Metrô

Conto por Mário Neto
12 de novembro de 2003

Ela entra no metrô; está lotado. Gente em pé, gente sentada. Gente olhando para o vazio. O lento balançar do trem ao deslizar em trilhos e túneis frios. Gente com remela e sono; a viagem é longa e as mãos penduradas no ar.

Não há espaço. Ela joga as mãos ao ar para pendurar-se junto aos demais. Ela pára em pé apenas porque os outros corpos também em pé a seguram. Cheiros: doces, azedos, cigarro, bebida, perfumes. Barulhos: o zunido do trem nos trilhos, o frisar do vento que entra por cima, a voz esquisita que canta a chegada nas estações, a tosse forçada do senhor com aspecto amarelado e roupa encardida.

Ela está de pé, equilibrando-se, e seus olhos também se perdem no vazio. Sua mente se esquece nas lembranças. Não importa o rumo que o trem toma. Faz quê diferença?

Em cada mente uma lembrança. Em cada rosto, um mistério. Seus corpos na cidade, presos como minhocas no subterrâneo; suas mentes soltas ? livres? ? pelo mundo.

As adolescentes pensam no galã da novela e em como deve ser doce seu beijo; o senhor de bigode vasto pensa no dinheiro do aluguel e em como conseguir mais dinheiro para pagar a farmácia; a senhora sentada, roupa limpinha, pensa em ver a filha e em como vai ficar feliz em revê-la; o jovem de terno, cabelinho cortado, pensa em terminar a faculdade e em como montar uma empresa só sua; os dois rapazes de cabelos vermelhos pensam na banda e em como poderão tocar uma música legal nas rádios; o rapazinho sentado, rabiscando frases num caderninho caprichoso, pensa na arte e em como seria bom ter seu livrinho de poesias editado. Todos absortos em pensamentos enquanto seus corpos se ocupam em mantê-los vivos.

O trem é obstáculo e passagem. Um duro caminho entre dois pontos. Seus corpos vagueiam com as pernas paradas e a cabeça ansiosa. Querem chegar logo ao destino.

O trem reduz sua velocidade. A voz canta mais outra estação que chega. Gente desce, gente sobe. Ela desce, pára e olha em volta. Qual é mesmo o seu destino?

Em seu peito vem a angústia. Escadarias, passagens, tubos, ruas, avenidas, pessoas, carros, ônibus, luzes, jornais, táxis, prédios. Músicas, cinemas, médicos, sirenes, bombas, tiros, shoppings, teatros, cartazes, gritos, assovios, letreiros. Saltos, sonhos, sombras. Morte, riso, fúria, desejo, angústia, prazer, amor, sexo. Qual era mesmo seu destino?

Na dúvida, ela retorna ao trem. Este mergulha novamente pelos túneis, deslizando melancolias de uma cidade que acorda. Lá, sentada, sente-se segura em sua solidão acompanhada. Prefere os caminhos trilhados à angústia de ter que criá-los ou escolhê-los.

Dissipa suas incertezas numa única idéia: não está só.

Mário de Souza Neto já se perdeu no metrô e confessa que tem aflição de não saber por onde está passando.


Titulo: Metrô

Autor: Mário Neto

Gênero: Conto

Data de publicação: 12 de novembro de 2003

Resumo:

Próxima estação…

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5 Comentários

  1. LEO (MÃOZÃO) disse:

    MUITO BOM, MOMOIDE!!!

  2. André Penha disse:

    Trilhou-me o seu texto. Terminá-lo e ter que escolher outro para ler me deixa angustiado. A vida é mais fácil quando o caminho vem traçado. O caminho tem mais vida quando é traçado por mim.

  3. Samira disse:

    Sua mente se esquece nas lembranças”. Simples e bonita tradução de devaneio…

  4. PH disse:

    linda reflexão, Mário. Conseguiu captar bem a intensidade da história e dos mistérios por trás de cada rosto em um metrô. Observação minuciosa e exra-sensorial, assaz urbana. Beleza!

  5. Alexandre Piccolo disse:

    Muito bacana, Mário. Gostei em especial deste trecho, “todos absortos em pensamentos enquanto seus corpos se ocupam em mantê-los vivos”, e da angústia, acentuada numa seqüência estonteante de “substantivos da cidade”. Muito legal, parabéns.

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Um (eterno) aprendiz.

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