Conto por Alexandre Piccolo
19 de abril de 2004

Engraçado, me lembro desta história de criança. As imagens da lembrança, ora coloridas, ora esfumaçadas, se fundem com palavras nobres, ora sábias, ora simplesmente repreensivas.
Olhava pela janela do meu quarto e via, através das grades, um quarteirão desolado, uma esquina de pedras, tijolos e areia, por onde transitavam todos durante todo o dia.
Dentre todos que ali passavam, percebi certo dia um rapaz estranho, algo diferente mas aparentemente igual a qualquer um. Estatura média, nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, absolutamente comum. Algo de imperceptível havia no jovem que, inexplicavelmente, o distiguia dos outros. Arriscaria um olhar bobo, talvez, um indefinido ar estúpido que se disfarçava num sorriso simpático, em olhos acolhedores.
Quando o vi, ele passou pela rua já de noite, em direção ao prostíbulo que há tempos suspeitava haver na esquina. Na escuridão dos postes não tive mais dúvidas. Uma mulher bem feita e insinuante saiu pelo portão da casa amarela, num curto vestido vermelho, e o abraçou em plena rua. Assustei-me. Inquieta e lasciva, se atirou aos braços que a retinham grudada ao coração do jovem. Subiu-lhe um nó da saia e por fim o beijou, emendando:
_ Meus pedidos foram atendidos, saí em tua busca e te achei. Entra, preparei-te já minha cama com colchas, travesseiros e perfumes. Embriaguemo-nos das delícias do amor até o amanhecer. Meu marido saiu a trabalho e não volta tão cedo.
Ela o seduziu com doces lábios, magia das palavras. Ele a seguiu lá pra dentro ? dizia a história, como “boi ao matadouro”, “ave para o laço” na tradução que li e reli mais tarde ? sem saber que isto custar-lhe-ia a vida ? e provavelmente alguns trocados, como descobri mais tarde.
E, mais curioso, me lembro ainda da lição final da história, talvez pela imagem tenebrosa que oferecem suas últimas palavras de exortação: “não desvies teu coração para os caminhos desta mulher, nem andes perdidos em suas veredas. Sua casa é caminho para a sepultura e desce para as câmaras da morte.”
Titulo: La femme étrangère
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Conto
Data de publicação: 19 de abril de 2004
Resumo: “Câmaras da morte” - curioso? Por quê?
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Alê, o que são as câmaras da morte diante do amor ou da paixão? Nada… É necessário viver… Bjs, Marilda