Non, je ne regrette rien

Conto por Bruno Santos
20 de abril de 2004

32_bmsnts_n7ogk5zs

Ela começou a não sentir mais seu corpo por inteiro. Pouco a pouco sua sensibilidade física se esvaía, restando apenas a sensibilidade entorpecida da alma. O cirurgião sumia atrás do lençol, dando início à intervenção clínica, enquanto em sua mente diversos pensamentos confusos se colidiam.

Não podia acreditar no que lhe havia acontecido. O destino fora traiçoeiro ao lançar-lhe tal acidente em plena flor da juventude. Inébria, procurava o olhar de sua mãe, que sofria junto ao leito, orando por sua saúde.

De início, aliviava-a a certeza de que depois tudo voltaria ao normal. Só algumas horas de dor no corpo para depois voltar a aproveitar a vida. No entanto, ao mesmo tempo em que o problema era extirpado, crescia em si um vazio no peito. Enquanto a razão tinha lugar, neutralizava um princípio de arrependimento. Agora, anestesiada, a emoção brotava sob suas pálpebras, fazendo escorrer um fio de lágrima por sua tez clara e lisa.

Nao havia mais como voltar atrás. Além de sua incapacidade de agir, já tinha sido dilacerado e arrancado de seu ventre o minúsculo esboço de ser humano. Não podia compreender bem o que acabava de acontecer, porém tinha uma amarga sensação de eventualmente ter jogado sua futura razão de viver dentro de um cesto de resíduos hospitalares.

Ao voltar para casa, sentia pequenas feridas no útero. A mãe trouxe algumas pílulas analgésicas e um olhar severo. Deitou-se em sua cama e cobriu-se, encurvando-se, parecendo proteger-se de seu próprio julgamento. Na vitrola, o timbre de Edith Piaf parecia querer lhe dar força para continuar a vida com dignidade. Oscilando entre melancolia e alívio, finalmente adormeceu.

"Para quem se comporta, brinde.

Para a mulher que aborta, repouso."


(Nando Reis)


Titulo: Non, je ne regrette rien

Autor: Bruno Santos

Gênero: Conto

Data de publicação: 20 de abril de 2004

Resumo:

O fato é que devemos assumir nossas decisões.

2 Comentários

  1. Andre Penha disse:

    cri…cri…cri…cri…cri…cri…cri…cri…cri…cri…cri…cri…cri…cri… (faz o grilo no fundo)

  2. PH disse:

    drámatica e dolorida, assim como as decisões (e mancadas) da vida real.

Deixe seu Comentário

Spam Protection by WP-SpamFree

Quem é Bruno Santos?

Um escritor enrustido, amante das letras, que por ironia do destino entrou para o mundo dos cálculos e que agora quer se encontrar novamente.

Bad Behavior has blocked 5 access attempts in the last 7 days.