Conto por Alexandre Piccolo
6 de abril de 2004
Um homem tinha um texto para escrever. A entrega inadiável, data e hora marcadas, torturava-lhe de antemão devaneio e preparo do dito-cujo. Devaneio justo porém ardiloso, o tema livre do texto não ajudava. Ao contrário, pensava em coisas demais e, por fim, em coisa nenhuma e texto nenhum saía. Melhor seria se lhe dissessem: escreve sobre a guerra entre judeus e palestinos, ou sobre o superávit primário, ou sobre o chulé como danação divina ? como lera num texto em sala de aula ?, sobre qualquer coisa (bem, sobre qualquer coisa não, era importante definir um tema), sobre algo definido, determinado e delimitado. Aí escreveria sem problemas, pensaria bem no problema (ou em vários), nos argumentos, contra-argumentos, conclusão, em tudo. Mas não, tinha apenas que escrever e entregar. Pronto. Data marcada, hora marcada, eis a questão e o martírio. Devaneios… O preparo com isso também sofria, se adiava até a decisão final. Certa vez deparou-se com a gênese da incerteza: não escrevo porque não me preparo ou não me preparo porque não escrevo e, na busca do ovo e da galinha, se esqueceu de almoçar.
Há dias topava com o invisível. Ele estava ali, lhe importunando quando deitado ou lhe sussurando sorrateiramente quando caminhando à sombra rumo à padaria: escrever o que, sobre o que? Lembrava gêneros, estilos, escritores, exemplos, trechos e nada o preenchia, vinham-lhe frases soltas, lhe soavam idéias homéricas, metáforas caiam-lhe como uma luva, mas tudo, que nem sólido era, se desfazia no ar. Antes fumasse novamente um cigarro e veria na velha fumaça um luminoso fio para se guiar. Escuridão total. E às onze e meia da noite, a luz não voltaria tão cedo, melhor dormir e tentar sonhar a quimera da cópula dos textos.
Não sonhou nada. Ao menos nada digno de ser recordado, não lembrava. Mas lembrou-se do texto a entregar, faltavam agora apenas algumas horas, fatídicas e finais. E nada lhe vinha à cabeça para escrever e “concretizar meia dúzia de palavras”, se enfurecia consigo. Melhor esfriá-la no chuveiro, pensou. E como sempre, n?água que lhe refresca corpo e alma se foram idéias estupendas ralo abaixo. Se pudesse pegá-las, recolhê-las de volta, até filtrá-las depois, teria romances, novelas, teses, ensaios e outros escritos de todos os tipos e para todos os gostos. Mas no ralo só paravam cabelos, já longos e ressequidos. Ao se enxugar, concluiu: era preciso parar, pensar e agir.
Sentou-se ao computador e mais uma vez enganou-se. Distraiu-se aqui, acolá, matou o tempo sem perceber que este o matava. Desistiu de escrever por enquanto e adiou para minutos antes da entrega o “pesado pesadelo”, bonita expressão que leu por último antes de desligar a máquina. Passou no antigo trabalho, reviu velhos rostos e renovou papos antigos. Foi à universidade e almoçou sozinho na multidão. Ainda sonolento, caminhou sob o sol forte para se isolar com os amigos livros, os quais basta fechá-los quando nos importunam ? disse um professor dias atrás numa aula sobre Shakespeare, relembrando Harold Bloom. E nos livros se esqueceu, classificou relações de coesão e coerência, cantou versos da Ilíada, passeou com um crítico e Apuleio na Roma Antiga, voltou às anáforas, às catáforas e outros “nove fora” que literalmente queria jogar pela janela e encerrou as leituras com textos curtos de Drummond e Leminski. Tudo inspirador, mas aturdido diante de tanto, não conseguiu se decidir se falaria do ontem ou do hoje ? e as regras que intuíra do bom texto lhe atentavam para o “perigo” destes elementos que perdem o referente quando fixados, safados. Uma verdadeira loucura sem fim no papel…
Assistiu aulas, com boas piadas e risadas que, ao invés de lhe distraírem, relembravam-lhe o problema: faltavam poucas horas para a entrega do diabo do texto. Já já minutos. E nada estava pronto, sequer pensado, delineado, planejado. Seria um Deus nos acuda. Na aula, com o poema na lousa, pensou recriá-lo às avessas: “receita do anti-herói”. Contaria com quantas palavras se faz uma canoa. Mas se concluiu fracassado, o professor outorgara: escrever era fácil, bastava bem ordenar idéias em “bloquinhos”, com cuidado, “jeito”, um certo esmero ? e pronto, teria o texto. E não tinha nada, só um balde d?água fria, faltava-lhe experiência, mais idade, talvez aquela calma, paciência e paz de espírito que têm os mais velhos e não esta sofreguidão desenfreada que agora lhe aturdia o peito e lhe incendiava a vontade.
Voltou já tarde para casa, sem idéia, sem rabisco e sem texto. Não mais que cinqüenta minutos restavam. No rádio do carro ouviu os Beatles pedindo-lhe ajuda: Help! Mas sou eu quem preciso de ajuda, “que precisa…, nem sei ao certo, qual certo?!”, me ajudem! ? era óbvio demais pedir e reafirmar. Tamanha ironia. Abriu a porta de casa já suado e nervoso. Sentou e escreveu qualquer coisa, nem Beatles nem ninguém a lhe ajudar. Só o silêncio opinava. E lhe confirmava o fracasso. Entregou qualquer coisa mesmo, segundos antes da data e da hora inadiáveis da entrega. Foi comer e depois dormir, entregue.
Titulo: Help!
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Conto
Data de publicação: 6 de abril de 2004
Resumo: Help! I need somebody. Help! Not just anybody…
Parece que já senti-e-ouvi essa história antes. :^) São uma daquelas ansiedades… Grande texto!
Nota sem esse golpe de mestre….hehehehheEspertão! Parabéns!!
Boa! O drama de escrever com data marcada não deixa de ser um belo aprendizado - nem que for para aprender a gritar:
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Oi Alê, nada como o velho hábito de Beatles para nos salvar, ou nos pedir socorro…Bjs, Marilda