Conto por Mário Neto
30 de abril de 2003
Como é chato viver aqui. Muito chato. Por que a vida tem que ser tão monótona desse jeito? Por que a vida tem que ser dessa forma tão sem sabor, que nem esse prato? Será que não podia ser diferente? Diferente mesmo! Será que não podia?
Será que alguém sabe do que estou falando? Mais emoção. Mais emoção, adrenalina, se é que me entendem. Viver com emoção, com aventura. Viver perigosamente. Viver como se uma banda de rock estivesse tocando a trilha sonora das minhas tardes, dos meus encontros. Sim, até estou vendo! Eu atravessando aquela avenida movimentada enquanto um rock'n'roll bem pesado dá o tom dos meus passos.
Sim, sim! E meus cabelos! Sim, ver meus cabelos voando, lentos, como numa câmera lenta, e meus olhos sérios acompanhando a garota que caminha distante. Sim, sim! E um óculos escuro, um sobretudo, um frio lascado. Sim, um inverno forte. Talvez uma gangue de terroristas me perseguindo. Sim, sim! Eu seria um oficial de alta patente! Ah, e o rock me acompanhando.
Afastem esse prato daqui! Odeio cheiro de ovo frito!
Sim, uma música bem pesada seria a trilha sonora perfeita da minha vida. Uma linda garota! Ah, uma linda garota. Espiã. Talvez uma russa. Sim, uma bela loira russa, espiã, que estaria me seguindo. Ah, ela ficaria perdida. Perdida. E o rock nos acompanhando.
Ela me perseguiria, e eu a despistaria. Sim, sim! Logo depois eu me encontraria com o presidente! Sim, o presidente! Um plano secreto, um plano confidencial! Eu seria o chefe de uma equipe de espiões, dessa equipe antiterrorista. A bela loira russa atrás de mim, seguindo cada um de meus passos. E eu, com o rock batendo forte a cada desvio.
Eu pegaria minha moto. Sim, um herói que se preze deve ter sempre uma moto à disposição.
Mas que maldito barulho é esse? Deixem-me almoçar em paz!
Sim, uma moto! Uma moto de rodas largas, super potente. E eu nela, com óculos escuros, os cabelos ao vento, uma jaqueta de couro preto, bem preto, cheirosa. Sim, o sobretudo era para o frio, mas não combina com moto. Numa moto uma jaqueta de couro preto é o que interessa. Eu estaria fugindo de alguém. Sim, fugindo! Sim, sim, fugindo da loira.
Espere, espere, não, da loira não. A espiã russa se apaixona por mim. Sim, ela se apaixona. Ela não suporta meu charme e se rende. Talvez fosse um plano dela. Sim, um plano! Um plano secreto russo. Sim, eu sou procurado pela Rússia. Sim, sim! A loira se apaixona por mim, sem querer, mas pode ter sido parte de um plano. Esses russos são mesmo espertos! Muito espertos! Mas eu não sou bobo, não sou bobo!
Não, não vou passar o sal! Mas que saco, será que posso ao menos almoçar em paz!
O presidente me pediu para impedir um ato terrorista. Sim, um ato terrorista! Não, ele disse que não terá qualquer relação com os árabes, mas com os russos. Sim, os russos vêm tramando um plano secreto de dominação comunista. Todos acham que são os árabes os atuais bandidos, mas não são, são os russos. Sempre foram os russos. São eles que continuam a construir um plano do mal para dominar nossa terra com o comunismo. Sim, sim! O comunismo não morreu, não morreu! Aqueles malditos vermelhos querem nos pegar, querem nos invadir!
Como odeio comida apimentada! Eu não havia dito que não gostava de pimenta!? Não conseguem nem produzir o prato do que jeito que a gente pede! Paísinho de merda! Restaurantezinho de merda! Mal sabem dos planos comunistas!
Sim, o presidente confessou que eu sou a última chance do mundo. Sim, sou o salvador. Serei o salvador, o herói. O presidente que me disse. O presidente sabe tudo, vocês entendem, não é?
A loira russa se apaixona por mim. Nós teremos um filho. Sim, um filho de espiões. E sim, a loira é de matar. De noite, juntos, somos impossíveis. Sim, sim! O quarto se enche de uma névoa, nossos corpos se entrelaçam, se unem! Sim, sim, a loira é vigorosa, vigorosa, uma loucura, movimentos perfeitos, curvas perfeitas, sim, sim, a loira é russa!
Espere, espere! A maldita loira russa ainda acredita no comunismo! Teremos um filho, sim, um filho, e esse filho será comunista! Meu Deus, terei um filho comunista! Sim, sim, ele irá lutar contra mim. Meu Deus, é Freud puro, meu filho lutando contra mim! Mas ele não terá uma moto, não, não terá, não terá a liberdade que eu tenho, sim, a liberdade, a justiça, a bela justiça que tenho. Ele nunca terá uma moto como a minha, nunca poderá comer nos restaurantes que eu como! Ele é comunista!
Estou com sede. Paísinho de merda, que não tem nem coisa que se preste a beber. A coca-cola daqui é uma merda! Tudo é uma merda!
Sim, uma moto! Meu filho comunista nunca terá uma moto como a minha! Nunca! Sim, a loira espiã volta para a Rússia. Sim, ela sofre, eu não! Eu sou forte! Sou forte! Ela vai embora e a trilha sonora que me acompanha é um rock bem pesado! Tome, loira! Viu como sou forte? Eu fico livre de você e a trilha sonora é um rock pesado! Yeah!
Dias depois eu descobriria qual era o plano terrorista. Sim, aqueles malditos comunistas! Ratos! Ratos! Toquem esses ratos daqui! Não se pode nem almoçar sem essa escória animal! Que pobreza de lugar! E essa temperatura! Essa temperatura! Porra de calor! Paísinho de merda! Isso é um inferno!
Sim, sim, o inferno! O rock acompanharia cada passo meu. A moto em velocidade em movimentadas rodovias. Um helicóptero me seguindo. Sim, um helicóptero me acompanhando! Estamos atrás da bomba que foi plantada. Sim, uma bomba. Uma bomba atômica. Uma bomba nuclear. Não, espere, uma bomba química. Bioquímica. Malditos russos, malditos comunistas, querem manchar nossa terra de vermelho! De vermelho!
Não consigo mais almoçar. Esse arroz está terrível! Terrível! Tirem esse ovo frito da minha frente! Onde estava? Sim, sim, a bomba. Temos que desarmar a bomba. Eu sou a única salvação. Sim, o presidente disse que eu sou a última salvação! Sim, o único que pode salvar todo o mundo! Sou eu, o único! Sou eu, o último! Se eu falhar, danou-se! Eu sabia. Vou salvar o mundo!
A bomba está plantada na embaixada russa. Sim, na embaixada russa! Que plano quase perfeito o deles! Sim, uma embaixada-bomba, como um homem-bomba! Sim, uma embaixada-bomba! Não podemos invadir o lugar, não podemos, é uma embaixada! Que plano! Esses russos, apesar de comunistas, são espertos! São espertos, mas não são páreos para meu poder. Sim, tenho poder, muito poder. Sou muito mais inteligente que todos! O presidente disse que eu sou a última esperança!
Esse seria o momento onde o rock seria mais pesado. Longos riffs de guitarra, longos solos, guitarras bases, a bateria enlouquecida. Eu deixaria minha moto num pulo e subiria num helicóptero. Sim, um helicóptero de uma estação de TV. Quem poderia imaginar, hein? Malditos russos, estúpidos russos! Sim, do helicóptero eu pularia dentro da embaixada. Ninguém me acertaria, não, sou rápido, tolos.
Saco minha pistola e mato um, dois, três, dezenas, centenas. Morram malditos! Comunistas de merda! Eu giro em câmera lenta, minha pistola é uma metralhadora. Acerto a testa de todos. Sim, a testa. Querem emoção? Eu acerto suas testas! Malditos!
Sim, sim, eu encontro a bomba. Não sei desarmar a bomba. Mas eu aprendo rápido. Sim, sou inteligente. Muito inteligente. Sim, estudei no MIT. Claro, no MIT. Sou um gênio! Um gênio! Vou salvar o mundo! Essa bomba é fichinha! Abram alas, corpos deprimentes de russos, quero ver a bomba. Vou desarmar essa tecnologia de merda de vocês! Sim, somos superiores em tudo! Sim, nosso presidente, nossa tecnologia, nosso mundo, estão vendo, estúpidos russos, estão vendo como somos melhores que vocês? Estão vendo? Somos superiores! Sofram! Sofram! Estou desarmando a bomba…
Mas que saco de mosquitinhos. Saiam mosquitinhos. Calor infernal! É isso que dá nascer em paísinho tropical! É isso que dá nascer e viver abaixo da linha do Equador e entre esses malditos trópicos! Odeio suar! Odeio mosquitinhos! Temperatura de terceiro mundo! Lá essa roupa que estou usando não os fazem suar como nós suamos. Até os russos, imagine, são superiores! Têm o frio. Calorzinho de merda!
Onde parei? Sim, sim, eu estava desarmando a bomba. Teria algumas dificuldades, eles são estúpidos mas têm lá alguma esperteza. Sim, eu desarmo a bomba. Onde está a loira? Onde está a loira?
Espere, espere, surge um russo através da porta. E atrás dele vem uma loira. É meu filho comunista. É meu filho, é a minha cara. Sim, como se fosse um "eu" comunista. E vem com a mãe. Maldita loira! Malditos russos! Calor infernal, alguém me empresta um lenço?
Meu filho comunista e eu, frente a frente. Ele vem primeiro, tenta um soco. Eu sou rápido, sou rápido, sou muito bem treinado. Ele me acerta um soco. Ele é meu filho e filho da russa quase perfeita, também é rápido. Meu Deus, ele é meu filho. Não posso matá-lo. Não posso. Mas ele é comunista. Corja de assassinos! Corja de malditos estraga prazeres! Querem estragar nosso mundo perfeito! Nosso mundo rico! Querem roubar a riqueza que nós construímos! Querem nos enfiar pela garganta o comunismo? Estúpidos! Não existe "eu" no comunismo, só "nós". Mas "nós" não existe! O que de fato existe é um monte de "eus"! Ratos!
Ratos, vou matar esses ratos! Piso mesmo! Chuto-os! Nunca mais almoço no mesmo lugar. Malditos ratos! Quem é que consegue comer um prato de arroz enquanto vê uns ratões desses. Paísinho de merda! Oitavo mundo!
Sim, sim, meu filho comunista sabe dar socos, chutes, pontapés, giros, cambalhotas. Pula pelas paredes! Pule, filho do comunismo vermelho, filho do socialismo utópico! Pule, filho maldito de Lênin e Stálin! Pule, leitor estúpido de Marx. Eu tenho uma metralhadora! Eu tenha a liberdade! Vou salvá-lo, filho! Vou salvá-lo! Não temas, vermelho, vou salvá-lo desses imundos!
Na verdade não preciso da metralhadora. Eu acerto um único soco em meu filho comunista e ele cai. A loira russa corre e o agarra. Eu os seguro em meus braços. Sim, sou afetuoso. Meu filho há de me entender. Eu o perdôo. Sim, sim, sou bom. Sim, represento o mundo cristão moderno, o mundo novo. O mundo do faça seu próprio caminho! Do seja o melhor! Sim, eu sou o melhor, desculpe meu filho! Não há lugar para mais de uma pessoa no topo, você entende, não é?
Sim, serei presidente. Meu filho e eu nos abraçamos. Ele chora. Morra comunismo maldito! O terrorismo vai acabar quando o comunismo morrer. Sim, o comunismo precisava morrer. Meu filho me abraça e isso simboliza o fim do comunismo. O fim dos vermelhos. Talvez ainda a China. Mas o terrorismo não mais existirá. Por trás dos árabes e dos chinas estão os russos, sempre os russos. Mas vou esmagá-los, e serei adorado por todos! Sim, sim, adorado!
Desliguem esses batuques! Desliguem esses malditos batuques! Paísinho de merda! Oitavo mundo! Música de oitavo mundo!
Sim, não haverá porque nos preocupar com os árabes, pois os russos foram dizimados. Sim, todos baterão palmas para esse novo mundo que surge. Sim, esse novo mundo. Sim, sim, cada um poderá traçar seu próprio caminho. Não é isso a liberdade? Cada um no seu próprio caminho. Cada um por si e Deus por todos. Sim, sim, nada nos impedirá. Sim, sejam poderosos, sejam duros, como eu. Sejam poderosos como eu, mas nunca tão poderosos quanto eu. Eu lhes trago a salvação, a salvação!
A loira russa se casa comigo. Sim, ela é russa, é linda, e agora está do nossa lado. O rock acompanha os meus passos. Sim, o rock pesado. Cambada de vermelhos, vocês têm o rock como o nosso?
Mesmo casado, haveria outras emoções. Não seria uma rotina, não! A russa me acompanharia para exterminar nossos opositores. Sim, exterminá-los. Para, assim, termos um mundo só nosso. Um mundo belo, lindo e gostoso como o nosso. Um mundo onde eu possa usar um óculos escuro, uma pistola amarrada ao tornozelo, uma jaqueta de couro preto e uma moto super potente.
E que, se possível, tenha um almoço que preste. Porra de almoço! Paísinho de merda! Até mais, malditos comunistas. Tenho que voltar ao meu trabalho. À mediocridade da minha vida sem emoção, sem adrenalina, tão monótona. Mas eu volto! Sim, sim, eu volto. Volto na minha moto para mais emoções! Sim, muito mais emoções!
Titulo: Lunchtime
Autor: Mário Neto
Gênero: Conto
Data de publicação: 30 de abril de 2003
Resumo: Como é chato viver aqui. Muito chato. Por que a vida tem que ser tão monótona desse jeito?
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Muito bom, dei boas risadas do rock pesado e dos comunistas… ;^)