Conto por Alexandre Piccolo
31 de março de 2003

Meu avô tem um amigo chamado Borges. Não é o Borges que muitos pensam, o escritor. O Borges, amigo do meu avô, também era escritor, mas é outro. Desse Borges todos gostavam, muitos admiravam sua sabedoria e cultura (diziam que ele já viajara o mundo e era poliglota), outros elogiavam seu jeito bonachão, sério e ao mesmo tempo alegre, com bochechas levemente cheias e caídas, um senhor sisudo de sorriso amável. Os que não o conheciam pessoalmente, certamente já lhes ouviram falar do Borges, no mínimo de uma de suas muitas virtudes - um homem além de seu tempo, como dizia meu avô, alto, de dedos compridos, pulso forte, porte imponente. Curioso as diferenças…
O Borges tinha uma casa fantástica. Logo no portão se percebia a suntuosidade, elegância e modernidade de um homem cosmopolita, sempre por dentro das novidades do mundo e sem perder os eternos valores do passado. A casa do Borges era maravilhosa, tinha tapetes e perfumes do Oriente, colunas que pareciam gregas ou romanas, quadros e estátuas medievais e centenas de outros artefatos raros. A casa vivia cheia, empregados em todos os cantos falando as mais diferentes línguas, músicos e atores zanzando pelos corredores, um amontoado de gente pra lá e pra cá servindo e entretendo centenas de amigos e conhecidos do Borges, todos perambulando pela mansão que mais parecia um palacete.
Os visitantes falavam que o lugar mais misterioso da casa era o escritório do Borges. Mas ninguém nunca havia entrado ali, meu avô dizia. Suspeito que nem mesmo ele. O lugar, que parecia pequeno, era enorme, impossível precisar o tamanho dum comôdo que diziam ser como uma casa. Tinha banheiro, cozinha, ante-sala, closet, corredor e até um quarto, tudo dentro do próprio escritório, com paredes móveis de livros e mais livros empilhados. Falavam que na estante preferida de livros do Borges havia de tudo: livros de história, livros de literatura, contos de fada e livros de poesia, todos os livros em geral. Mas dos que mais se comentava eram os livros de magia, cujas páginas eram todas iguais, as letras é que trocavam de lugar para escrever os escritos mágicos da página - diziam que quem pronunciava algum feitiço ficava mudo por dias e dias, dependendo do encanto de tantas letras.
No escritório tinha um gato que conversava com o Borges, contava meu avô. Um gato diferente, com um olho verde e outro azul, malhado de preto e branco. Alguns diziam que as manchas nunca eram as mesmas, mudavam de um dia para o outro, sempre à meia-noite. Falam que o gato, na verdade, era um velho jardineiro da casa, que há muito tempo deixara cair e quebrara um vidrinho precioso da estante do escritório. O Borges ficou com tanta raiva que transformou o pobre homem no gato pra ele ter que agüentar as setes vidas do bichano. Meu avô conta que nesse vidrinho o Borges guardava uma menininha, muito, mas muito pequena, do tamanho de uma joaninha, que ele conseguiu roubar de dois sujeitos que viviam se engalfinhando pela pequenina, uma história antiga, não sei bem direito. Mas que ele ficou fulo!, ah, isso ficou. Dizem que a tal menininha escapou e ainda ajudou um casal a fugir, um homem e uma mulher que viviam presos num quadro, uma pintura que um velho amigo do Borges fez há muito tempo. Corre uma história que eles foram enfeitiçados e congelados na tela, que mudava de quando em quando de acordo com o destino do casal, mas, depois que fugiram, ficou só uma casinha no fundo e uma paisagem vazia…
Contam que o Borges está até hoje procurando os três dentro do escritório no meio daquele amontoado de livros, mas aí vai saber… E isso pra mim é o mais curioso, o Borges nunca estava em casa, só aquela gente toda, andando pra lá e pra cá. Mas isso não importa. Que a casa do Borges era fantástica, ah, isso era.
Titulo: Na casa do Borges…
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Conto
Data de publicação: 31 de março de 2003
Resumo: fantasia de quem não se cansa de procurar
Curioso trabalho com variadas espécimes literárias, da realidade ao fantástico, do desconhecido ao familiar. Exercício lingüístico perspicaz, bom resultado.
Um texto que possui tudo o que torna um texto bom: fluidez, intriga e uma sublime carga de despretensiosa volúpia! Adorei o texto!
Adorei conhecer a casa do Borges. O texto é tão envolvente que consegui passear pelo escritório, trocar idéia com alguns artistas que estavam por lá e até fazer um carinho no gato malhado! rsParabéns!
Ótimo texto!! Belas imagens! Belo cenário! Belos personagens! O casal preso no quadro me lembrou da menina presa num quadro em “Convenção das bruxas” que me impressionou muito na infância! E continua impressionando…
Gostei mujito e acho que a idéia em si poderia ser explorarda mais, virar um conto só sobre a coisa das pessoas serem aprisionadas em objetos.. a imagem das manchas do gato mudarem de lugar é siomplesmente genial!
Oi Alê,Nada como falar das coisas conhecidas, das coisas da vida, das “nossas” coisas. Vc não imagina o que este conto representou p/ mim, por isso uso as palavras de D. H. Lawrence p/ me exprimir: “Falemos de quietudes que conhecemos, das que podemos conhecer, de profundas e ternas quietudes num coração forte e em paz!”, ou, no original: “O let us talk of quiet that we know, that we can know, the deep and lovely quiet of a strong heart at peace!”Beijos,Tia Marilda
Fantástico conto…me fez viajar! Parabéns!
Muito bom este conto. Fantástico.
Adoro estórias fantásticas!
Oi Alexandre, acabei de entrar no site e me deparei com este conto… Fiquei, bom acho que não consigo escrever minha sensação agora, mas achei simplesmente fantástico! Vou ler mais…
Boa Piccolo. Gostei muito desse continho simples, do fantástico da casa do Borges, que me lembrou muito aquele, o argentino. :-p
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Olá Pico!!Realmente: esse texto é fantástico!!! Como o comentário de Bel: viajei pelo escritório..amei conhecer a casa de Borges…Parabéns sempre…