Conto por Marco Giannelli
17 de fevereiro de 2003
Seus olhos se cruzaram e as pálpebras piscantes lidimaram o medo e a esperança, cada qual a seu turno, cada um com seu vezo. Transido pelas cenas que as retinas modulam, ele açoitou as pupilas e agastou-as com mãos e dedos, pavor e fateixas. Perguntava-se: que olhar pode viver em meio à dor de estar cego de amor? E se a vigilância da córnea é mais sorrateira que a judiciosa cordilheira dos andes, por onde evade a minha cor?
Seu olhar prorrompia por extensões bastas e merencórios vales adubados de secas e irrigadas sebes, e onde havia espinhos, então lá repousava sua enxada leve. Os olhos dela coruscavam como diamantes e as mãos ladeavam os cabelos enfeixados e míticos. Quanto seu olhar queria o dela!
Nem dois passos foram gastos entre o limiar daquela vida e a sentença que o assestava. Ele, lívido e parcimonioso, com a greta dos olhos e o menor dos segredos, apenas minudava o aroma que seu corpo esparzia. Talvez em metros se pudesse medir a distância dos corpos, mas em milímetros estaria a dos gestos.
E ele a cobria de olhos que mais pareciam sanefas e alparavazes, enquanto ela se escondia em meio aos destroços, fútil ilusão farroupilha, para escapar a suas comoventes instâncias. Nos lábios um pequeno tremor anunciava o escândalo que é desejar à socapa. E sobre as mãos um rubor que uma ferida chagava, como se as unhas fossem liços de um tear deserto. Como é estrepitoso o pulsar de um desejo!
Ele, malfadado o gesto, não podia ir além do incesto que é desejar alguém que se ama. Ela, postada e retinta, sua cor ocre azulando o céu de cimento sobre sua cabeça, olhava sem ter os olhos à mira, qual semente que germina sem estar no rés da terra. As palavras foram dispensadas e o idioma embutido em cláusulas sinalagmáticas.
Ele peleja com assombro e pânico, e seu ardor são cutiladas indenes, cariciosas metáforas de que se faz um conto. E todo seu corpo vibra, esperteia e amansa medindo calores e sufocações estranhas, em busca do estro genuíno. Ela, à medida que percebe o avanço, lança mão de suas obras de defesa, as muralhas da china são pequeninos baluartes do engenho humano, mas ela tem mais que as muralhas, mais que a linha maginot, mais que a linha siegfried, mais que barbacãs derribadas, mais que bombas de hiroshima. E se levanta as sobrancelhas, é mais ou menos como um caciz levanta a voz em oração. E dos engenhos do fausto, mesmo os que a liberdade humana tornou benfazejos, ela conhece os meandros e as cantilenas. Tem medo que o estrige desavenha e com olhos melífluos a desonre. Desonra é palavra ambígua, melhor que nos livremos dela. Tem medo que o amor se transmude em cela.
Ele não se desfaz a toa, ninguém vence um deserto se esperar a chuva. E dos píncaros da rocha, das fragas alquebradas, dos ossos moídos, seu olhar destila um quadro que vê em menos de um segundo. A seu próprio desdouro, lança uma nave através de seu globo ocular, e essa nave faz a travessia de todos os palcos da guerra, desde que o homem nessas sáfaras pisou, para embocar em terras estrangeiras, em olhos cúbicos, cabelos presos e a expressão grave de quem teme o azorrague e a perfeição que a pele de azulejo narra. E com o penhor de quem, transido em medo, rompe a quilha que seu barco ajeita, ele aperta tanto os olhos que até à lágrima é proibido o degredo e, numa incursão de poucos minutos, o corsário é feito presa quando transpõe a margem esquerda do desejo. Ela, estreme de medo, avança sem os olhos revelar e, ele, estremunhado e aflito, já não dá mais voz ao que antes lhe lacerava o corpo e lazarava a peito. E os olhos que tão de perto olhavam, conscientes do quanto o corpo ardia, foram até os olhos dela e a despeito do quanto ela fugia, semearam uma vida em profusão e lágrimas, cálida expressão de armadilha, e as celhas que tremelicavam não puderam conter o assomo. Toda a robustez dele foi parar na inexpugnável prevenção dela. Uma contração foi bastante: o olho que tanto olhava redundou em fecundá-la e a vida em nano-segundos já palpitava no ventre dela.
Então os olhos cerraram e o coração em celibato se rompera. O pai já não urdia o filho nem o óvulo o macinava. Tanto os olhos plasmaram o desejo nela que o mais forte deles pôde, a despeito de tudo quanto sabemos da vida, engravidá-la apenas com a retina…
Titulo: Gravidez
Autor: Marco Giannelli
Gênero: Conto
Data de publicação: 17 de fevereiro de 2003
Resumo: Conto escrito em prosa com uma deslavada cara de poesia.
Bad Behavior has blocked 21 access attempts in the last 7 days.