Conto por Paulo Henrique
2 de junho de 2004
Petrus era um cidadão comum, inconformado com a passividade do mundo. Morava só, em um apartamento apertado. Não tinha telefones, nem computador. Só ele, alguns livros e a reclusão da cidade grande.
Antínoo trabalhava como porteiro no prédio de Petrus, e estava de plantão aquela noite. Noite de futebol.
Petrus - como um típico cidadão - tinha a vida bem desorganizada. Passara o dia inteiro no trabalho, estava cansado. Após o jantar, deitou na sala e começou a ler Joyce (obviamente, não no original).
A pequena TV estava ligada. Nela, um popular time de futebol enfrentava seu adversário. O placar apontava dois a zero para o adversário.
"Logo, porém, sentiu-se envolver pela grave atmosfera e começou a responder aos estímulos devotos*", Joyce embaralhava, rodava e sumia. Caiu.
O time fez um gol, precisava ganhar. Faltavam dois. Preto e branco era a cor da caixinha que transmitia o embate. Antínoo estava tenso.
Joyce ficou no chão. Petrus, fraco, tentou levantar-se, em vão. Encostou a cabeça na almofada, ofegante, apenas ouvindo o barulho da mariposa espatifando-se na lâmpada. "Burra".
Antínoo não se conforma com o pênalti perdido, poderia estar empatado. Morte ao centro avante! "Cadê meu café?"
A mariposa ainda insistia na possibilidade de transpor-se na lâmpada e Petrus na de levantar-se. Conseguiu. Bambo, foi para o quarto. Um espelho refletiu sua palidez. "Zumbi". Algo teria que ser feito. Estava só.
"Café frio eu não quero.". Não tinha problema, no segundo tempo o time triunfaria. Esquadrão de heróis. "Não como aquela de 60…".
No armário, nas gavetas, geladeira, nada, não tinha remédio algum. Procurar era desnecessário, além das forças serem escassas, nada encontraria. Precisava manter-se vivo. Apenas. Amanhã estaria melhor. "Amanhã?"
Gol. O time tem que vencer. É vital. "Esse campeonato é nosso!". Antínoo exaltado e preocupado resume a uma TV preto e branco o seu mundo. "Viva o grande campeão!".
Calafrio. Ainda viceja. Até quando? Quer pedir ajuda, mas sua alma desmaiava lentamente, voltando em picos de consciência. Frio. Sentia o sangue correndo nas veias. Rio. Cérebro e coração ainda funcionam.
Falta para o adversário. Lance perigoso. Não foi gol.
De repente, uma conexão entre os dois mundos. "Trim, trim, trim". Era o interfone:
- Portaria, boa noite.
- Por favor, quem está falando é Petrus, morador do prédio. Você teria algum medicamento aí na portaria?
- Medicamento? - "Na trave!" - Não nenhum.
- Nada? Nem primeiros socorros?
- Não. Por que?
- Por nada. Obrigado.
Com o interfone no gancho, as saídas estão fechadas. O apartamento ficou menor ainda, fácil para a derradeira amiga, a morte, encontrá-lo. Resta deitar, amanhã estaria melhor. "Ou…". Álvares de Azevedo recitou de longe a "Lira dos vinte anos". Azevedo morrera com pouco mais que isto. É fatal, porém fato.
O segundo tempo estava no fim.
Deitou, seus olhos úmidos se fixam na janela iluminada pela claridade da rua. A cidade enorme lá fora. Os pensamentos aos poucos se misturam, indecifráveis, se esvaem…
"Gooool. Não acredito! Nos descontos! Viva!" O triunfo retumbante toma conta de toda a portaria, a noite está sorridente. Antínoo também.
Petrus fecha os olhos.
Findo o jogo e a euforia, Antínoo lembra-se de um morador. "Quem era mesmo? Ah, sim…". Que alegria. "Será que melhorou?". O porteiro interfona:
Trim, trim, trim
"Viva meu time!"
Trim, trim, trim
"Por que ninguém atende?"
Trim, trim, trim
"Agora, aquele cartão vermelho foi roubado…"
Trim, trim, trim,
"Caramba, será que ele 'tá bem?"
Trim, tr…
- Pois não?
- Petrus? 'Cê tá melhor?
- Sim… sim… já estava até dormindo…
- Que bom. Boa noite.
- Boa noite.
"Ah, que bom!" - suspira aliviado - "Este ano o título é nosso."
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Nota:
*Trecho extraído do conto “Graça”, de James Joyce
Titulo: Inversamente proporcional
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Conto
Data de publicação: 2 de junho de 2004
Resumo: Dois mundos e um interfone.
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esse infelizmente é o país em que vivemos, “será que meu time vai ser rebaixado”, onde tem mais valor um pedaço de couro que, “aquele 3º penalti do Brasil foi roubado”. (tenho que rever minhas atitudes/conceitos)