Conto por Alexandre Piccolo
19 de setembro de 2003

Um poeta certa vez disse que tudo no mundo existe para culminar num livro. Sancha certamente discordaria, mesmo sendo quase uma típica personagem de romances e novelas como que construídos para ela. Houve quem a apelidasse de sem graça, menor ou insossa diante de outros grandes nomes. Discutível, mas uma coisa Sancha não era: personagem simples de um livro. Porém deixemos de literatura e meias palavras e vamos a Sancha.
Fabiano foi quem mais amou e odiou essa morena. Foxy, assim ele a definiu, desde que se conheceram e começaram a sair juntos. A admiração por Jimi Hendrix ia além da homenagem com os versos carinhosos da guitarra ácida. Ele, por mistura de rock e paixão, recitava à namoradinha trechos de que tanto gostava, cuja essência parecia esconder um mistério maior da alma de Sancha, que não cabia no frenesi elétrico daquelas distorções. Era como se música e palavra não suportassem a metáfora que tão bem a contornava. Para completar, ele às vezes repetia: you know you're cute little heart breaker - e ela sorria, toda matreira. You know you're sweet little love maker - e o olhar de cigana faceira o embebia. E beberam todas juntos. Ele a desejou para si, correu lhe atrás e a levou para além casa, prometeu-lhe não fazer mal algum - como diz a música que elegeram para ambos, mais por gosto dele. Afinal, os versos reforçavam o que ele cantava: you've got to be all mine, all mine. Mas destino, às vezes, interrompe uma canção ao meio.
Aqueles olhos castanhos, amendoados e profundos não enganavam ninguém, nem mesmo Fabiano. O que ninguém sabia era se ele realmente se fazia ou não de bobo, se ele conhecia o mistério e o perigo da mulher com quem se envolvia. Ele sabe o que canta, uns diziam. A tez morena, lisa, encantava à distância. De perto, o corpo alto e esguio fascinava. As belas curvas se insinuavam com o perfume dos longos cabelos castanhos. Uma pintinha no canto direito dos lábios insinuava ternura e um jeitinho meigo-mágico de criança. O piercing na língua, raramente percebido, era o selo da perdição. Se conheceram nesta revoada de olhares cruzados e certeiros. Não houve primeira palavra, pois palavra ali não cabia. Houve amor que logo se fundiu, se misturou e se transformou.
Começaram bem. Viam-se com freqüência, um saciando a vontade do outro de desejar. Além mais, desejavam de tudo: passeios de bicicletas, acampamentos, praias, piqueniques e todas os simples acasos arranjados para serem felizes. Até missa assistiram juntos, e quase a profanaram, se lhes realizassem os pensamentos das mãos que tanto se apertavam. Em tudo, o tempo se compartilhou. Dias e meses duraram o que os segundos de sorrisos e prazeres não continham. Mas com o tempo, a devoção se afastou, como crianças correndo desavisadas para dentro do bosque, até que o Sol se ponha e a aventura se torne medo e calafrio, perdidos numa verdadeira floresta escura.
Às vezes Fabiano, mesmo depois de meses com sua musa encantadora, ainda se flagrava incrédulo por estar com Sancha. Mirava-lhe o balançar dos cabelos e pensava bobagem; o reluzente sorriso feiticeiro, e tudo se escurecia em conjecturas fantasiosas, puro delírio ciumento. Em algumas situações, por pouco não espumou de tanto se conter de ciúmes. Coisa de escorpiniano, ela dizia. Ele, possessivo, charmoso, explosivo. Sancha, leve e delicada, pé no chão e olhar fugidio, despretensioso, quiçá fingido. Elegante salto alto. Mistura desconcertante de donzela sapeca e cavaleiro imperioso, sincero, ora ingênuo, ora furioso, por vezes destemido. Contam que, certa vez, numa noite quente de fins de outono, ele se levantou da mesa do bar num impulso repentino e começou a arrastá-la para fora pelos cabelos. Sancha se debatia e gritava, fingindo-se inocente e incompreendida. Ele, com a raiva da suspeita incontida, preferiu não criar confusão, mesmo tendo xingado de longe o sujeito loiro e alto, suposto provocador, bem acompanhado, que sentava três ou quatro mesas à frente. Um arrumar o cabelo bastou o copo de cerveja entornado e as segundas intenções. Fora uma primeira das inúmeras outras cenas que aprontaram em bares, festas e outras reuniões entre amigos. Estes diziam que tudo se apaziguava, mal chegavam em casa.
Por acaso ou coincidência, a confusão sempre se dava com outros casais, nunca com rapazes solteiros ou galanteadores furtivos. Fabiano nunca soube ao certo por quê. Até uma comum terça-feira, em finais de setembro. Andavam meio brigados, não se viam já há dias. Fabiano ouviu rumores, como os boatos que sempre rondaram, que Sancha o traía. Correu furioso e decidido à casa de Sancha e a encontrou na cama com Marcela, ambas exasperadas de prazer. A cena, deliciosamente impagável, esquento-lhe por demais carne e alma. Foi implacável com ambas. Esfaqueou-as ao choro dum impulso de raiva e prazer. Horas depois, quando encontraram-no tristonho no canto do quarto, as mãos de sangue e ciúme, balbuciava baixinho uns versinhos quase incompreensíveis: Yes, I did, I shot her, you know I caught her messin' 'round, messin' 'round town. Na sombra de Sancha havia um Joe das músicas de Henrix, que ensurdeceu Fabiano para além música. Além das simples palavras dos livros e poemas vida.
Titulo: na sombra de Sancha
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Conto
Data de publicação: 19 de setembro de 2003
Resumo: Coisas que não cabem em letras de música, versos de poesia, palavras de qualquer narrativa.
Oi Alê, louca e triste, porém extremamente real sua história de Sancha, que nem sempre é tão louca como parece ser, mas uma mulher/menina assustada, transpassada pela espada da vida e pelo punhal do mundo. Parabéns, me comoveu. Um beijo, Marilda
Excelente, Alex! Prosa deliciosa, ambientação e caracterização de personagens precisas. Muito rock’n roll, “Helter Skelter” na medida certa. Muito bem escrito, trabalhado e finalizado. Sem tirar, nem pôr, leitura que prende. Perfeito.
Delírios de guitarra, um amor passional e sublime, um ciúme poderoso e um desejo louco. Tudo culminando num assassinato misturado em “raiva e prazer”. Ótimo!
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E x c l e n t e!A mistura Hendrix e Sancha (essa menina com cara de figura conhecida, ainda que com piercing na língua) foi uma ótima sacada. Mas esse Fabiano eu não dei conta de mapear…Quem seria o escorpiano?