Conto por Eduardo Socha
17 de abril de 2003
Eu brincava com a fumaça do cigarro; subia espiralada, em trajetos musicais de silêncio, tônicas e subdominantes perfazendo o ciclo das quartas para depois se dissipar, na quietude da sala, com breve pianissimo. Era sublime a música daquele fumo. E tudo vinha do meu ar contaminado, da confissão discreta dos meus pulmões que já podres não sabiam o que dizer. O espetáculo continuava e eu nunca era o mesmo, pensei. Atrás daquela cortina do meu fumo, do outro lado da porta de vidro, na sacada, Amélia estava de pé e me olhava sem rosto, só lágrimas. Eu disse Amélia sai daí, porque eu sempre fui obrigado a dizer alguma coisa. Não ouviu ou fez que não ouviu. Que quer? Eu espreitava a figura de Amélia, agora irriquieta zanzando feito mariposa no lume. Nada. Foda-se, voltei pro meu espetáculo. Amélia se jogou da sacada e o prédio, 11 andares. Corri, e minha vertigem arrebentou ao ver lá embaixo seu corpo estatelado, chapado em nesgas de sangue. Com a correria em direção a sacada, a fumaça atrás de mim virou dissonância. Achei que não valia mais a pena esperar e também me joguei. A descida foi rápida e então estávamos os dois ali, mortos, duas massas inertes justapostas lado a lado. Pensei ainda estar vivo, mas o esforço inútil de piscar os olhos confirmou minha morte. Eu não respirava (de que me adiantava pulmão?), não sentia frio nem calor, mas raciocinava. Também podia ouvir os soluços de Amélia. Perguntei Amélia por que fez isso. Acho que respondeu não consigo mais. Porra Amélia, precisava se jogar? Ela murmurou, eu não suportava tua indiferença e tédio. Eu, e isso lá é motivo? Agora estamos os dois aqui nessa porra, nesse sei lá o que que é isso. Ela, eu sempre me senti presa, e esse era o único jeito de me libertar. Eu, pois é, viu que não resolveu? Estávamos para começar mais uma discussão existencial, como ela dizia. Ainda soluçava baixo, eu quis tocá-la, mas tudo em mim parecia ancorado. Escutei o grito do zelador quando viu nossos corpos. Falei Amélia, sejamos práticos, o que a gente faz agora. Ela não respondeu mais, o choro dela extinguia-se até finalmente secar em silêncio. Gritei Amélia, Amélia. O breu que até então fechava minha vista mudou de cor. Formou-se rapidamente uma espécie de caleidoscópio, e percebi que as cores alternavam-se na mesma cadência daquela harmonia musical espiralada, aquela harmonia da fumaça do meu cigarro! Uma súbita, inaudita rajada de gozo cortou meu espírito, um deleite intenso e ao mesmo tempo doce. Nada existia além daquele som cristalizado em cores multiformes. Ainda que devesse chorar, eu não verteria lágrimas. Desejei Amélia perto de mim. Depois não. Ela não aguentaria. Aí deixei fluir a torrente do júbilo desconhecido. Naquele momento, pela primeira vez, acho que eu fui o mesmo.
Titulo: Júbilo desconhecido
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Conto
Data de publicação: 17 de abril de 2003
Resumo: (esboço para um conto)
Um conto (esboço para um conto) para ser (re)lido e (re)vertido na reflexão de “mais uma discussão existencial”, da eterna vida passageira e entrecortada. A fusão de música, fumaça e palavreado é caleidoscópica, como uma “rajada de gozo (…), um deleite intenso e ao mesmo tempo doce” - primor de texto.
Bela experimentação temática e estrutural, gostei.
Excelente conto, Socha! A riqueza dos detalhes foi perfeita, fazendo o texto saltar da tela.. Parabéns!
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Impressionante!