Metades

Conto por Claudia Lins
19 de março de 2004

Metades

Consultório do doutor Matoso. Divãs separados, luz relaxante, aroma de florais. Afonso está nervoso. Marisa também não se sente à vontade. A terapia de casal foi idéia dela, mas agora já não sabe se valerá a pena.

O psicanalista pergunta quem se habilita iniciar a narrativa. Afonso sempre foi travado nessas horas. Procura o olhar de Marisa de modo impaciente.

Encontra a mulher propositalmente distraída. A curiosidade passeando pelo ambiente. Almofadas indianas, tapetes persas, livros, um painel com informes coloridos. Vem de lá a imagem que as retinas de Marisa capturam distraidamente. Uma foto flagrada pelo telescópio Hubble mostra os anéis de Saturno em inclinação máxima com relação à terra, 26º.

De repente deu-se conta de descobrir pela primeira vez a beleza dos tais anéis perdidos nos textos de ciências ou na voz de Rita Lee. “A melhor vista do pólo Sul do planeta só aparecerá de novo em 2032”, diz a legenda da foto.

- Onde estaremos em 2032? - pergunta uma Marisa com ar etéreo.

Afonso dá de ombros. Prefere desconsiderar ter pago uma consulta de R$ 300 para furar a fila de espera do conceituado psicanalista, para que a mulher decidisse filosofar sobre o futuro. Em 2032 estará com 65 anos.

Provavelmente tomando algum estimulante da moda, desses que garantem ereção em poucos minutos, e brigando com uma “barriguinha” já pré-existente. Nem saberia responder se ela estaria por lá, ainda a seu lado.

Não bastava viver a calmaria de dias previsíveis. Com Marisa a vida tinha sempre que pairar sob o inesperado. Educação liberal de pai que foi hippie. Ao contrário dele, filho de família tradicional do interior de São Paulo. Pai coronel do Exército, cheio de amantes, passagens por bordéis.

A família até achou que Afonso tinha vocação para seguir trajetória parecida. Comentários não faltavam sobre seus sucessivos casos amorosos. Todos condenados ao limbo de um passado cinzento até chegar Marisa, sua “Vênus Encantada”. Um achado na multidão da Vogue, depois de vários uísques e do vexame de assassinar Lulu Santos no “Karaokê”.

“Quando um certo alguém desperta o sentimento é melhor não resistir e se entregar…”

Ah, Marisa aos 24 anos, que mais tarde descobriria 26! Esfuziante naquele tubinho preto. A pele dourada do sol, herança do ‘top less’ domingueiro na praia do Grumari. Cabelos tão perfumados que teve vontade de aspirá-la inteira começando pela cabeça. E o sorriso dela, então? Irresistível. Dentes brancos, apesar do cigarro de Bali. O que acentuava um certo gosto de rebeldia na língua.

Olhando para a mulher inquieta que impusera a terapia como condição de sobrevivência da relação, buscava traços da jovem debochada que conhecera na boate do Leblon. Lábios escandalosamente rosados repetindo Marina Lima:”essa noite eu quero te ter, toda se ardendo só pra mim”…

- Foi revolução química a primeira vista!- era obrigada a admitir.- Afonso e aquele ombro largo, o furinho no queixo e a boca… Que boca era aquela, doutor?

Do ângulo em que estava, o terapeuta era capaz de perceber os dois numa ameaça de trégua, tocando-se apenas com o olhar. Atraídos como no mesmo instante em que perceberam-se destinados um ao outro. Encontro tão inesperado quanto aquela visão dos Anéis de Saturno a quebrar o gelo e a monotonia da mais grave crise conjugal dos últimos tempos. Praticamente um esbarrão na Marisa e no Afonso que há muito deixaram de ser.

E o terapeuta calado percebendo-os agora excitados diante da narrativa de um casamento cheio de boas histórias, mas que tornara-se morno, como o da maioria dos mortais. Com viagens e apetrechos eróticos a procura do virtual tempo que já não tinham, do mesmo modo que ainda não sabiam seria estar em 2032.

Um bipe avisou sobre o fim da consulta. Voltaram para casa conversando amenidades. No elevador viram-se tomados por um furor inexplicável. Amaram-se ali mesmo e mais tarde por repetidas vezes na mesma cama onde ultimamente apenas dormiam.

Fizeram as malas, viajaram para Europa, desistiram da terapia. Engravidaram. Tiveram trigêmeos. O sexo voltou a ser previsível.

Mesmo assim, permaneceram casados. Firmaram um pacto. Haja o que houver, se não enlouquecerem antes, vão estar juntos para uma nova aparição dos Anéis de Saturno.


Titulo: Metades

Autor: Claudia Lins

Gênero: Conto

Data de publicação: 19 de março de 2004

Resumo:

É sempre tempo de redescobrirmos uns aos outros…

1 Comentário

  1. Mário disse:

    Delícia de texto, no qual se cria um expectativa em torno do que vai se suceder com o casal no psicanalista. Lentamente se sai da sala para cair nas lembranças, de forma sutil e bem elaborada. O final dá um sabor e traz a discussão: um relacionamento só é bom se há emoção? A rotina destrói a “magia” do amor (ou paixão)? Gostei muito.

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Quem é Claudia Lins?

É jornalista, carioca alagoana, seduzida pelo cheiro do sargaço (alga que é a cara de Maceió), e pelo verde-azul dessas praias maravilhosas, por aqui descobrindo um mundo de possibilidades e desafios. Antes de todas as paixões, apenas uma: escrever, escrever e escrever.

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