Movimentos sob o temporal

Conto por Paulo Henrique
17 de novembro de 2003

Chão

Era avenida mais importante e rica da grande cidade. Como sempre movimentada, independente do tempo e da ocasião. Todas as pessoas se misturam, tornando a tal avenida uma veia onde organismos circulam sistematicamente, de um lado para o outro.

Entre estes organismos, estão crianças, velhos, moças e rapazes. Alguns correm para se proteger da chuva, prestes a cair. Outros apenas riem, sem se preocupar com o futuro próximo, andando calmamente, com pacotes nos braços e crianças no chão. Alguns cigarros acesos compõem a cena, tornando-a prazerosamente urbana e poluída.

Quase não se vê diferenças entre os corpos. Os ricos e os pobres assumem um estilo comum, como se cada qual quisesse copiar o outro. Os velhos e os jovens se confundem entre as cores do moderno e do antigo, tornando impossível diferencia-lo. Cabelos e penteados. Peles furadas e enrugadas. Ternos e trapos. É a efetiva composição da cena real.

Céu

O helicóptero que sobrevoa os gigantescos ícones luminosos está assaz alto para perceber se há riso ou lágrimas no rosto de quem o observa. Talvez veja apenas a face de heróis e heroínas estampadas em prédios e placas, em prol da venda de sonhos.

Sonhos estes que movimentam esta jugular da grande cidade. Mesmo sendo efêmeros eles alimentam este grande organismo. O grande organismo que está prestes a parar. Pelo menos, por um instante. Pelo menos até o chuva desabar, tornando ainda mais uniforme toda os corpos, veículos, placas e sonhos. Isso é bom. Faz lembrar que acima dos prédios, existe o céu para nos mandar o temporal. E o temporal nos torna incondicionalmente irmãos, ao cair sobre tudo e sobre todos, independente do sorrisos e lágrimas que o helicóptero, já protegido em seu hangar, não pôde notar.


Titulo: Movimentos sob o temporal

Autor: Paulo Henrique

Gênero: Conto

Data de publicação: 17 de novembro de 2003

Resumo:

Somos todos iguais sob a chuva

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4 Comentários

  1. Alexandre Piccolo disse:

    Bacana o distanciamento e a aproximação dos contrastes, do Chão ao Céu, em seus detalhes sutis. Gostei da cena “prazerosamente urbana e poluída”.

  2. Ronnie disse:

    Se um dia eu pudesse ver, meu passado inteiro e fizesse parar de chuver, nos primeiros erros… mas só chove, chove… chove… ôoooooô…” (Capital Inicial). Lembrei dessa música ao ler o seu conto QUE ESTÁ MUITO BEM ESCRITO, BEM ELABORADO, BEM VERDADEIROEXCELENTE MESMO!!! NÃO TEM PRA NINGUÉM… Se continuar escrevendo assim, não me surpreenderei quando estiver na livraria SUBMARINO e encontrar um livro de sua autoria… Cara fazia um tempinho que não acessava a patada… esta correria da cidade grande que nos suga e nos seca, mas que quando chove nos faz sonhar… Enfim o tempo curto me impede as vezes de fazer muitas coisas que gosto e ler os contos daqui e em especial o seu, do Alexandre e Tiago que não os conheço mas também cativa o leitor. Enfim… falei muito já. Parabéns… mande um grande abraço na Marcia…

  3. Mário disse:

    Lírico, PH. Se falar mais, estraga.

  4. martim vasques disse:

    E dá-lhe Magnólia!

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Quem é Paulo Henrique?

Cristão, mineiro, 25 anos e jornalista.

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