

A gorda do administrativo do posto de gasolina também aproveitou a ocasião para virar celebridade. Solidária, fez questão de correr para o local assim que o repórter do plantão policial começou a tomar os depoimentos.

- Na minha opinião ele forçou a pobrezinha a pular. Só mesmo uma pessoa muito desesperada se jogaria de um carro a 120 quilômetros por hora.

- Ele estava a 120? – quis confirmar o repórter.

- Acho que sim. Pelo menos foi o que o frentista me contou.

- E a senhora não presenciou o acidente?

- Quase. O meu turno começa às 9h, ela pulou às 8h30.

- E como pode ter tanta certeza que ele a empurrou?

- Intuição feminina. A minha nunca falha.

Na ante-sala do pronto socorro, nervoso, devorando um cigarro após o outro e ainda perplexo com os acontecimentos, pensou em acender uma vela para São Expedito das causas impossíveis. Estava à procura de um telefone público quando viu pelo monitor da TV, ligada na sala dos médicos, imagens do local onde ocorrera o trágico acidente. Reconheceu o rosto da bela moça em close na foto do documento de identidade lançado para fora da bolsa. Novamente reparou o quanto era linda.

A reportagem mostrava uma mulher falando algo sobre intuição feminina. Devia ter intuído que aquela moça tão linda, calada e esquisita, seria sinônimo de problemas. Na TV diziam que ele a havia empurrado do carro em alta velocidade. Especulavam um caso amoroso entre os dois, teses absurdas e diferentes versões dando conta dos acontecimentos. Imediatamente pensou na família e nas explicações que teria de dar. O carro do sogro apreendido pela polícia, depoimentos na delegacia, transtornos sem fim.

Culpou-se pelo infeliz ato de gentileza. Justamente quando havia acordado disposto a ter um grande dia, aquela simples carona mudava o rumo das coisas.

À poucos metros dali, com o corpo entregue ao sono do coma profundo, ela tentou descobrir onde estava. Nada de luz brilhante, sinal de túnel ou passagem tridimensional para o paraíso.

O corre-corre frenético dos para-médicos foi a última sensação de vida antes do mais completo apagão.


Titulo: Grande dia

Autor: Claudia Lins

Gênero: Conto

Data de publicação: 4 de março de 2004

Resumo:

Quem sabe o que nos espera quando cruzamos a porta de casa em direção ao mundo…

2 Comentários

  1. Alexandre Piccolo disse:

    speechless’…

  2. PH disse:

    Pôxa…

Deixe seu Comentário

Spam Protection by WP-SpamFree

Quem é Claudia Lins?

É jornalista, carioca alagoana, seduzida pelo cheiro do sargaço (alga que é a cara de Maceió), e pelo verde-azul dessas praias maravilhosas, por aqui descobrindo um mundo de possibilidades e desafios. Antes de todas as paixões, apenas uma: escrever, escrever e escrever.

Bad Behavior has blocked 21 access attempts in the last 7 days.