Lula está diferente

Conto por Emerson Penha
14 de setembro de 2005

Conheci Lula pessoalmente na campanha de 89, em Belo Horizonte, na casa do compositor Fernando Brant. Eu tinha 18 anos, era aluno da Universidade Federal de Minas Gerais, naqueles tempos em que achávamos que mudaríamos rapidamente o mundo. Era uma reunião com lideranças estudantis, pintores, escritores, intelectuais, professores, cientistas. Impressionava a todos o modo com que Luiz Inácio tratava os problemas nacionais e as soluções que apresentava. Era bom ouvi-lo, carregado de esperança.

Num intervalo, saí da sala. No meio do jardim, um sujeito com um binóculo, sozinho, espiava a lua, em eclipse naquela noite. E disse-me: “olhe você também. É maravilhoso, a lua parece ao alcance da mão. Esta alavanca pequena é o ?zoom?, aproxima ainda mais.” Foi marcante, Lula parecia encantado, nada da rudeza da luta sindical ou dos embates partidários. Nunca fui petista, mas conversamos muito até de madrugada, eu e o Operário, e daquela vez ele me convenceu: carreguei bandeira, subi morro entregando panfletos, fiz reuniões com os amigos. Esse esforço de cada um, multiplicado por milhões, fez com que Lula quase se tornasse presidente.

Depois disso, já como profissional, tive oportunidade de entrevistá-lo muitas vezes, em tempos de campanha ou não. Vi de perto as eleições de 94 e 98, em que o PT amargou derrotas sem sequer ter a chance de um segundo turno, mas ? até prova em contrário ? foram eleições limpas, ao modo petista, com diálogo e esforço da militância.

Em 2002, o Lula que se apresentou era um outro sujeito. É natural que, ao longo dos anos, tenha mudado. Mas foi de se estranhar ver nele a personalidade remoldada por marqueteiros, o sindicalista severo era agora afável em público, abraçava antigos adversários, gente que o perseguiu, inclusive. Cercava-se de intelectuais, políticos e técnicos. Parecia mesmo que seriam colocados em prática planos geniais que levariam definitivamente o país para o melhor dos mundos. Foi assim que Lula foi aceito pelo eleitorado mais tradicional.

Recentemente, Lula esteve em Cuiabá, onde moro hoje, numa solenidade. E não parecia nem o sindicalista que conhecemos no passado, nem o novo Lula, redesenhado. Parecia distante, derretia sob o calor de 39 graus. Falou sobre as realizações de seu governo, mas as palavras soaram vazias. O lamaçal descoberto pela Nação há cem dias jogou por terra nossas esperanças de que tínhamos um governo, por mais inerte que fosse, de gente decente. Lula parecia envergonhado, acuado pela crise. Em alguns rompantes, tentava mostrar a velha energia, como aquela que era esbanjada naquela noite de eclipse em Belo Horizonte, muitos anos atrás. Não passaram de lampejos essas tentativas. Em seu rosto, via-se a angústia do isolamento.

O projeto foi por terra, o governo ? nas palavras do Fernando Gabeira - é um cadáver insepulto que não sabemos se irá se decompor até as próximas eleições, o sonho acabou de vez. Como jornalista, saí decepcionado, foi a pior apresentação de Lula entre as dezenas que já vi: o presidente, para ser aplaudido, precisou de claque, de militantes profissionais presentes ao evento. Como brasileiro, voltei da cerimônia triste e constrangido. Como muitos, pergunto: até onde ele está envolvido no lamaçal da corrupção que ora se apresenta? Não sei. Alguém saberá? O fato é que Lula está diferente. Muito diferente.


Titulo: Lula está diferente

Autor: Emerson Penha

Gênero: Conto

Data de publicação: 14 de setembro de 2005

Resumo:

Relato da decepção de um brasileiro que conhecia (assim mesmo, nesse tempo verbal) Lula de perto.

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2 Comentários

  1. PH disse:

    Oi Emerson. Gostei da primeira parte do texto. Confesso que remonta uma esperança no Lula que, teimosamente, eu ainda insisto em tentar resgatá-la. A segunda parte do texto, não gostei. Não pelo seu estilo, é claro. Mas pelos tristes fatos que vc relata, que deixa desolados o autor, os leitores e até mesmo o protagonista do texto… Um abração procê e muitas alegrias e Cuiabá. Qdo eu for pra Rondônia, vou tentar fazer uma escala aí, pruma pinga!

  2. Alexandre Piccolo disse:

    Cadáver insepulto gera tragédia desde a Grécia antiga, vide Antígona, e ações ‘nefastas’ ainda continuarão a trazer suas conseqüências. Bem bacana o texto, Emerson, bem legal o depoimento. Muito mais quente aí em Cuiabá do que em BH? Um abraço.

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Quem é Emerson Penha?

O elemento é jornalista e professor, e acha que por isso sabe escrever. Arrogância sem limites. Coisa de mineiro.

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