Conto por Leonardo Augusto
1 de outubro de 2005

Carol?
Como?
Edelweiss?
Ah, sim, quem é?
Sou eu, Eduardo.
Tudo bem?
Um preâmbulo banal. Ela:
Eu queria ir lá no jazz, mas os músicos estão de férias…
Ah, eu soube. Mas tem sempre o Bongiorno, música muito boa…
Não conheço.
A gente poderia ir lá hoje.
Hum… como assim?
Como assim ?como assim??
Você quer dizer todo mundo?
Eu não me incomodaria se fôssemos nós dois.
Ah, não sei. Eu sou meio complicada…
Complicada? Engraçado: vocês exigem cantadas criativas, mas as evasivas são sempre as mesmas!
(Risos) Não, é que eu não posso mesmo. E ainda mais, eu tenho saído todo dia…
Ótimo, parabéns! É assim que se vive.
Não, desculpa, Eduardo, eu gostei de conhecer você, mas não vai dar. Eu tenho namorado, quer dizer, nem sei, a gente briga, depois volta…
Nesse caso, se algo mudar até o fim do dia…
Pois é, é meio assim mesmo…
Incansável e determinado, ele persevera. Propõe a toda a turma o jazz do Bongiorno, para criar um fato consumado, inescapável para sua flor alpina. Lá chega ela com uma jaqueta escarlate, sua cascata d?ouro caindo livre sobre os ombros, os lábios pintados no tom da roupa, e a alvura etérea de seu rosto digno de um pintor renascentista, enfim, o bastante para enfeitiçar ainda mais nosso pobre enamorado.
Cerveja, cigarro, pizza, jazz, papo e mais do mesmo, ele investe:
Este é um presente para você. (passa-lhe um CD)
Puxa, que legal! Obrigada! Esta é sua letra? Você tem uma letra bonita!
E o nariz também.
É verdade.
E então, brigou com ele?
Eduardo…
Desculpe. Eu admiro muito sua integridade. Ou eu não sou uma tentação suficiente.
Eu já disse que gostei de você…
Isso é mais um novo golpe que um consolo. A mesma cantilena…
Estou sendo sincera.
Claro, perdoe minha ridícula auto-piedade.
Alguns instantes para dissipar o mal-estar e para que os amigos não sejam meros figurantes…
Leontopodium alpinum.
Como?
Seu nome, Leontopodium alpinum.
Ah, sim, Edelweiss em biologuês.
É uma flor de pétalas brancas e aveludadas, amarela no centro, que cresce nos Alpes. O nome vem do alemão ?edel?, nobre, e ?weiss?, branco.
Puxa, você andou pesquisando!
Isso só levou poucos minutos. Nada, comparado às horas que você me consumiu.
(Suspiro de enfado)
Consumiu no bom sentido; consumiu minhas vísceras, meu ser como um todo.
Não me venha com essa conversa piegas.
Piegas?
Eu quis dizer pomposa.
Não, eu não vim aqui nem pra beber, nem pra conversar.
Ah, não?
Embora isso seja parte importante do processo. Eu vim aqui para provar de seu néctar, qual abelha indiscreta e egoísta.
(Ela vira o rosto pro outro lado).
Pelo menos me deixe experimentar a maciez de sua tez de terciopelo…
E aqui ele manipula a doce compleição de sua heroína, com uma mão sedenta. Ela reage como se esperaria duma flor tão caprichosa. Ele espera inutilmente algum ?coup de théâtre? que reverta a sorte em seu favor. Mas esta é a vida real, e essa efêmera degustação tátil é com o quê nosso triste bufão terá de se contentar até um improvável terceiro ato.
Chega a pizza e cai a cortina.
Titulo: Leontopodium alpinum
Autor: Leonardo Augusto
Gênero: Conto
Data de publicação: 1 de outubro de 2005
Resumo: Segunda e derradeira parte.
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No Brasil, tudo acaba mesmo em pizza.
Isso é uma ver-go-nha.