Morte em dose dupla

Conto por Mário Neto
4 de dezembro de 2003

Último minuto

O peito enchia e se esvaziava.

Um assovio fino acompanhava o movimento. O ar ao redor era frio. Assim sentia pela pele e pela ponta do nariz. O rosto magro e pálido e os olhos fechados, perdidos.

O peito enchia e se esvaziava.

Ele sabia que, no fundo, bem lá no fundo, estava vazio e não havia o que esvaziar. Só o que ele queria era encher.

O peito se encheu pela última vez e ele se encheu de esperança. Depois esvaziou-se inteiro, esgotando-se pelo ar o pouco que havia de si.

Assim transcorreu seu último minuto.

***

Corpo que cai

Um cigarro se acende. Sobe a fumaça em contorções de dor. Dói a alma.

A fumaça entra, sai e sobe. Queima por dentro o corpo que sofre.

Na varanda o corpo se apóia perigosamente, desejando cair naquele momento vertiginoso.

O corpo sobe e gira e se contorce com a alma agitada e leva consigo a fumaça.

Ao chão, divide o espaço das pessoas que pisam e passam deixando seus vestígios.

Mário de Souza Neto não fuma, não bebe, adora praticar esportes mas continua fora de forma.


Titulo: Morte em dose dupla

Autor: Mário Neto

Gênero: Conto

Data de publicação: 4 de dezembro de 2003

Resumo:

A morte em dois (velhos) curtas.

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2 Comentários

  1. Herbie disse:

    Cara, pesados…e ótimos! Valeu!

  2. PH disse:

    Dois contos (ou seriam reflexões?) sinistras acerca da morte, elaborados por um vivíssimo escritor…

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Quem é Mário Neto?

Um (eterno) aprendiz.

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