Nana Nenê

Conto por Tiago Russel
28 de fevereiro de 2003

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Ilustração: Chester

Olhos ardidos e vermelhos, como Tabasco, denunciam o seu estado. “Catastrófico”. Lembra de sua avó rangendo os dentes enquanto comentava, com ódio no olhar, a maneira como ele se apresentou no debute de sua irmã. Não devia ter ido. Não se fazia parte daquela família. Teria que inventar falas, fingir interesse, não chamar a atenção. Impossível, com aquele carrão vermelho importado. Vermelho-bagaceiro. Cores fortes, cheiros fortes, nenhuma combinação, o kitsch e o barulhento ao mesmo tempo. Aquelas pessoas em que esbarrava nas poucas horas de sol caminhando pelo centro da cidade velha eram assim. Engraçado como tudo tinha mudado tanto nos últimos anos. Os prédios apareciam, reluziam, empalideciam, viravam paisagem. Adorava as da fazenda. Tinham um tom pôr-do-sol-vermelho-crepúsculo, como o da capa do livro da série aquela… vaga-lume? Sei Lá o Quê Escaravelho do Diabo. O Segredo do Escaravelho do Diabo? Ou seria O Mistério… tinha O Rapto do Garoto de Ouro, este ele lembrava bem. Mas não lembrava da história. História confusa. Vida confusa. Dia agitado. Mesmo antes de usar, e abusar. Como daquela menina, olhando de relance por cima do ombro enquanto mordia os lábios e apertava os lençóis. Suor, pele e perfume se confundiam com a meia-luz que vazava da rua. Parecia poder sentir o cheiro. A voz dela arfando incompreensões, num ronrom ritmado e cativante. O som passa satisfação, mesmo enquanto a língua áspera limpa os pêlos. Gatos são misteriosos. Ninguém sabe de onde vem o som. Da garganta, do peito, da boca? Não pode esquecer de comprar a ração amanhã. Vai ter que acordar mais cedo. Mais do que de costume. E não consegue dormir. Não quer abrir os olhos. Não quer saber que horas são. Não quer espantar o sono que está ali, que está vindo. Não quer apelar para o tarja preta em cima do bidê. Bidê ou Balde… não gosta deles. Precisa parar o cérebro. Não pensar em nada. Apertar o mute. Desligou a TV? Não interessa. Foco. Tentar não se deixar pensar! Dizer não à consciência! A maçã da madrasta faz isso… O calor não facilita em nada seus objetivos. Um carneirinho, dois carneirinhos, três carneirinhos. Uma ovelha cara-negra se recusa a pular a cerca. Ele nunca pulou a cerca. Se orgulhava da fidelidade. Da incapacidade de trair quem ama. Quem ama? Ahhhh! Não este assunto mais uma vez…

O sono está ali, ele sabe. Até porque seus olhos estão cansados e ardidos. Provavelmente vermelhos. Como Tabasco.


Titulo: Nana Nenê

Autor: Tiago Russel

Gênero: Conto

Data de publicação: 28 de fevereiro de 2003

Resumo:

Os frames de um pensamento falam tão alto que não o deixam dormir.

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Quem é Tiago Russel?

Escrevo como válvula de escape. Antes que a vida me escape.

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