Hom e o mensageiro

Conto por Gustavo Di Risio Araújo
30 de março de 2003

O pequeno Hom sabia do perigo que havia por trás daquela janela, ou pelo menos imaginava. Seu pai, como era o exemplo da sabedoria e da prudência, alertara-lhe o perigo que ali havia, a única janela da casa que não poderia ser aberta. Cresceu tranqüilo em sua casa espaçosa e bem provida de conforto, onde não lhe faltaram a atenção e a segurança. A companhia de seus irmãos completava-o como criança e a vida em sua casa era perfeita. Pelo acesso e liberdade que tinha em sua casa, não entendia a proibição de seu pai quanto à sua iniciativa de abrir a janela proibida, mas respeitava sua orientação. Estranha era a justificativa da proibição, com o argumento da separação, que Hom julgava fantasioso.

Para não traduzir aquele menino como o exemplo de filho, ou criança perfeita, pode-se dizer que a sua fraqueza era a sede de conhecer tudo o que havia na casa, sem conseguir admitir que se contentaria com o acesso que tinha a todas as outras coisas. Esta sua fraqueza tornou-se mais forte que o respeito pelo seu pai, chegando o dia em que decididamente a janela seria aberta. Mal sabia Hom que aquele café da manhã em comunhão com sua família seria a última refeição que faria em casa antes de seu desaparecimento.

O pequeno Hom fora lançado em uma selva que não imaginava existir do lado de fora daquela janela, lugar sombrio e cheio de armadilhas. No segundo seguinte quis voltar para o seu pai, para a sua casa confortável e segura, mas tinha muito a pagar pela teimosa sede de conhecimento. Seu pai não estava mais ali e a janela de volta não mais existia.

Confuso pelos acontecimentos, caminhou desolado e pensativo até encontrar algumas casas pequenas e bem menos favorecidas em uma clareira no meio da selva. Ali foi recebido pelo senhor Onum, um velho misterioso e imprevisível, que prontamente lhe mostrou o que se poderia ter em troca de trabalho em sua plantação. O pequeno aceitou o acolhimento e a oferta de trabalho, já que esta era a condição para ter a cama e a comida. Sentado no espaçoso sofá da sala de entrada, por mais emocionante que tenha sido a narrativa do menino, o senhor Onum achou a estória da casa imensa e da vida sem privações irreal, mas para não contrariar o novo empregado lançou-lhe um sorrido e retirou-se.

Hom agora trabalhava e não mais brincava. Tinha sua casa, sem qualquer comparação à casa que perdera, mas uma casa. Divertia-se às vezes com os entretenimentos da casa do senhor Onum. Seguiu no trabalho a cada longo dia, marcado pela dolorosa atividade na plantação, que lhe rendia feridas profundas e o amargo na boca que não conhecia até aqueles dias. Na luta diária por sobrevivência neste novo mundo da falsa e superficial alegria momentânea, não percebera o passar do tempo até receber, já adulto, um recado que lhe traria novamente a esperança de rever seu pai e sua paz. O recado curto dizia que, se Hom abrisse mão do que tinha, sua cama, sua comida e as diversões daquela casa e andasse em direção às águas encontraria o mensageiro Ristoc, o único que conhecia o caminho de volta e o levaria até a casa de seu pai. Agora Hom tinha a oportunidade de voltar e a esperança em algo bom, mas precisaria se livrar de seus vínculos com aquela rotina e rumar apenas com a fé ao encontro de Ristoc, seu único caminho de volta. Este era o preço.

Nas horas que se seguiram, Hom olhou para o que tinha e notou ser aquela a única chance de voltar para o seu pai. Este tinha sido o seu maior desejo desde que caíra na plantação do senhor Onum. “Você acha que será simples assim, Hom?”, perguntavam seus companheiros de trabalho, rindo de sua ingenuidade. “Não entre nesta, fique aqui, onde pelo menos temos nossa cama, nossa comida e diversão. Não é o melhor lugar, mas é o que temos”.

Só ele sabia que o desejo que brotava da profundeza do seu ser era de largar tudo e voltar a seu pai, por maior que fosse o risco. Só ele sabia o quanto valia a pena. Caminhou em direção às águas ao encontro do mensageiro Ristoc, com o coração aberto da criança que se perdia aos poucos em seu passado. Achou um jovem simples mas de semblante sereno, de fala objetiva ao mesmo tempo que preciosa e completa, em companhia de seus irmãos. Todos passaram pela janela e estavam alí em busca da volta para casa. Após comunicar a todos que poderiam voltar ao pai se o acompanhassem em um caminho longo, mas correto, o mensageiro tinha antes a missão de abrir o caminho para que eles passassem. Pediu que o aguardassem fiel e pacientemente, pois retornaria para levá-los após desimpedir o caminho que tinham a percorrer. Durante a espera, muitos não confiaram em seu retorno e voltaram à plantação, pois ali estava a sua certeza. Hom manteve-se fiel e chamava a outros da plantação para voltarem à casa do pai. Aos convites de novos trabalhos que recebia e de casas confortáveis na selva, Hom recusava com a convicção de que voltaria sim para a casa de seu pai. “Para mim você não precisa mais trabalhar” dizia o senhor Onum ao encontrar Hom sentado sob uma árvore, à beira das águas. “Você terá tudo do melhor em minha casa, basta esquecer o tal mensageiro Ristoc e voltar à nossa plantação”, dizia em falso tom de bondade o misterioso velho.

Assim seguiu o senhor Onum nos dias que se passaram, indo diariamente até as águas para mostrar a Hom como seria boa a vida na selva. Hom, sempre fiel ao seu pai na esperança de reparar seu erro e retomar a vida em sua casa, recusava a todas as propostas e passava por privações, dores e provocações dos outros grandes plantadores da selva. Mesmo na dificuldade, seguia enviando chamados aos outros para que viessem também e retomassem a sua vida junto ao pai, até que o senhor Onum não mais o avistou. O misterioso velho imediatamente voltou à plantação lamentando aos demais que Hom tenha sido teimoso a ponto de ser tragicamente levado pelas águas.

Os demais seguiam conformados em seu trabalho, aliviados por não terem sido “levados pelas águas” e estarem protegidos pelo senhor Onum. Hom, resgatado por Ristoc sem que o senhor Onum tivesse oportunidade de retê-lo, agora ao lado de seu pai desfrutava novamente da paz e conforto de sua casa, onde não mais existia a janela proibida. Esta era a certeza de Hom, a de não deixar novamente a casa de seu pai. Aos irmãos que optaram por ficar na falsa “segurança” do senhor Onum, Hom enviava diariamente os recados acerca de um mensageiro que seria enviado para buscá-los…


Titulo: Hom e o mensageiro

Autor: Gustavo Di Risio Araújo

Gênero: Conto

Data de publicação: 30 de março de 2003

Resumo:

A busca do caminho de volta para casa.

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2 Comentários

  1. Alexandre Piccolo disse:

    Sr. Francis Newton, veja maiores detalhes da “matriz cristã” apontada (q recebi pessoalmente do autor): - A janela proibida: Gn 3:3 - Abrindo a janela: Gn 3:5-7 - A promessa do mensageiro (Salvador): Salmos 57:3, Mt 21:5 - Deixar tudo para segui-lo: Mc 10:29-30 - A volta para casa com o mensageiro: 1Ts 4:15-18 Uma boa fonte para os interessados em maiores detalhes.

  2. Francis Newton disse:

    Curioso como o texto se constrói sobre uma etérea aura mitológica, num ambiente mítico indiscriminado, mas dentro de uma forte e clara matriz cristã. Curioso…

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Quem é Gustavo Di Risio Araújo?

Cristão, 26 anos, atua no conturbado mundo da tecnologia. Admirador dos bons pensamentos e da simplicidade, de uma boa leitura e das eternas amizades. Simples assim.

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