Negócio, paixão e arte

Conto por Paulo Henrique
21 de dezembro de 2003

Leme é uma cidade do interior paulista situada a oitenta quilômetros de Campinas, à beira da Rodovia Anhaguera, sentido Ribeirão Preto.

Esta cidade, fundada em 1867 tem hoje aproximadamente 90 mil habitantes, e sua principal atividade econômica é a cana de açúcar, prática comum desta região.

Esta cidade tem um único cinema: O Cine Alvorada. Até aí, nada de mais. Mas se considerarmos o tamanho do cinema ? capacidade para 1200 pessoas ? notamos que é no mínimo curioso que uma cidade desses moldes tenha um cinema enorme.

E antigo. Pois o cinema foi construído há 40 anos e até hoje funciona da mesma maneira ? sem nenhuma alteração ou reforma significativa, afora as adequações tecnológicas como som dolby stereo e cinema scope (wide screen).

E quem construiu e administra até hoje este cinema é o senhor Kamel Tauffic Nacif, descendente de libanês, nascido em Leme há 72 anos. Seu pai foi dono do primeiro cinema de Leme, o Cine Ideal.

E assim, o senhor Kamel deu continuidade a esse negócio, ampliando-o com o Cinema Marabá, outro antológico cinema lemense, e a a construção do Cine Alvorada, marco na história da cidade.

Para continuar a história que a família Tauffic Nacif tem com o cinema, o filho primogênito de Kamel, Noel Taffic Nacif é hoje empresário do ramo, dono de várias salas de cinema entre elas, as salas do Multicine, no Shopping Brasil Market Place, em Campinas.

Sabendo disso e do que representa um cinema dentro do contexto apresentado, fomos até Leme, no dia 1 de maio de 2000 ? dia do trabalho ? feriadão ensolarado, e o senhor Kamel nos abriu seu cinema, para o conhecermos.

Mas a experiência de conhecer o Cine Alvorada, não foi simplesmente entrar num cinema. Foi bem diferente. Ao entrar em um prédio monstruoso, bem maior que as pequenas salas que estamos acostumados, e nos depararmos com um mar de cadeiras, a sensação foi de vertigem. O termo “vertigem” neste caso, não é uma hipérbole, e sim uma vã tentativa de exprimir a sensação de estar num cinema daquele e ainda por cima, vazio.

Esta vertigem logo se transformou em deslumbre. O cenário era incrível; o mar de poltronas, a tela muito, muito grande, com seus “neons” em vermelho e azul e o teto ilustrado por um sol nascendo, uma Alvorada. Este desenho que cobre boa parte do teto é em azul e amarelo, e foi feito na construção do prédio.

Além de todas estas sensações, o senhor Kamel estava visivelmente tocado por todas aquelas lembranças que ele tinha despertado e aquelas que estava prestes a despertar. Tanto ele, como nós, apenas tecíamos poucos e ínfimos comentários, diante da grandeza do cinema em que estávamos dentro.

Da sala do cinema, fomos a sala de projeção, que o senhor Kamel fez questão de nos apresentar e explicar seu funcionamento. Nos mostrou tudo. Suas duas máquinas de projeção “Simblex XL”, de 1970, em perfeito estado de uso e com vidas longas pela frente. Explicou detalhe por detalhe, as abriu, mostrou as luzes, por onde passa o filme, onde projeta o vídeo, o áudio, e muito mais. Mostrou os rolos de filmes, como eram passado e uns curiosos “rolinhos”, que viemos a descobrir que eram os “trailers”.

Como se não bastasse, ele fez questão de chamar o projetista do cinema, Ricardo Andrade, um rapaz que trabalha há doze anos no cinema. Ricardo nos projetou o filme “Uma mulher de talento”, com Julia Roberts, que estava em cartaz na época.

Foi aí que vimos o tanto que o cinema é bom. A acústica impecável, o som claro e limpo, a imagem enorme e bem alta, mais a sensação de estar num cinema genuíno e carregado de histórias. O cinema é deveras bom.

Após alguns minutos de exibição, saímos para a sala de espera do cinema, que também é enorme, e foi lá que nós ficamos cerca de uma hora e meia conversando com o senhor Kamel, num resgate histórico tanto de Leme, quanto da família dele e sobretudo, do Cinema no sentido lato da palavra: Negócio, paixão e arte.

Há quanto tempo o Sr e dono do cinema?

Eu construí este cinema em 1959. Foi inaugurado no dia 29 de agosto de 1959 por ocasião do aniversário da própria cidade, com a presença de diversos políticos do estado de SP, diversas autoridades. Foi um dia maravilhoso que marcou época. A fundação foi um grande evento na cidade porque o cinema que tinha antes, que por sinal o prédio ainda existe e também era da minha propriedade, se tornou pequeno, sabe? Devido ao grande sucesso deste cinema na época e pelo trabalho da gente, nós éramos obrigado a dar, aqui em Leme, 5 sessões diárias e nestas cinco sessões provocando filas extensas… então necessitava realmente de um edifício mais confortável. E foi projetado este cinema aqui, que por incrível que parece foi feito em 6 meses.

6 meses?

Seis meses, trabalhando dia e noite, com investimento de um capital que eu confesso, não tinha na época, mas através de empréstimos eu consegui concluir a obra. Em seis meses (enfático). O crédito que eu tive era excelente e eu consegui vencer e pagar em praticamente um ano tudo que foi investido aqui tamanho o sucesso do cinema naquela época.

Foi intencional a inauguração coincidir com o dia do aniversário da cidade?

Não. Coincidiu porque no final de 58 derrubamos os prédios que estavam aqui. Aqui tinha um barracão. mais uma pequena casa, mais outra casa no fundo e então aquilo foi adquirido por nós, e , coincidentemente, o cinema ficou pronto em junho, mas nós aguardamos o aniversário da cidade para se constituir um dos eventos da própria cidade. E passou a ser histórico.

Você tem algum vínculo com alguma distribuidora de filmes?

Não, nós não temos vínculo com uma distribuidora, nós temos vínculos com todas elas. Ocorre é que elas distribuem, lançam os filmes numa média de mais ou menos dois filmes dia. Então vamos dizer, por exemplo, A Columbia Piuctures lança um filme. No dia seguinte, ou dois dias após, ela está lançando outros filmes. E nós lançando um filme por semana e às vezes até menos, pq conforme o sucesso do filme, nós vamos para uma segunda ou até terceira semana. Então não tem como acompanhar tudo, por isso o vínculo que nós temos, eu vou dizer de coração, também pelo trabalho que nós temos tido ao decorrer dos anos e eu estou ligado nos cinemas do meu filho, o Noel, que tem cinemas em outras cidade, que junto com a programação dele há possibilidade de também encaixar a nossa programação aqui de Leme. Não tem vínculo, somente com uma, então como é com todas, não vem se tratar de um vínculo.

Como é a compra dos filmes, é individual ou em pacotes?

Você teve a oportunidade de ver como é que um filme profissional em 35 mm. Eles vêm em latões, eles entram em exibição, a metade da renda do cinema é pra eles. A outra metade é pra nós. Só que nós ficamos com a metade e mais as depesas, eles têm a parte, tirando os impostos, direitos autorais, divide-se em dois, semanalmente a gente já remete o dinheiro para eles. Eles mandam a fatura ou a gente deposita no Banco. É dessa forma, então se resume igual o que? Aluguel! (enfático). Então eles nos alugam os filmes através de uma porcentagem sobre o público que estiver assistindo o filme; se tiver 100 pessoas presentes, por exemplo, a R$ 4, são R$ 400 reais. Então estou pagando para eles 200 e todas as despesas de luz, energia, impostos, funcionários, publicidade, tudo por minha conta.

Quem seleciona os filmes que vão passar?

Aí que está. Quem praticamente escolhe os filmes é meu filho Noel, que trabalha comigo, ele vai sempre a SP, ele programa os filmes dos cinemas dele e eles então exigem também… por exemplo: o filme que está sendo exibido agora, da Júlia Roberts, “Uma Mulher de Talento”, esse filme é distribuído e ao mesmo tempo ele é ligado a outros filmes dessa companhia. E eu já tenho, por obrigação, por exibir esse, exibir mais um outro, que é da Colúmbia, se amanhã eu quiser, como eu quis, passar o Beleza Americana, eu tenho que me sujeitar a outro filme da própria United Internecional Pictures, a UIP. Tive que também passar uma fita dela pra poder exibir a Beleza Americana. Então é uma espécie de uma imposição, é automaticamente imposto sobre a gente aquilo que eles querem que os cinemas vendam… Seria um indireto aluguel dos filmes.

Qual a situação do cinema hoje em dia no sentido de público?

Se compararmos o que era o cinema a 6, 8, 10 anos atrás, caiu bastante. Houve uma recuperação na frequencioa do cinema por ocasião do Titanic. Antes do Titanic ser exibido nós estávamos numa faixa de 10… o Titanic foi para uma faixa de 100… quando o Titanic saiu baixou para 40, então em relação ao que era, o cinema passou a ter uma freqüência melhor do que estava tendo dois anos antes do Titanic. Porém, antes da era Titanic, nós tínhamos uma fase esplêndida que nós tínhamos uma freqüência quase que total do cinema, aos domingos principalmente. Hoje, infelizmente, a quantidade de pessoas, vai entre 80 a 150 pessoas.

Como era essa fase que lotava o cinema?

Nós lotávamos as sessões de sábados, domingos. Passava-se duas, três sessões. A primeira sessão geralmente dava 1200 lugares mais cento e poucos lugares de pé. A gente não queria que isto acontecesse, mas nós éramos obrigados a ceder, por que nessa sala deste tamanho… Somos bastantes conhecidos e sou, além de proprietário, gerente; então tem que fazer a relação pública com o público, por isso éramos obrigados a deixar. Por que? Pelo sucesso do cinema antes. Era um sucesso extraordinário, e na segunda sessão não chegava a lotar, mas 900, 1000 lugares e esses 900, 1000 lugares é como se tivesse lotado. Por que o espaço entre uma fileira e outra, uma poltrona que esteja vazia é a diferença. Por isso que não podia guardar lugar. Já teve briga, a disputa pelo lugar era grande. Só podia reservar o lugar depois que começasse depois que começar a sessão. Antes de começar a sessão não se tem lugar, não pode guardar lugar.

Onde o Sr nasceu?

Eu nasci aqui em Leme mesmo. Meus avós vieram pra cá em 1892, do Líbano. Diretamente do porto de Beirute para Santos. Fizeram 45 dias de viajem à vapor. Minha mãe nasceu próximo daqui, em S.ta Rita do Passa Quatro, e casou com 13 anos com meu pai. Tiveram 9 filhos e enfim, eu me orgulho de dizer que meus avós foram um dos primeiros habitantes aqui de Leme. Leme começou a ser povoada por volta de 1878, quer dizer, 20 anos depois que Leme já existia, vieram meus avós. O meu avô, eu falo com muito orgulho, foi mascate, ele vendia mercadorias, depositava no lombo de um burro e ia até Descalvado, Porto Ferreira, Pirassununga, Araras, fazia esta região. Depois de certo tempo ele se instalou, por incrível que pareça, neste lugar que nós estamos conversando. Isto aqui se tornou propriedade deles, e depois daqui, eles se instalaram ali numa esquina, e compraram quase todo este quarteirão. Mais aquela parte de cima, enfim se tornou uma fortuna patrimonial bem elevada. Depois vieram os filhos, bastante filhos, não era só o meu pai, eram quatro irmãos, e cada um com meia dúzia de filhos e isto tudo se dividiu.

Que filmes eram exibidos nesta época?

No Marabá (antigo cinema da família) passava mais “Mazzaropi”, Faroeste, e no Alvorada filmes mais finos, a época do cinema scope (wide screen) “Ben Hur”, “O Manto Sagrado”, “Os Dez Mandamentos”, “Volta ao mundo em oitenta dias”. O “E o Vento Levou” começou no Marabá e continuou aqui no Alvorada.

Naquela época, como eram divididas as sessões tanto no Marabá quanto aqui no Alvorada? Tinha matinês?

Nas matinês naquela época nós exibíamos seriados… os filmes em série, filmes seriados… causava aquela sensação ? Voltem na próxima semana, né? O público saia com aquela expectativa do que “vai acontecer”. Tinha um grande filme que até hoje falo com muita saudade, “O Império Submarino”. Tinha o “Flash Gordon”, vocês já ouviram falar? Tinha as revistinhas e teve também no cinema, mas não produziu aquilo que o Flash Gordon produziu naquela época. Um outro filme que marcou foi “O Império dos Sentidos”, um filme mais forte, mais pesado, que foi o primeiro que causou sensação, foi um filme mais ousado. Porque a censura antigamente punha filme 18 anos no “Can-Can”, moças dançavam lá com as pernas livres e era só pra maiores de 18 anos. Hoje praticamente não há mais censura. E com censura, nós nunca tivemos nenhum problema. Nunca.

E os Faroestes?

Faroeste era uma coisa maravilhosa, antigamente nós passávamos nas matinês os faroestes mais curtos com Charles Scarlet, Roy Rogers, e o filme em série, né? Valpalou Cacit, que por sinal, morreu a pouco tempo com cem anos de idades. John Ford “No tempo da Diligência”, “Matar ou Morrer”, com John Wayne, que era o ator predileto dele. Eu tenho saudade de certos artistas como Jimi Cooper, grande astro, fazia todo tipo de papel, comédia, romance, drama, faroeste e filme de guerra. Fazia tudo. Randolph Scoter, que era só faroeste, mas era o mocinho mais bacana que eu já vi no cinema. Uma época bem longínqua da nossa. Coisa de 40 e poucos anos atrás, ou mais.

Quais os filmes que marcaram época?

Naquele cine (Marabá) foi “E o vento levou”, foi o “Ben Hur” e neste (Alvorada) aqui, vou te dizer, foram tantos filmes… o “Titanic”, mais recente, e outros como “Assim Caminha a Humanidade”, “Dez Mandamentos” e outros.

O cinema além de sala de exibição, cumpria outras funções sociais?

Haja vista até a forma do próprio vestuário. Eu peguei a fase da gravata, aos domingos você tinha que vir de paletó e gravata. Dia de semana, o uso de gravata era liberado. Hoje eu permito entrar no cinema até de bermuda… não vejo porque não. Aqui é uma cidade quente e eu não faço questão. Mas naquela época era diferente, mas passou o tempo e fomos abrandando. Mas essa parte social, ela muito importante… vamos lembrar sobre os namoros, os romances nos cinemas… Ah! era maravilhoso… eu arranjei diversos casamentos, eu fui o cupido de diversos casamentos e diversos casais ainda vem a mim e lembram, alguns brincando, falam: “vc foi o causador da nossa infelicidade” (risos), “se fosse vc eu não tinha constituído uma família”. Eu fazia sempre o papel do homem de relacionamento com o público, eu acomodava os casais, por exemplo se tinha uma cadeira vazia, vinha uma mulher sozinha e um moço sozinho, eu os colocava juntos. Hoje a gente não dá nem pelotas, a gente fica lá na frente, mas passou dali a pessoa quer tomar sua coca-cola. Aquela gentileza toda não faz mais efeito como antigamente, mesmo porque como a freqüência era maior do que hoje você precisava acomodar as pessoas para sentar. Então você acomodava as pessoas no cinema.

Quais eram os artistas que o se mais gostava?

Gary Cooper, Ralph Bolen, Gene Kelly, fora do cinema americano o Cantínfulas, Libertara Mai que era uma cantora argentina produzia filmes no México. Os filmes de Libertara Mai era uma coisa sensacional. Teve época do auge do cinema italiano, do cinema francês… hoje o cinema italiano e francês não são exibidos tanto quanto antes. Os atores que eu gosto hoje em dia é o Tom Hanks, Tom Cruise, Denzel Washington… as atriz, além da Julia Robert, Cameron Diaz, Catherine Zeta-Jones…

E seus filmes prediletos?

E o vento levou”, “Os dez mandamentos”, íncrivel! “Ben Hur”, você vê que é tudo do passado, né? Mas eu adoro os filmes atuais. O meu gêneros preferidos são suspende e policial, Hitcock muito… os atuais por exemplo, um dos filmes que eu mais gostei posso frisar pra você dois: “A espera de um milagre” e “Hurricane, o furacão”, filmes fantásticos. Me emocionaram muito.

E o que mudou hoje nas produções cinematográficas?

Eu acho que a tecnologia, cenário, som, luz, enfim… eles foram conquistando equipamentos, melhorando o cinema de forma fantástica. O que o cinema produz hoje é uma coisa sensacional, eles usam a computação. Então o cinema foi evoluindo numa técnica que se o público souber dar valor, é uma coisa que a telinha não consegue, né? A televisão não consegue de jeito nenhum. Então você nota às vezes, esses canais à cabo que você vê aí, por exemplo, a “Telecine 5” exibe os filmes antigos, você nota que aparece até os microfones que estão gravando, o som, né? as interpretações, algumas esplêndidas que não se concebe como que antigamente poderia exigir do ator, o que esse ator poderia fazer, coisa maravilhosa! Porém os diretores não tinham os recursos que têm hoje. Hoje através de equipamentos ele está aqui, está ali, tem o investimento financeiro enorme, que não é como antes. Pra mim o cinema tem duas fases: antes do cinema “scope” e depois do cinema scope. Esse termo de “cinema scope” não é usado mais, mas é o cinema de tela larga. O cinema comum, plano, que por sinal tem até hoje, não alcança o que o cinema scope alcança. O “Ben Hur”, o “Manto Sagrado”, aquelas coisas gigantes. Então as produções foram ficando cada vez mais ricas e os americanos foram ficando obrigados a investir cada vez mais porque a industria do cinema está lá, 90 % está lá; eles foram obrigados a melhorar cada vez mais, culminando com o som, o dolby stereo. Antes você ia ao cinema e sentia o som vindo só na frente, o som quadrado, hoje não, hoje você sente um papel amassado aqui, um grito do lado… isso veio da era do cinema scope, a tela larga e o som estereofônico, que caiu, passando a ser o dolby stereo, que depois veio o dolby stereo digital. Então eu classifico o cinema antes do cinema scope e após o cinema scope. Entenderam? Tem o cinema mudo, mas isso é querer ir muito longe, o cinema mudo, cinema sonoro, cinema preto e branco, cinema tecnicolor, mas eu classifico desse modo, falando da minha vida profissional no cinema, o tanto que eu amo o cinema, apesar que eu não sou um estudioso em termos de produção; eu sou muito ligado a distribuição e a apresentação do cinema, mas isso me obriga a acompanhar, por questão de necessidade de acompanhar, apesar de que eu não tenho mais memória de lembrar muitas coisas… (risos)

E o cinema como negócio?

Pra mim, em Leme, como negócio, ele foi se dilatando, produzindo mais, sendo mais rendoso e em 1951 a 1959 uma fase, de 59 a 80 quase 90, uma outra fase, de 90 pra cá houve uma acentuada queda e se estabilizando agora na época em que vivemos. Antes de 51 o cinema tinha seus aficionados, a cidade era bem menor, o público era mais reduzido, mas assim mesmo o público de 47 era maior do que o de hoje. Em 47 o público do cinema era maior. Nós chegávamos a colocar uma média de 400 pessoas no domingo, depois ela foi se elevando quando chegou em 51 mais ou menos, aí começou a se elevar pra mais sessões colocando uma média de 1000 pessoas no domingo, lá naquele cinema (Marabá), foi quando construímos esse aqui.

E porque fechou o outro cinema?

Em função do próprio cinema ter decaído pelo advento da televisão, os canais abertos, principalmente o vídeo, o vídeo foi o que mais causou o declínio, a televisão nem tanto… Mas o vídeo foi o que causou mais o fechamento do outro cinema e o decréscimo de público aqui.

E a Internet, você acha tá tirando público de hoje?

A Internet não. Pra mim, eu acho que a Internet não afetou o cinema, pelo contrário, na Internet as pessoas vão em busca do que tem no cinema para exibir, você vai ver o que é lançado, até a hora do lançamento nos Estados Unidos. Então provoca no público uma curiosidade para ir ao cinema. A Internet está ajudando o cinema.

Qual a maior dificuldade que o senhor encontra na manutenção deste cinema?

Você faz um cálculo. Pelo tamanho do cinema, das despesas que a gente tem e devido a necessidade de dar um atendimento correto, você tem que ter funcionários para isso, além do porteiro, o vigia… as pessoas que cuidam do cinema. Eu não admito relaxo, sujeira, eu quero que a pessoa se sinta bem dentro do cinema. Então eu tenho um cinema grande que dá uma despesa grande e o público é reduzido para esse cinema. Então eu sou obrigado a manter um preço pequeno, por causa da cidade ser pequena, eu tenho um lucro pequeno por que o custo do ingresso é pequeno e as despesas são grandes, né? A gente tem direitos autorais para pagar, impostos sobre qualquer natureza, imposto sobre serviço, que é da prefeitura e isso faz com que a gente peleje um pouco. Mas felizmente eu não tenho aluguel, né? O prédio é meu, então eu trabalho como se o prédio estivesse no aluguel e sobrando um pouco mais. É um sacrifício, mas eu o enfrento graças ao ideal, ao amor que eu tenho por isso aqui. A gente que fez, que lutou tanto pra ter isso aqui, numa época em que precisava ter, que o público praticamente exigia.

Você consegue, de qualquer forma, ter um lucro?

Um lucro pequeno, que na hora que esse lucro não existir a gente tá fadado a acontecer o que aconteceu com os outros grandes cinema s por aí. Mas eu luto para que esse pequeno lucro exista, porque senão não há o porquê de continuar. A gente presume o cinema está fadado… pode ser que volte a ser um grande investimento, mas pode se tornar um investimento não mais aconselhável.

Vc já foi abordado por bingos ou igrejas?

Para o bingo já foi aquele outro cinema. Eu o transformei em teatro mas, infelizmente, a sensibilidade cultural do prefeito, das autoridades não existiu. Precisava uma pequena reforminha, a prefeitura continuaria me pagando um aluguel, mas o prefeito achou que não precisava ter um teatro em Leme, que pesava muito para a prefeitura. Então o bingo foi me procurar quando fechou o teatro. Sentindo o desinteresse total por parte da prefeitura eu abri mão do teatro que é uma outra coisa que eu adoro, não fazer o teatro, ser ator, mas ver teatro. Acho isso importante! Muito cultural, muito de país adiantado, de raiz de pais adiantado. Então chorei. Confesso que chorei quando eu mandei que retirasse as poltronas. As tirei para ser bingo (inconformado) .Então aquele lá, bingo, mas esse aqui se alguém chegar para mim e querer fazer bingo ou igreja é capaz de comprar briga. Não aceito. O máximo que pode acontecer é ser desdobrado, mas em cinema, em duas ou três salas, de preferencia em duas salas.

Qual o futuro do cinema?

Futuramente o cinema , no caso nosso aqui, eu acredito num encerramento. Mas eu acredito piamente que o cinema sempre existirá porque o cinema é feito como se fosse um teatro, mas pode ser levado a qualquer lugar, né? É uma arte que só o cinema, que é a sétima arte, pode ser elevado para fora; porque através da própria Internet, através da tv a cabo… o que vai acontecer com essas tvs por aí, com a internet, se não tiver o cinema? Então o cinema sempre existirá. Você não vai produzir um Tom Cruise em um computador, não é verdade? Então essas grandes produções que encantam a vista sempre existirão, o cinema sempre existirá. Além do interesse do dinheiro da indústria americana, sem o cinema não tem o romance, a pipoca, ou seja eu, acredito que nada substitui o cinema. O cinema sempre existirá.


Titulo: Negócio, paixão e arte

Autor: Paulo Henrique

Gênero: Conto

Data de publicação: 21 de dezembro de 2003

Resumo:

Entrevista com Kamel Tauffic Nacif, propietário do antigo e enorme Cine Alvorada, de Leme-SP.

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7 Comentários

  1. Tiago disse:

    E hoje, dia 31 de março, nossa referência cultural será fechada. Fim do Alvorada.

  2. Alice disse:

    Olá! Gostaria de entrar em contato com o autor desse texto, contar-lhe oq está havendo com a cidade de Leme e o cinema Alvorada que estara sendo demolido amanhã!

  3. Eduardo Vinicius Andrielli disse:

    É com dor no peito que li a matéria…..
    INFELIZMENTE esse CINEMA que impressionou tanto o autor da matéria está com os dias contatos.
    A municipalidade não fez coisa alguma para evitar o fim, o CINEMA foi vendido e virará uma estacionamento automotivo!.

  4. Olá Paulo Henrique, tudo bem??? Bom, primeiramente gostaria de parabenizá-lo pelo artigo, eu o li na época em que escreveu e estou rebuscando-o pelo seguinte motivo: O CINE ALVORADA ENCERRARÁ SUAS SEÇÕES NO DIA 31/03/2011. Isto esta causando uma revolta e tristeza geral entre os lemenses, pois ha 52 anos o Alvorada faz parte, diaramente, de nossas vidas. Eu gostaria muito de falar sobre o assunto com vc, de maneira mais aberta, teria algum email ou qualquer tipo de contato onde isso possa ser possivel? de qq maneira meu email e facebook estão ali nos dados acima.

    Obrigada!

  5. Paula Longhin disse:

    Só li esse artigo hoje (8/01/2011) e achei fabuloso. É bom saber que depois de tanto tempo o cinema continua funcionando.. Achei curiosamente este artigo na busca pelo site do Cine Alvorada, para checar a programação, afinal… sábado é dia de cinema! Fico orgulhosa por saber que Leme é conhecida por esse memorável cinema, que tanto me agrada.

  6. isabella disse:

    achei mto interessante,moro em Leme e também nao sabia dessa historia… bjos

  7. Everton disse:

    Paulo eu moro em Leme-SP e não conhecia a historia do Cinema ,achei muito interessante sera q vc teria fotos de como era o cinema e de como é nos dias atuais, adorei sua materia, vc tbm é de Leme? pois pesquisei na internet e acho q + ninguem escreveu uma historia assim c/ tantos detalhes sobre o nosso cinema,se vc puder me mandas umas fotos ficarei muito contente, desde ja lhe agradeço e obrigado tbm pela incriven materia (everton_damiao84@hotmail.com)

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Quem é Paulo Henrique?

Cristão, mineiro, 25 anos e jornalista.

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